Jogadoras denunciam discriminação e sexismo no Hóquei sobre a grama

Atletas da seleção, que está fora do Pan de Toronto, protestam contra atitudes de ex-treinador da equipe e lamentam não ter a chance de lutar por vaga para os Jogos Olímpicos do Rio-2016

Por edsel.britto

São Paulo - Indignadas com o que enxergam como diferença de tratamento dispensada pela Confederação Brasileira de Hóquei sobre Grama à seleção masculina e à feminina, as jogadoras divulgaram um pronunciamento no qual fazem pesados ataques à administração da entidade, presidida por Sydnei Rocha. Às vésperas do início ofcial dos Jogos Pan-Americanos, aumenta a tristeza das jogadoras, que veem a seleção masculina prestes a entrar na briga por vaga nos Jogos Olímpicos, enquanto elas assistem a tudo à distância.

"Um dia antes de a CBHG enviar a notificação sobre a Equipe Feminina estar fora das Olimpíadas no nosso país, a equipe masculina foi convocada para 3 meses de treinamento na Europa. Treinamento este para a World League, campeonato que tinha um peso determinante para a gente, e não para o masculino, que àquela altura estava esperando resultado de outros países para saber se abriria uma vaga para eles nos Jogos Pan-Americanos de 2015, ou seja, eles não estavam certos de brigar por uma vaga nas Olimpíadas, apenas o Feminino".

As atletas da Seleção de Hóquei sobre a grama fizeram denúncias de sexismo e discriminaçãoDivulgação

No mais recente comunicado, além de repetir as queixas voltadas contra essa discriminação, as jogadoras denunciam sexismo. "Expressões sobre nossos corpos e discriminação sobre diferenças físicas entre o masculino e feminino eram sempre ouvidas, fora o julgamento de comportamento das atletas mulheres, diferente entre os gêneros, com um tom machista de uma Comissão Técnica onde quase toda sua totalidade são homens", diz o texto.

Nelson Siqueira, jornalista e jogador amador da modalidade nas horas vagas, responsável pelo blog "Hóquei Brasil", diz que o técnico Cláudio Rocha proibia, em competições internacionais, que as jogadoras tivessem contato com atletas estrangeiros e com os próprios atletas da seleção brasileira masculina. A lateral Bruna Ferraro confirma o teor desse relato. "Ele achava que era o dono da gente. Sempre teve alguma namoradinha no meio do hóquei, até mesmo uma jogadora menor de idade", afirma.

Bruna diz que a divulgação do comunicado é uma tentativa de evitar que o esporte morra no Brasil. Depois da Olimpíada, ela acredita que o esporte tende a desaparecer se nada for feito. "Queremos derrubar a atual gestão, que é um câncer para o esporte".

A CBHG chegou a publicar um anúncio no Facebook, no qual anunciava uma vaga de treinador para a seleção feminina. "Um rapaz que gosta de hóquei em Minas Gerais até se animou e enviou um currículo. Quem sabe, não é?", comenta Nelson.

Ex-goleira das famosas "Leonas", o apelido da seleção argentina, Mariana Arnal, hoje treinadora da Universidad de La Plata, enviou o seu currículo, mas a CBHG sequer acusou o recebimento.

Javier Rubin, diretor de comunicação da CBHG, publicou nota oficial na qual nega que haja sexismo no hóquei. O texto diz que "rechaça com veemência a alegação de sexismo". Segundo Rubin, a entidade realizou análise em conjunto com o COB que apontou uma distância maior entre o nível técnico da equipe feminina e as grandes potências do esporte em relação à discrepância entre a seleção masculina e as principais forças da modalidade.

A seleção masculina conseguirá a vaga olímpica se conseguir ficar entre as seis melhores seleções em Toronto. Além do hóquei feminino, outras modalidades do Pan não terão participação brasileira: beisebol, raquetebol e patinação velocidade.

Leia, na íntegra, o pronunciamento das atletas da seleção brasileira feminina

Nós, atletas de Hóquei sobre grama, que vestimos a camisa da Seleção Brasileira de Hóquei sobre Grama por muitas vezes, lamentamos como nossa Confederação conduz a Equipe Feminina!

