Por douglas.nunes

O Banco Central vai fazer hoje no mercado futuro uma compra líquida de US$ 2,23 bilhões. Isso porque do total de US$ 8,73 bilhões em swaps cambiais que vencem hoje não rolou o equivalente a 25,5%. Apesar dessa retirada de hedge cambial, o dólar não disparou. No acumulado de abril a moeda americana caiu 1,74%. A razão é que o mercado já não demanda proteção contra a variação cambial com a mesma voracidade de períodos anteriores. Os dois piores momentos foram em agosto de 2013 e na virada de janeiro para fevereiro deste ano. Em ambos os casos, o dólar beirou os R$ 2,43. O fato é que quem está hedgeado está perdendo dinheiro.

A perda financeira resulta da queda da taxa oficial de câmbio (a Ptax) do período acrescida da rentabilidade da Selic. No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, a Ptax caiu 4,55% e a Selic rendeu 3,28%. Ou seja, o investidor/empresa que comprou swap cambial perdeu no ano até agora 7,98%. Quem ganhou? O BC.

Na apresentação das contas públicas referentes a março, o BC revelou que obteve uma receita de R$ 6,21 bilhões com a operação financeira do swap. Esse ganho permitiu que o gasto mensal com o pagamento de juros da dívida, apesar da forte alta da Selic no período, caísse de R$ 19,359 bilhões em março de 2013 para R$ 16,602 bilhões em março deste ano. Ou seja, o programa de intervenção cambial, além de impedir que o câmbio se transformasse em mais um algoz inflacionário, reduziu o impacto do custo financeiro do aperto monetário ao diminuir o déficit público nominal.

Mesmo assim, o BC está disposto a oferecer menos swaps cambiais ao mercado. Não há como forçá-lo a adquirir esses títulos se ele não quer. Mas não vem fazendo cortes radicais na oferta de hedge. Tudo indica que deve em maio persistir na estratégia de diminuir a quantidade renovada em 25%. Como vencerão no início de junho cerca de US$ 9,65 bilhões em swaps, o BC deve revalidar algo próximo de US$ 7,24 bilhões.

A estratégia básica deve ser esta, salvo se houver alguma surpresa negativa pelo lado do fluxo cambial. Divulgados na quarta-feira, os dados sobre o desempenho da balança cambial na semana de 22 a 25 foram surpreendentes, na contramão das informações de que o fluxo de investimentos estrangeiros vinha se mantendo fornido. Na verdade, não. Nos quatro dias da semana passada, houve remessa líquida de capitais financeiros de US$ 2,48 bilhões. O déficit da balança só foi menor que isso, atingindo US$ 2,06 bilhões, graças ao superávit de US$ 417 milhões obtido pela conta comercial, a contratação de câmbio para o comércio exterior.

Os números sobre o desempenho em abril (saldo de US$ 1,316 bilhão até o dia 25) e no acumulado do ano (US$ 3,374 bilhões) são ainda positivos e se refletem na debilidade exibida pelo dólar sobretudo nos últimos três meses. Em fevereiro, março e abril acumulou desvalorização de 7,56% frente ao real. Mas o fato é que o fluxo de capitais persiste muito volátil, alternando semanalmente saldos e déficits. Ou seja, não há uma tendência confiável. Se o fluxo se reverter de vez, o BC terá de alterar seu plano de oferecer menos hedge cambial ao mercado.

Se depender das sinalizações feitas anteontem pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve, estão garantidos mais alguns meses de simpatia global por títulos e moedas emergentes. Nesta terceira reunião do ano, o Fomc fez questão de não inovar em nada: manteve a taxa básica entre zero e 0,25% (patamar em que está desde o final de 2008), sustentou a redução do volume mensal de compras de títulos e hipotecas no ritmo de US$ 10 bilhões com o qual iniciou os cortes, em dezembro, e não alterou as sinalizações. Não havia mesmo clima para mudanças quer nas indicações futuras, quer na retórica. Horas antes da reunião do Fomc, o mercado ficou chocado com os dados do PIB americano referentes ao primeiro trimestre.

Ao invés do crescimento de 1,2% previsto pelos economistas, a economia dos EUA se expandiu apenas 0,1% no período. Uma decepção completa, já que a economia tinha crescido 2,6% no último trimestre de 2013. A culpa principal é atribuída ao inverno rigoroso. Mas o PIB foi freado pela queda nos investimentos, de 5,7% no setor imobiliário e de 2,1% em atividades não residenciais, e isso tem a ver mais com a falta de confiança no futuro do que propriamente com as condições climáticas adversas.

Já antes do Fomc, por causa da frustração com o PIB, os rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro americano tinham caído de 2,71% no fechamento anterior para 2,67%. E, depois do Fomc, cederam um pouco mais, para 2,65%. O desapontamento com o PIB não permitiu que o mercado comemorasse dois indicadores positivos. O primeiro: o setor privado gerou em abril 220 mil novos postos de trabalho, uma quantidade superior às 210 mil vagas esperadas pelos especialistas. O segundo foi o índice de atividade industrial de Chicago, cuja alta de 55,9 em março para 63 pontos em abril superou o prognóstico de um avanço para 56.

O esfriamento do mercado secundário de treasuries não foi responsável apenas pelo recuo de 0,14% experimentado pelo dólar no fechamento de quarta-feira, cotado a R$ 2,23. Também puxou para baixo os juros futuros negociados na BM&F. A taxa do contrato para a virada do ano cedeu de 11,01% para 10,99%, enquanto que o contrato para janeiro de 2017 caiu de 12,28% para 12,26%. A calmaria dos mercados é provisória. Será testada hoje, dia de “payroll”, o relatório oficial de emprego dos EUA.


Você pode gostar