Por bruno.dutra

Ao elevar a Selic de 10,75% para 11%, sustentou o ritmo anterior de alta. Mas surpreendeu o mercado ao mudar radicalmente o comunicado da reunião. Ao invés das notas anteriores que deixavam em aberto o próximo passo monetário, agora indicou que pretende fazer nova elevação. O entendimento inicial é de que o ciclo de alta do juro básico, iniciado em abril de 2013, não terminou com a decisão de ontem.

O comunicado da reunião de fevereiro — “Dando prosseguimento ao processo de ajuste da taxa básica de juros, iniciado na reunião de abril de 2013, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,25 p.p., para 10,75% a.a., sem viés” — foi substituído pelo seguinte: “O Copom decidiu, por unanimidade, neste momento, elevar a taxa Selic em 0,25 p.p., para 11,00% a.a., sem viés. O Comitê irá monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”.

A corrente de analistas que acredita no fim do ciclo de aperto com a decisão de ontem cresceu depois que, no seu relatório trimestral de inflação (RTI), divulgado na semana passada, o Copom assegurou que a política monetária está funcionando plenamente. É só uma questão de tempo até o seu impacto desinflacionário ser sentido pelo lado real da economia. Acontece que, entre a publicação do realista RTI e a reunião do Copom, as expectativas inflacionárias conseguiram piorar mais um pouco. A nova realidade imposta pelo choque de alimentos e pela necessidade de elevação das tarifas públicas pode exigir um esforço monetário redobrado do BC.

O dólar não se deixou influenciar ontem pelos fatores que impulsionaram para cima o índice Bovespa. Na Bolsa, a expectativa por um pacote chinês destinado a estimular o crescimento econômico e rumores de que pesquisa eleitoral que começou a ser feita ontem pelo DataFolha irá apontar nova queda na preferência por Dilma Rousseff puxaram uma alta de 2,85%. Mas o mercado de câmbio doméstico preferiu guiar-se pelo comportamento da moeda no exterior. Sinais de recuperação da economia dos EUA promoveram valorização geral do dólar frente às moedas emergentes. E o real não foi exceção. O dólar fechou ontem em alta de 0,30%, cotado a R$ 2,2703.

Num aquecimento do que poderá acontecer amanhã, quando o governo americano divulga o “non-farm payroll”, o relatório oficial de emprego referente a março, os rendimentos dos papéis de 10 anos do Tesouro americano subiram ontem de 2,76% para 2,80%. A pesquisa que serve de antecedente das tendências do mercado de trabalho, a realizada mensalmente para o setor privado pela empresa ADP, não foi das mais animadoras.

As empresas privadas criaram mais 191 mil vagas no mês passado, uma adição inferior aos 200 mil postos projetados pelos especialistas. Mas a revisão para cima do relatório de fevereiro compensou a frustração. Os empregos criados em fevereiro subiram de 139 mil para 178 mil. Outro dado, este sobre atividade industrial, ajudou na alta das treasuries de 10 anos. As encomendas às indústrias cresceram 1,6% em fevereiro, avanço superior ao imaginado pelos analistas, de 1,2%.

Os analistas acreditam que se o Banco Central vier a interromper o ciclo de alta da taxa Selic, persistirá o fluxo positivo de investimentos estrangeiros de portfólio. Mesmo congelada no atual patamar, a taxa básica brasileira oferece rentabilidade irresistível. Esse otimismo não combina muito bem com os dados divulgados ontem pelo BC acerca do comportamento da balança cambial.

O rebaixamento da nota de crédito soberano do Brasil pela Standard and Poor’s, feito no dia 24, pode ter sido o responsável pelo estrago ocorrido na semana passada na contabilidade oficial de entrada e saída de moeda do país. No acumulado do mês antes da decisão da classificadora, o fluxo cambial mostrava um superávit de US$ 5,47 bilhões. Após a agência considerar mais arriscado investir no país, o fluxo registrou um déficit de US$ 2,738 bilhões entre os dias 24 e 28.

O volume diário de saída de dólares pela conta financeira foi impressionante nesse período imediatamente posterior ao anúncio do rebaixamento. No dia 24, o fluxo financeiro ficou negativo em US$ 110 milhões, um dia depois a saída líquida cresceu para US$ 270 milhões, atingindo o auge no dia 26 com fuga de US$ 1,1 bilhão. Depois, a evasão diminuiu, recuando para US$ 351 milhões no dia 27 e US$ 167 milhões na sexta-feira.

A conta comercial não ajudou a suavizar a fuga pela conta financeira. Pelo contrário, também registrou déficit, só que bem menor, de US$ 932 milhões. Sorte que, nas semanas anteriores ao vendaval insuflado pela S&P, a balança cambial de março exibia um bom estoque de gordura. Ainda depois da fuga ela contabiliza até o dia 28 um saldo de US$ 2,731 bilhões.
Curiosamente, a despeito do pesado déficit financeiro, a cotação do dólar persistiu em queda no mercado à vista. Na semana passada a moeda desvalorizou-se 2,88%. Como explicar esse aparente paradoxo? A permanência de um viés de apreciação da taxa de câmbio mesmo em presença de um robusto fluxo de saída de capitais joga luz sobre a natureza do movimento de “carry trade” ao qual os analistas atribuem a baixa do dólar.

Há dois tipos de carry trade. O tradicional é uma operação financeira de arbitragem entre taxas de juros. O investidor faz um empréstimo em moeda de um país onde os juros são muito baixos e aplica em outro onde a remuneração é muito elevada. Ganha o diferencial.

Normalmente, neste tipo de estratégia financeira, ocorre o aporte físico dos dólares. Mas há um segundo tipo de carry trade, bem mais especulativo, que não exige a transferência física de capital. Trata-se da modalidade conhecida como Non Deliverable Forward (NDFs) fechada nos mercados de derivados internacionais de balcão. Nele, o investidor ganha a margem líquida da variação entre as duas moedas.

Se o que está por trás do movimento de queda do dólar é o NDF, tal movimento é menos sustentável do que se imaginava até então, dada a extrema volatilidade dessas operações, frequentemente fechadas automaticamente por computadores autônomos alimentados por algoritmos.

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