A força que vem do subúrbio:

Morador de Marechal Hermes, Raoni divide seu tempo entre os treinos para a luta do UFC 237 e as aulas em projeto social

Por Jessyca Damaso

A maior organização de artes marciais mistas do mundo se rende ao talento de um típico representante do subúrbio carioca, como ele mesmo se define. Um dos principais prospectos do MMA brasileiro, Raoni Barcelos, de Marechal Hermes, comemora a oportunidade de lutar em sua cidade natal, num card repleto de ídolos.
"Me sinto realizado, porque tiveram três edições do UFC aqui no Rio, mas não consegui estar com grandes nomes no card. O José Aldo é uma das minhas grandes inspirações. O Anderson Silva nem se fala. Quando eu nem sonhava estar no MMA, ele já era um ídolo no esporte. Fico muito feliz de lutar na minha cidade, na frente da minha família, dos meus amigos, do público carioca, das crianças aqui do meu projeto...", celebra Raoni.Sem lutar no Brasil desde 2013, o ex-campeão dos pesos penas do extinto RFA iria enfrentar Said Nurmagomedov, mas faltando duas semanas para o UFC 237, que acontecerá sábado, na Jeunesse Arena, na Barra, o Ultimate informou que o russo havia se retirado da luta por motivos ainda desconhecidos. De última hora, foi convocado o peruano Carlos ‘Cachorro Malvado’ Huachín.
“Não sei o motivo, mas se ele saiu foi por algo sério. Seria uma luta que quem ganhasse já seria top 15 da categoria. Mas agradeço ao Sean Shelby e ao UFC por conseguir um adversário novo. Garanto que o foco e o respeito serão os mesmos. Lógico que irei em busca de nocaute ou finalização. Vou entrar para ser campeão”, diz Raoni.
Das suas 13 lutas, Raoni venceu sete por nocaute. Já seu oponente nunca foi nocauteado, mas Raoni já mostrou no octógono que isso não é um empecilho:
"Na minha estreia no UFC, lutei com o Kurt Holobaugh, que também nunca tinha sido nocauteado e eu o nocauteei. Quando a mão entra não tem jeito. Mas coloquei na minha cabeça que o nocaute e a finalização são consequências da luta. Vou fazer meu papel, ir pra cima, buscando a vitória a todo momento. Mas entro sempre pra lutar os três rounds", diz o carioca da gema, garantindo que já está sentindo o carinho do público: “Estou me preparando 110% pra essa luta. Não estou sentindo pressão alguma, muito pelo contrário. O que eu estou sentindo é a vibração positiva de todo mundo”.
Importância do pai
Raoni começou sua caminhada no jiu-jítsu ainda na infância. Na adolescência, migrou para o judô e colecionou títulos, como os Campeonatos Mundiais nas faixas azul e roxa, além de vários Brasileiros. Depois, foi para a luta olímpica, chegando à seleção brasileira, pela qual ganhou medalhas em Sul-Americanos e Pan-Americanos.
A paixão pelas lutas (e vitórias) é uma herança de família. O atleta de 32 anos é filho do lendário mestre Laerte Barcelos, faixa-coral de jiu-jítsu. Foi ele que iniciou Raoni no esporte e, hoje, atua como seu treinador. Mais que isso, é uma inspiração.
“Se estou na luta é por causa do meu pai. Ele que me ensinou os primeiros passos, que me ensinou o esporte, não somente o jiu-jítsu, mas também o judô e a luta olímpica. Meu pai é um grande ícone, uma inspiração em minha vida. Estar com ele sempre ao meu lado é sensacional", emociona-se o lutador, sem pensar duas vezes quando perguntado para quem dedicará um possível triunfo: "Para ele, lógico! Merece muito".
O gás que vem das crianças e dos jovens
A parceria entre pai e filho vai além das competições: os dois trabalham juntos na Usina de Campeões, projeto social que funciona na Refit, refinaria de petróleo em Manguinhos. A escola ensina, de forma gratuita, artes marciais a crianças e jovens carentes que moram na região.
"Estou todos os dias em Manguinhos como professor de luta olímpica e meu pai, como professor de jiu-jítsu. Damos aulas terça e quinta. A Usina de Campeões tem um papel fundamental na minha vida, faz uma diferença muito grande ensinar, fazer o bem para esses alunos que não têm praticamente nenhuma referência, nenhum apoio. É o que me dá energia para treinar. É uma honra entrar num octógono representando todos eles", orgulha-se o lutador do UFC, que ainda tenta reativar outro projeto social, em Marechal Hermes: "A gente parou por falta de verba. Não conseguimos mais pagar o espaço, os professores. Mas estamos tentando".
É bom não duvidar de que Raoni é forte o bastante para conquistar mais essa vitória. Que ele vença o descaso por nocaute.

Comentários