Correção de Excessos

Os mercados de câmbio e juros têm hoje a missão de suavizar os exageros cometidos na sexta-feira

Por bruno.dutra

A principal razão do desabamento do dólar, de 1,7%, para R$ 2,2437, e do juro futuro longo (a taxa para janeiro de 2017 recuou de 12,45% para 12,35%) foi a comemoração antecipada de que a pesquisa eleitoral Datafolha iria apontar uma queda nas intenções de voto em Dilma Rousseff, expressiva a ponto de impedir a sua reeleição em primeiro turno. A primeira parte do rumor está correta, a segunda, não. Conhecida no sábado a pesquisa, constatou-se de fato a fragilização da candidatura oficial.

A presidente perdeu seis pontos, de 44% em fevereiro para 38% agora. Mas os opositores mais diretos não cresceram na proporção do recuo de Dilma. Aécio Neves (PSDB) continuou com os mesmos 16% anteriores e Eduardo Campos (PSB) subiu de 9% para 10%.

A maior parte dos votos negados a Dilma foi para a categoria de nulos, brancos, indecisos e dos que ainda não sabem qual nome escolher. Esse contingente cresceu de 26% para 29%. Aumentou muito a insatisfação do eleitorado com o governo Dilma, mas a alternativa mais apontada não é a oposição, e sim a volta de Lula. Os mercados talvez relativizem hoje a falta de crescimento dos principais adversários de Dilma sob o argumento de que são ainda desconhecidos, deficiência que será sanada quando do início do horário político, em agosto. Fato inegável é que as pesquisas mais recentes tornam o pleito presidencial indefinido e incerto.

A torcida maior dos mercados agora é que a candidatura oficial caia cada vez mais. Lula, por aplicar em suas administrações medidas conservadoras, como elevado superávit fiscal, é visto como opção menos ruim caso Aécio e Campos cresçam sem evitar, porém, um segundo mandato de Dilma. O Datafolha reiterou um ponto recorrente de outras pesquisas: a crescente preocupação do eleitorado com a inflação.

E, nesta semana, dois eventos mexerão com as expectativas do mercado. O IPCA de março será divulgado na quarta-feira e a ata da reunião do Copom, na quinta. Os dois eventos devem tomar caminhos antagônicos: enquanto o índice oficial de inflação irá acelerar de 0,69% em fevereiro para 0,84% (previsão Focus) em março, a ata tende a reforçar os sinais de que o ciclo de alta da Selic pode terminar na reunião de maio.

Talvez a tarefa mais embaraçosa do Banco Central não seja explicar os motivos da interrupção do movimento de alta do juro no momento em que a inflação acumulada em 12 meses sobe de 5,68% em fevereiro para 6,07% em março. Ele até pode conseguir explicar, escorando-se em modelos econométricos segundo os quais os efeitos “cumulativos e defasados” do aperto monetário de 3,75 pontos irão atingir em cheio a economia e a inflação ao longo do segundo semestre. O mais difícil é convencer.

Mesmo que o Datafolha não tenha sido plenamente satisfatório para os interesses dos mercados, o viés do dólar tende a se manter primariamente em queda por causa do cenário externo de manutenção da farta liquidez. Os últimos dados americanos informam que não há nenhuma necessidade de apressamento da volta à normalidade da política monetária. Na Europa, o BCE acenou com um afrouxamento quantitativo para afastar o espectro da deflação. E a China finalmente soltou seu pacote de estímulos.

O relatório oficial sobre o desempenho do mercado de trabalho americano em março ajudou a derrubar o dólar na sexta-feira, embora tenha vindo quase em cima das projeções. Foi apenas um pouco mais fraco. Aos invés das 200 mil novas vagas de emprego previstas pelos analistas, em março foram criadas 192 mil. Esse dado algo negativo foi contrabalançado pela revisão para cima do número de novos postos adicionados em janeiro e fevereiro.

Foi um acréscimo somado nada desprezível de 37 mil empregos. E embora a taxa de desemprego tenha se mantido em 6,7%, não foi por decorrência de uma debilidade. Ao contrário, a força de trabalho subiu de 63% em fevereiro para 63,2% em março. Como mais trabalhadores encontraram emprego, cresceu o contingente da força de trabalho.

São dados que deixam a política monetária acomodatícia do Federal Reserve (Fed) no lugar onde está. O nível de emprego não recomenda nem a aceleração do desmonte do programa de compras de ativos nem a sua diminuição. E o momento da alta da taxa básica de juros americana não se deslocou do ponto em que também já estava, na virada do primeiro para o segundo semestre de 2015.

 “payroll” de março não frustrou tão intensamente as expectativas a ponto de desencadear uma busca feroz por ativos de emergentes. A demanda de fato aumentou porque, além da lerdeza na recuperação dos EUA, os investidores receberam com alívio o pacote chinês destinado a evitar que o PIB cresça menos de 7,5% este ano.

O início da rolagem do lote de US$ 8,733 bilhões em swaps cambiais que vence no dia 2 de maio foi utilizado também como explicação adicional para o tombo sofrido pela moeda americana. Para os operadores, trata-se de um sinal de que o BC não se sente nem um pouco desconfortável com o dólar abaixo de R$ 2,30. Para eles, é um indício de que a autoridade vai usar a taxa de câmbio apreciada como linha auxiliar no combate à inflação.

Mas o mercado pouca atenção deu ao fato de que se o BC persistir no ritmo de rolagem de 10 mil contratos por dia útil — ritmo instituído desde o início de março — chegará ao fim de abril sem ter renovado a totalidade do lote. Ficarão faltando US$ 343 milhões. É muito menos do que o volume resgatado no período anterior, de US$ 2,65 bilhões, mas, de qualquer forma, significa uma injeção de dólares no mercado futuro num período de incertezas sobre a qualidade dos investimentos externos de portfólio.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia