Por monica.lima

São Paulo - As ações da Petrobras no Brasil e nos Estados Unidos reagiram ontem com forte queda ao rebaixamento da nota de crédito da estatal pela agência Moody’s. A agência de classificação de risco surpreendeu o mercado na terça-feira à noite ao informar a redução do rating da empresa para grau especulativo, passando a nota de dívida da companhia de “Baa3” para “Ba2”.

Na BM&FBovespa, a ação preferencial da Petrobras chegou a cair até 8% no pregão de ontem, e encerrou o dia com declínio de 4,87% e a ordinária, com recuo de 4,52%. Em Nova York, o American Depositary Receipts (ADR) caiu 6,8%.

De acordo com a agência, houve um aumento das pressões de liquidez no curto prazo. “Novas ações de rating irão considerar qualquer evolução nas investigações de corrupção e também o progresso na divulgação do balanço no prazo e ações que possam reduzir o risco de calote seguido de aceleração do vencimento da dívida”, diz o comunicado.

A expectativa agora é se as agências Fitch e Standard & Poor’s (S&P) irão seguir o mesmo caminho, o que, se acontecer, pode agravar ainda mais a situação da petroleira. A preocupação maior é com a Fitch, que já colocou a classificação em observação negativa. Um novo corte para junk pode ter um impacto significativo sobre os títulos e ações da estatal. Isto porque, muitos gestores de fundos só podem investir em empresas que são classificadas como grau de investimento por duas agências de risco. Além disso, o rebaixamento da Petrobras o risco de rebaixamento das empresas contratadas pela estatal, principalmente as empreiteiras investigadas na operação Lava Jato.

O sócio gestor da NCH Capital, James Gulbrandsen, também chama a atenção para o fato de que muitos fundos estrangeiros têm política de não poder ter bônus de empresa com subgrau de investimento. “Não dá para saber quantos desses fundos terão que vender e o ritmo de venda. É mais uma notícia que afeta o humor do investidor estrangeiro”, avalia.

O diretor da Mirae Asset Securities, Pablo Stipanicic Spyer, ressalta que esse rebaixamento vai tornar uma possível captação da empresa no mercado externo ainda mais cara do que já estava, o que faz crescer a preocupação sobre a capacidade da Petrobras de honrar seus compromissos. “Esse rebaixamento reflete o escândalo de corrupção no qual a estatal está envolvida. Essa roubalheira tem impacto negativo também no País”, avalia.

De acordo com levantamento da Economatica, em junho de 2014 a dívida bruta da Petrobras era de R$ 307,7 bilhões, bem acima dos R$ 63 bilhões registrados em 2008, época em que houve o estouro da crise internacional. Esse endividamento, agora, é o calcanhar de Aquiles da Petrobras. Sem poder ir a mercado para reforçar o seu caixa, os credores temem o calote. O rebaixamento pode levar a estatal a pagar, antecipadamente, US$ 56 bilhões em dívidas de contratos que preveem a obrigação de divulgar balanço auditado até o dia 30 de abril.

Entre as possibilidades levantadas para que a estatal consiga dar uma injeção de liquidez no seu caixa, estão o socorro do governo e a venda de ativos. No primeiro caso, fontes do governo negam qualquer a ajuda.

Para o estrategista sênior para América Latina da Nomura Securities, Benito Berber, se o governo resolvesse apoiar financeiramente a Petrobras através de injeção da capital do Tesouro ou bancos públicos, isso traria um impacto negativo nos esforços de ajuste fiscal. “Isso seria particularmente desafiador em um ambiente em que o Tesouro está fazendo um grande esforço para cumprir o seu 1,2% de superávit primário do PIB”, diz.

Já a venda de ativo parece a hipótese mais provável. Segundo fontes, a Petrobras contratou o JPMorgan Chase & Co para gerenciar US$ 3 bilhões em vendas de ativos planejadas para este ano. Para Gulbrandsen, a venda de ativos é positiva, mas não reduz a preocupação com a estatal. “É uma sinalização positiva de que está correndo atrás. Mas é uma notícia boa que foi causada por uma noticia pior, que é o rebaixamento”, pondera.

Em nota, o analista de crédito soberano da Moody’s, Mauro Leos, disse que atual rating do Brasil contempla uma série de cenários, incluindo alguns mais adversos que envolvem algum apoio financeiro para a Petrobras. “Em nenhum dos cenários a dívida brasileira ultrapassaria 70% do PIB. Esse nível ainda seria compatível com o rating ‘Baa2’, no caso de continuarmos confiantes de que o governo irá responder com um plano crível para alcançar a consolidação fiscal, a melhoria das métricas de dívida e maior investimento e crescimento”, diz Leos.

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