A preferência pela equipe masculina é vista há muito tempo, o gênero masculino sempre foi tratado como uma equipe de verdade, e nós do feminino como um “bando”.
Expressões sobre nossos corpos e discriminação sobre diferenças físicas entre o masculino e feminino eram sempre ouvidas, fora o julgamento de comportamento das atletas mulheres, diferente entre os gêneros, com um tom machista de uma Comissão Técnica onde quase toda sua totalidade são homens.
Início de 2014 foi a última formação da Seleção Feminina. No mesmo ano teríamos a World League, importantíssima para o futuro da Equipe no ranking internacional e de sua classificação para as Olimpíadas de 2016, mas o que aconteceu de fato foi a decisão da CBHG de usar os recursos apenas para a Equipe Masculina, nos deixando no ZERO.
Um dia antes da CBHG enviar a notificação sobre a Equipe Feminina estar fora das Olimpíadas no nosso país, a equipe masculina foi convocada para 3 meses de treinamento na Europa. Treinamento este para a World League, campeonato que tinha um peso determinante para a gente, e não para o masculino, que àquela altura estava esperando resultado de outros países para saber se abriria uma vaga para eles no Pan Americano de 2015, ou seja, eles não estavam certos de brigar por uma vaga nas Olimpíadas, apenas o Feminino.
Essa decisão fez com que a Seleção Feminina ficasse abandonada. Uma tentativa de patrocínio foi conseguida por atletas, mas que nem isso a Confederação conseguiu entrar em um acordo, e cá estamos MAIS DE 1 ANO SEM EQUIPE FEMININA.
Nosso país não nos dá recursos para evolução, temos um campo em todo o Brasil e
está em obra para as Olimpíadas, este ano não se tem uma definição sobre o Campeonato Brasileiro, fora a falta de desenvolvimento e formação de novos atletas. A quantidade de times diminui e a incerteza de uma má gestão só aumenta.
A Seleção Masculina após 3 meses de preparação na Europa para a World League, e de fato ficar com a vaga que se abriu para eles no Pan-Americano, já está desde o fim do carnaval na Europa, um treinamento intenso e muito dispendioso, com um cronograma até o final do ano, envolvendo Pan, Pan Challenge, Evento Teste e treinamentos na Europa entre estas A equipe Feminina ficou sem nenhum planejamento, e a pouco menos de 5 meses do início do Pan Challenge, a CBHG faz uma convocação totalmente diferente do usual para as atletas do feminino, e 10 dias depois aparece procurando um Técnico, em documento pelo Facebook, onde os interessados enviaram currículo. Depois de mais de 1 mês sem se pronunciar sobre a lista de atletas indicadas por cada Clube a CBHG divulga datas para testes físicos e novamente pede para que enviemos uma lista das atletas.

Já estamos a 3 meses do início do campeonato e muita coisa está faltando para a Equipe Feminina:
Onde está nossa Comissão Técnica? Quem são os profissionais?
Quem foi contratado como Técnico?
Quem fará as avaliações físicas?
Como as atletas no exterior serão avaliadas?
Quem vai decidir a lista de atletas que irão ao Pan Challenge?
Qual o cronograma/datas de treinamento?
Qual o planejamento futuro para a Seleção Feminina?

Tudo isso foi questionado por nós a fim de entender a situação da seleção Feminina e nosso futuro, mas infelizmente o que recebemos foram respostas vazias, mostrando mais uma vez que nada mudou.
Infelizmente o descaso com a equipe Feminina não mudou, virar a 3ª força da América do Sul, objetivo este passado a nós pela CBHG, ficará impossível com o tipo de tratamento que nós meninas recebemos, isso requer investimento, planejamento e muito trabalho, coisas que nunca vimos nossa Confederação fazer por nós.
Tiraram nossa chance de conseguir classificação para as Olimpíadas Rio2016, tiraram nossos recursos, nos calaram por mais de 1 ano e o que vemos é tudo voltando a se repetir. Aceitar calada e ficar refém do nosso sonho de integrar a Seleção Brasileira não mudará a realidade do Hóquei no Brasil!
É com muita tristeza, e por amor ao nosso esporte, que dizemos:
NÃO PARTICIPAREMOS MAIS DA SELEÇÃO COM ESSE TIPO DE GESTÃO!!!

*Reportagem de Alessandro Lucchetti

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