'Resgate do tripé macroeconômico é a única saída para o Brasil se recuperar'

O país terá, provavelmente, o ano mais difícil em um bom tempo. Esta é a opinião é dos economistas Gilberto Braga e Alexandre Espírito Santo, professores do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), que comemora 30 anos

Por monica.lima

O processo de normalização da economia será duro, e 2015 promete ser o ano mais difícil para o país em décadas. Porém, caso o país aguente firme os solavancos, os indicadores começarão a melhorar já em meados de 2016. A opinião é dos economistas Gilberto Braga e Alexandre Espírito Santo, professores do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), que comemora 30 anos de atividade. Eles também falam dos obstáculos que o mercado de capitais enfrenta para crescer e defendem a importância da educação financeira na formação da poupança.

Alexandre Espírito Santo e Gilberto Braga, professores do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec)João Laet / Agência O Dia

Nesses trinta anos de Ibmec, o nível dos profissionais do mercado de capitais aumentou exponencialmente. O mercado ficou mais sofisticado, mas não cresceu como se imaginava. Por que a bolsa não acompanhou o desenvolvimento do mercado?

Alexandre Espírito Santo: Durante muito tempo a Bolsa se assemelhava a um cassino. Na época do pregão do Rio de Janeiro era realmente parecido. Tanto que deu no que deu: a bolsa quebrou. A história nos passa a sensação de que a Bolsa de Valores era o local dos ganhos altos e de curto prazo. A gente só teve um mercado mais robusto com com a abertura do mercado o plano Real e as privatizações, a partir do governo Collor. Foi quando os investidores estrangeiros começaram a olhar para o Brasil com outros olhos. E esses gestores passaram a demandar profissionais mais especializados. Até o final da década de 80 o mercado não tinha o perfil de uma ferramenta de captar recursos. Na época em que a Bolsa do Rio quebrou o volume diário negociado era de US$ 500 milhões. Hoje a realidade é outra, e a Bovespa gira em torno de US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões.

Gilberto Braga: Comecei no Ibmec em 1994. Portanto, desses trinta anos do Instituto, acompanhei de perto vinte. Era uma experiência nova; diziam que o Ibmec era “sofisticado” demais. As turmas eram formadas basicamente por executivos da área financeira. A história do Ibmec reflete as mudanças que ocorreram no mercado de trabalho. Com o êxodo dos bancos e corretoras para São Paulo, o perfil dos cursos foi ampliado, atraindo profissionais da área financeira, e não mais apenas quem atuava no mercado. Com relação ao mercado de capitais, tivemos a estabilização da economia com o Plano Real, que foi fundamental para o crescimento do segmento. Porém, o mercado ainda carece de boa governança corporativa. Episódios como o de Eike Batista e Petrobras mostram a falta de governança do mercado brasileiro. Mesmo depois da criação dos segmentos especiais de listagem, do Novo Mercado e do Nível 2, criou-se uma estrutura de governança corporativa para inglês ver. A governança é vista por muitos executivos como um SAC para o acionista, ou seja, para dar uma satisfação ao investidor. Abre-se uma aba no site da empresa chamada “governança corporativa”. Mas isso não faz parte da cultura das empresas. A falta de transparência, de qualidade e de precisão das informações, reforça a ideia de que a Bolsa é uma aposta, que é o lugar do esperto, do investidor que detém a informação privilegiada.

O que é preciso fazer para ampliar a base de pequenos e médios investidores?

Alexandre Espírito Santo: Duas coisas são necessárias: É preciso ter noções de educação financeira no ensino médio. Além disso, é essencial que os currículos de graduação passem a abordar finanças corporativas. Os estudantes desconhecem produtos básicos como previdência privada complementar. Eles olham para mim como se eu fosse de Marte.

Gilberto Braga: você faz uma campanha para evitar dívidas de cartão de crédito, enquanto as pessoas sequer sabem fazer uma regra de três, ou uma conta de juros simples.

