Presidente da Rússia, Vladimir Putin - AFP PHOTO / Sputnik / Mikhail KLIMENTYEV
Presidente da Rússia, Vladimir PutinAFP PHOTO / Sputnik / Mikhail KLIMENTYEV
Por ESTADÃO CONTEÚDO

Rússia - À medida que a Rússia se preparava para receber o mundo em sua Copa, em 2018, observadores registraram uma alta no número de incidentes racistas e homofóbicos no futebol do país anfitrião do principal torneio do futebol.

Um estudo publicado nesta quarta-feira pelas entidades Fare Network e Sova Center indicam que, ainda que a discriminação de uma forma geral tenha dado sinais de queda, os casos de racismo registraram elevação em 2018. No total, 19 incidentes foram identificados na temporada 2017/2018. Em 2016/2017, apenas dois casos tinham sido registrados, contra dez entre 2015 e 2016.

As entidades são parceiras da Fifa e da Uefa no monitoramento do racismo no futebol. Mas criticaram os organizadores da Copa por terem "perdido a oportunidade" de mudar a cultura do futebol na Rússia.

A xenofobia da torcida russa foi sempre um elemento de preocupação entre os organizadores da Fifa. Mas, para os dirigentes de Moscou, esse problema não existiria e não seria diferente do que já é a realidade em outros países europeus. Agora, porém, o levantamento aponta para o fato de que esse comportamento parece ser cada vez mais comum nas arquibancadas.

Um dos casos mais emblemáticos envolveu o goleiro Guilherme Marinato. Nascido no Brasil e naturalizado russo, ele foi alvo em duas ocasiões de gritos imitando macaco enquanto jogava pelo Lokomotiv Moscou, contra o Spartak Moscou. "Banana, banana. Por que diabos a seleção russa precisa de um macaco?", atacaram os torcedores.

Guilherme chegou a participar da Copa das Confederações, pela seleção russa em 2017. Ele ainda foi o primeiro jogador fora dos territórios da ex-União Soviética a defender a seleção do país.

Em março, os jogadores da seleção francesa também foram alvos de ataques racistas e sons que imitavam macacos durante amistoso contra a Rússia. A federação russa acabou sendo multada em US$ 30 mil(cerca de R$ 110 mil, na cotação atual) pela Fifa.

O levantamento também aponta para o caso das ofensas recebidas pelo jogador do grupo sub-23 do Liverpool, Bobby Adekanye, o que levou a seleção inglesa a preparar seus jogadores para eventuais atos de racismo durante a Copa.

Os casos não se limitam ao campo. De acordo com a Fare, uma autoridade russa declarou à imprensa local que seu clube de Vladivostok se recusaria a contratar jogadores negros.

O que os especialistas tem identificado é uma migração do comportamento das torcidas, abandonando posições políticas de extrema-direita ou neonazistas, para ataques racistas. para Piara Powar, diretor-executivo da entidade de monitoramento, cartazes nos estádios com símbolos políticos eram de fácil identificação, o que levou essas alas das torcidas a abandonar essa estratégia e se focar em ataques racistas.

"Muitos clubes passaram a monitorar o que existia nas arquibancadas em termos de cartazes", disse. "Mas cantar hinos racistas ou fazer ataques desse gênero contra jogadores é algo mais difícil de ser identificado pela polícia", argumentou.

O resultado da pesquisa apontou que, no total, 80 incidentes de discriminação foram registrados na temporada 2017/2018, o menor numero desde 2014. No lugar de imagens explícitas da extrema-direita, torcedores passaram a usar mensagens codificadas ou cantos e símbolos vikings. Desse total, 12 casos se referem a ataques homofóbicos, algo considerado como uma novidade nos estádios russos.

Ainda assim, 51 casos foram registrados na atual temporada com um forte caráter de extrema-direita. Em novembro, a torcida do Zenit, de São Petersburgo, abriu um cartaz em homenagem a Ratko Mladic, comandante na ex-Iugoslávia e condenado por crimes de guerra. A Uefa acabou multando o time e fechando parcialmente o estádio.

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