Antirracista e fã de rap: 'goleiro de Wakanda', Aranha passa carreira a limpo

'Muita gente acredita que falar sobre racismo é o que causa ele. Tremenda burrice'

Por Yuri Eiras

Aranha defendeu clubes gigantes do país, como Santos e Palmeiras
Aranha defendeu clubes gigantes do país, como Santos e Palmeiras -
Rio - Aranha está em casa cuidando da família desde que deixou o Avaí, no fim do ano passado. Em junho, disputou a pelada Amigos do Falcão contra Amigos do Giovanni, em Franca, interior de São Paulo. O jogo beneficente teve transmissão do canal 'Sportv', e nas redes sociais o comentário foi sobre o fato de o goleiro estar acima do peso - ele não anunciou aposentadoria. Ainda que a contragosto, a carreira de Aranha foi toda assim: marcada por comentários que passam à margem de seu talento debaixo das traves.
Ao DIA, Aranha denunciou a falta de goleiros negros no país. Relembrou Barbosa, citou Abdias do Nascimento e disse se orgulhar por ser referência para garotos pelo Brasil afora. "Eu recebi um vídeo de um garoto negro que se destacou num campeonato. Este garoto, quando perguntado quem eram seus ídolos,  disse 'Aranha'. Perguntaram 'por que?', e ele respondeu: 'Aranha é Wakanda (cidade fictícia do filme Pantera Negra)'.
DIA: Por que há poucos goleiros negros no Brasil?
Aranha: "Alegar falta de confiança em uma pessoa pela cor da pele é preconceito, é racismo. Porém, antes da Copa de 1950 os negros já não eram bem-vindos no futebol. A perda da Copa de 50 serviu como pretexto para expor este descontentamento. O que fizeram com o Barbosa foi usá-lo para tentar excluir, ao menos nesta posição. Mas Friedenreich (o primeiro astro do futebol brasileiro, ainda nos anos 1920) teve muitas dificuldades, assim como Pelé no início, até provar ser um gênio".
D: Qual foi o goleiro que te fez se encantar pela posição? Ele era negro?
A: "No gol, o Taffarel foi decisivo para minha escolha em ser goleiro. Mas o Dida foi um goleiro em que eu tentei copiar ao máximo as características, e foi um goleiro negro vencedor. Rompeu a barreira depois de Barbosa"
D: Você passou por clubes gigantes do país, tem uma carreira consolidada, mas acha que o episódio de racismo na Arena do Grêmio foi uma chaga na sua carreira? Você virou 'Aranha, o goleiro do episódio de racismo'?
A: "Minha carreira começou a ser afetada ali. Me coloquei entre a cruz e a espada, uma vez que não aceitava os convites para programas de TV, rádio, jornal, pois sempre tocariam no assunto e logo diriam que estava usando isso para me promover. Seria muito criticado. Como não atendia 95% dos pedidos, não vendia meu produto, não tinha a exposição necessária. E depois que recebi o prêmio do Direitos Humanos, tudo tomou uma dimensão maior".
Aranha posa com uma bandeira em homenagem às 'Mães de Maio' - REPRODUÇÃO INSTAGRAM

D: Você acredita que o Brasil evoluiu no debate contra o racismo desde aquele episódio? 
A: "Durante muito tempo, os negros não tinham como colocar para fora o descontentamento com as atitudes preconceituosas e com o racismo. Existia uma barreira invisível e quase intransponível. Como dizia Abdias do Nascimento, até hoje muita gente acredita que falar sobre racismo é o que causa ele. Isso é uma tremenda burrice. Como falar de um problema é a causa dele? Neste contexto, o meu caso obrigou o país a debater sobre racismo".
D: Passando a carreira a limpo, acha que valeu a pena ter firmado posição naquela momento? Você se transformou num ícone da luta antirracista.
A: "Eu recebi um vídeo da Seppir de Brasília (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) de um garoto negro que se destacou num campeonato. Este garoto, quando perguntado quem eram seus ídolos, disse meu nome. Perguntaram 'por que?', e ele respondeu: 'Aranha é Wakanda (cidade fictícia do filme Pantera Negra). Então referência é uma parte importante na formação dos jovens, e eu fico feliz em ser uma referência. Mas, sobre fim do racismo, não acredito. Cada um é o que é, desde que respeite as leis. É com a lei que nós combatemos"

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Aranha defendeu clubes gigantes do país, como Santos e Palmeiras REPRODUÇÃO INSTAGRAM
Aranha posa com uma bandeira em homenagem às 'Mães de Maio' REPRODUÇÃO INSTAGRAM

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