Alexandre Espírito Santo: O processo de formação de poupança é fundamental para a economia de uma país. É só olhar China e Brasil. e comparar o nível de poupança de cada um. Os países que pouparam estão muito mais sólidos macroeconomicamente que o Brasil. Aqui, o principal agente de poupança, o Governo, “despoupa”. Saímos de superávit para o déficit com o Governo agindo de forma perdulária.

A crise econômica brasileira vem sendo prevista há pelo menos um ano. Agora ela se tornou uma realidade. A estratégia do governo para combater a crise está dando resultado?

Alexandre Espírito Santo: O que o ministro Levy está fazendo nada mais é do que resgatar o tripé macroeconômico de superávit primário, meta de inflação e câmbio flutuante, que teve início no governo FHC e foi reforçado no governo Lula — que eu, brincando com meus alunos chamo de “FHC 2, a Missão”. Só que essa política monetária, aliada à expansão monetária das principais economias, pressionou a taxa de câmbio brasileira. A entrada abundante de recursos estrangeiros fez com que a taxa de câmbio real valorizasse cerca de 60% entre 2004 e 2008. Isso afetou negativamente a competitividade das empresas brasileiras. Veio a crise de 2009 e a saída foi abandonar o tripé e implementar uma política anticíclica — mais linhas de crédito para consumo, BNDES, PAC — que naquele momento levou o país a crescer 7,5%. Só que o Governo parece ter pensado da seguinte forma: “Seguíamos o tripé e o país não crescia. Adotamos a política anticíclica e o país responde com crescimento forte. Vamos então mudar a matriz”. Esse modelo foi aprofundado no governo Dilma. Porém, elevar os gastos públicos demanda uma poupança doméstica forte. Como não temos essa poupança doméstica forte, é preciso atrair o investidor estrangeiro para financiar o governo. Para atrair esse dinheiro, a saída foi aumentar os juros. Com o tempo, esse modelo trouxe um baita problema: prejudicou ainda mais a competitividade das empresas e gerou um enorme buraco nas contas externas de 4% do PIB. É esse cenário adverso que o ministro Levy enfrenta: ele precisa restabelecer o tripé, voltando a buscar um superávit primário expressivo, mantendo o câmbio flutuante. Teremos um ano muito difícil, provavelmente o mais difícil em um bom tempo.

No curto prazo, o que podemos esperar dos principais indicadores econômicos?

Alexandre Espírito Santo: Em relação ao PIB, acredito que encolheremos pelo menos 1% neste ano, inflação girando em torno de 7,5%, com o dólar em R$ 3,00 e o déficit caindo vagarosamente. Agora, esse cenário só é possível caso o Brasil não perca o grau de investimento.

Gilberto Braga: O que mais temo nesse momento é que a atual equipe econômica não dure no cargo por muito tempo. O discurso de Levy e Barbosa ao assumir é de que 2015 será um ano perdido e que só começaremos a nos recuperar a partir de meados de 2016. Pois bastou Dilma dizer em rede nacional que o ajuste já terá efeito no fim de 2015 para a equipe econômica reformular o discurso. Acho que poderemos ver no fim do ano alguns indícios de melhoria, mas não uma reversão do cenário. E aí chegamos a uma encruzilhada: caso a equipe econômica não apresente os resultados que a base política espera, a possibilidade de uma demissão no início de 2016 é grande. E isso torna a reta final do governo Dilma uma incógnita.

Alexandre Espírito Santo: Existe um outro elemento que pode complicar ainda mais o cenário, que é o desemprego. O único trunfo do Governo nos últimos anos não terá mais efeito já que as empresas, que optaram por não demitir já no ano passado, por causa da Copa do Mundo, não poderão mais adiar os cortes.

Gilberto Braga: Outro fator é a Petrobras. A empresa tem um peso de aproximadamente 10% no PIB brasileiro. A crise da petrolífera, além das consequências políticas, vai ter forte impacto sobre os empregos. Projetos estão suspensos, outros em banho-maria. É absolutamente necessário que o balanço saia o quanto antes. 

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