Por douglas.nunes
"Se alguém usar um cartão de crédito meu%2C não terá acesso ao meu dinheiro. Prefiro pagar tudo com crédito"%2C afirma o consultor Frank Abagnale JrPatricia Stavis / Agência O Dia

Em uma das suas visitas ao Caribe, em meados dos anos 1960, ele quis aquele relógio Rolex. Custava US$ 15 mil, uma pechincha — na verdade, sairia de graça para ele, que tinha vários cartões de crédito roubados no bolso. Entre os disponíveis, de várias bandeiras, decidiu usar um American Express. Por trás da escolha, sua mente brilhante arquitetara um plano para evitar ser descoberto com o cartão roubado. O lojista telefonaria para a central para pedir autorização para a venda — e ele sabia que os operadores da bandeira Amex, por uma questão de ética e precaução (para ninguém dizer que eles acusavam sem provas) costumavam conversar com o cliente pelo telefone, se detectassem uma fraude. Quando o vendedor ligou, dito e feito: o operador da Amex pediu para falar com o cliente. Ele atendeu, e ouviu do outro lado da linha uma repreensão: “Senhor, esse cartão é roubado. Não saia da loja. Estamos enviando uma viatura”. Calmamente, ele acenou a cabeça concordando, e desligou. Disse ao lojista que a autorização iria demorar um pouco — por isso, sairia para tomar um café. Saiu e, da esquina, telefonou para o lojista, fazendo-se passar pelo operador da Amex. Disse que a venda estava liberada - e ainda concedeu a “autorização 28” , a mais alta na escala, tranquilizando o lojista. Voltou, pagou e sumiu com o Rolex.

A passagem é parte da história real e quase incrível de Frank Abagnale Jr, que ficou conhecido pelo filme “Prenda-me se for capaz”, baseado em um livro da sua autoria, no qual é interpretado pelo ator Leonardo Di Caprio. Depois de capturado, foi preso e solto em cinco anos, quando passou a trabalhar para o FBI.

O episódio do Rolex não está no filme — foi revelado anteontem pelo próprio Abagnale, em São Paulo. Apesar de ter seu cartão de crédito roubado, seu dono não arcou com o prejuízo pela fraude na compra do Rolex.

Essa é uma das razões pelas quais Abagnale aconselha: “Não usem cartões de débito. Cartões de crédito são mais seguros e mais vantajosos”, disse ontem a jornalistas em evento realizado pela Serasa Experian, em São Paulo. “As bandeiras não responsabilizam o cliente por fraudes com cartões de crédito. As com cartões de débito são mais dificilmente ressarcidas. Além disso, se alguém clonar um cartão de crédito meu, não terá acesso ao meu dinheiro, apenas ao meu crédito. Prefiro pagar tudo com crédito. Enquanto isso, meu dinheiro fica aplicado rendendo no banco. E os dados da minha conta corrente não ficam tão expostos por aí”, justifica.

O ex-gênio do crime hoje é conselheiro da 41st Parameter, empresa do Grupo Experian, especializada em tecnologia de identificação de dispositivos e detecção de fraude na web. O expert dá outras dicas de como evitar fraudes, eliminando pistas como correspondências jogadas no lixo, exposição de fotos e dados pessoais nas redes sociais, por exemplo. “Ter um triturador de lixo é muito útil”, diz. Mas avisa que sempre haverá alguém mal intencionado e que, mais do que gênios, o que existe são pessoas comuns, ingênuas, distraídas. Para ele, falta ensino de ética das pré-escolas a universidades. “Também não há nenhuma ética nas empresas”, diz.

Gastos contra fraudes: US$ 1 bi em 2018, só no Brasil

“A tendência do volume de fraudes é crescer sempre”, diz Marcelo Kekligian, presidente para a América Latina da empresa de decisões analíticas da Serasa Experian. A empresa anunciou ontem uma nova solução antifraude para transações não-presenciais, a Safety. “Pesquisas mostram que os gastos com prevenção a fraudes no Brasil eram de US$ 400 milhões em 2008. Nossa previsão é que essa quantia alcance US$ 1 bilhão em 2018”, revela. No mundo, será algo como US$ 6 bilhões.

Kekligian admite que as estatísticas relativas a fraudes financeiras no Brasil são muito pobres. “Mas com a disseminação do Safety, esperamos alimentar e manter um banco de dados confiável daqui para a frente”, afirma, sem contudo revelar quantos clientes pretende conquistar com o produto. O público alvo são empresas financeiras e não-financeiras.
Segundo a Serasa, o Safety economizou US$ 500 milhões em 2013, considerando apenas seus 10 principais clientes globais.

Dados parciais mostram que no Brasil as fraudes totalizaram R$ 2,3 bilhões em 2013, dos quais R$ 1,2 bilhão em tentativas de fraude offline — mais conhecidas como roubo de identidade -, aproximadamente R$ 500 milhões em e-commerce e R$ 600 milhões em internet banking, estima a Serasa Experian. De acordo com dados de mercado, no país, 30% dos usuários de cartões de crédito já sofreram fraude, o que torna o Brasil o quinto no ranking mundial desse tipo de golpe, atrás de Estados Unidos (37%), México (37%), Emirados Árabes (33%) e Reino Unido (31%). Já na web, os golpes são aplicados principalmente nas compras de produtos eletrônicos, passagens aéreas, internet banking e serviços.

“A expectativa é de que a realização da Copa do Mundo aqui em junho e julho aumente muito as fraudes”, diz Kekligian. Na África do Sul, em 2010, na época da Copa as perdas com fraudes em cartões de crédito cresceram 53%, diz.

‘Não é minha biografia, é só um romance’

Em 2002, Frank Abagnale Jr., então com 54 anos, decidiu escrever um “esclarecimento” sobre o livro que virou filme naquele ano e o tornou famoso. Segundo ele, “Prenda-me se for capaz”, escrito com um co-autor há 35 anos, não é minha biografia, é só um romance. Em sua página na internet, disse também que se sentia lisonjeado pelo livro ter sido filmado por Steven Spielberg, com atuação de Leonardo DiCaprio e Tom Hanks. “Mas não sinto orgulho algum por ter feito o que fiz entre 16 e 21 anos”.

Exageros e licenças poéticas à parte, a iniciativa de recontar os fatos é compreensível: afinal, o ex-garoto prodígio das fraudes financeiras e enganações de todo tipo — descontou mais de US$ 2,5 milhões em cheques e passou por funcionário da PanAm, médico, professor universitário e advogado - é hoje respeitável consultor de centenas de instituições financeiras, corporações e agências governamentais em todo o mundo. Apreendido pela polícia francesa quando tinha 21 anos, ficou detido em prisões da França, Suécia e Estados Unidos. Depois de cinco anos, foi solto com a condição de ajudar o governo de seu país, sem remuneração, ensinando e dando apoio a agências federais. Abagnale está associado ao FBI há 35 anos.

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