Por douglas.nunes

O Banco Central foi responsável ontem pela exacerbação da tendência externa de alta do dólar. Em relação ao real, a moeda americana subiu muito mais do que frente às demais moedas de países emergentes. Globalmente, investidores venderam moedas emergentes e compraram dólares sobretudo por causa de sintomas de debilidade da economia chinesa.

Mas foi o BC quem determinou o tamanho da alta doméstica, de 1,24%, cotado a R$ 2,2468. Fez isso ao sinalizar que este mês pode cortar pela metade a rolagem dos contratos de swaps cambiais a vencer no curto prazo. Em março e abril fez leilões diários cujo valor de face dos contratos chegava a US$ 500 milhões. Baixou ontem a oferta para US$ 250 milhões.

Nada impede o BC de mudar de ideia ao longo do percurso. Pode, a qualquer momento, se as condições externas se alterarem radicalmente, acelerar o passo e promover a rolagem integral dos US$ 9,65 bilhões em swaps que vencerão no começo de junho. 

Mas não gosta de agir abruptamente. Prefere iniciar o mês com um determinado ritmo e persistir nele até o fim. Como o mercado sabe disso, ontem mesmo já tratou de ajustar a cotação da moeda a uma oferta menor de swaps no futuro. E põe menor nisso: se o BC insistir na renovação de US$ 250 milhões em cada um dos 20 dias úteis de maio — de ontem até o dia 30 — encerrará o mês comprando dos investidores nada menos que US$ 4,65 bilhões.

Isso significa dizer que US$ 4,65 bilhões que hoje estão “hedgeados” terão de buscar outra forma de proteção, quer seja no mercado à vista (compra seca de dólares), quer nos pregões de cupom cambial e dólar futuro da BM&F. O BC, ao negar hedge oficial, força o aumento da procura em outros segmentos, com inevitáveis pressões de alta sobre o preço à vista. O volume em swaps a ser resgatado no início de junho crescerá 108% sobre os US$ 2,23 bilhões não rolados na sexta-feira passada. A busca de alternativas de proteção não se circunscreveu ontem ao segmento spot, tanto que o giro foi pequeno, de apenas US$ 755 milhões. A via preferencial foi a dos mercados futuros.

Ao dobrar este mês a dose de resgate dos swaps, o BC envia alguns recados. O primeiro: considera que as condições do mercado global não são hoje favoráveis a uma crise de aversão a risco da dimensão das ocorridas em agosto do ano passado e final de janeiro. Não há pressões vigorosas vindas nem dos EUA, nem da China, nem da Ucrânia. Segundo: não quer que o dólar caia abaixo de R$ 2,20, um preço danoso ao equilíbrio do setor externo brasileiro. Terceiro: dispensa a ajuda adicional do câmbio no combate à inflação, o que é diferente de dizer que toleraria pressão inflacionária vinda do câmbio. O fluxo de investimentos estrangeiros se manteria positivo se, com uma constante Selic de 11%, o dólar sustentasse uma faixa de flutuação entre R$ 2,20 e R$ 2,25, sem apresentar sequelas negativas sobre o IPCA.

Quarto: o corte pela metade na oferta de swaps reduz o ritmo de expansão do estoque dessescontratos. Ele já soma quase US$ 89 bilhões. Como, este mês, a oferta de swaps novos, de US$ 4 bilhões, será neutralizada pelo resgate de US$ 4,65 bilhões, encerrará maio com posição de US$ 88,35 bilhões, menor que a atual. Com isso, interrompe a contagem regressiva para o rompimento dos US$ 100 bilhões em swaps. Trata-se de um número meramente redondo, sem outro significado, mas o mercado (e a população e a mídia) adora números redondos.

Se alguém se der ao trabalho de juntar duas sinalizações do BC – não pretende radicalizar numa política de apreciação cambial destinada a murchar a inflação e já pode ter encerrado com a Selic de 11% o ciclo de aperto monetário – vai concluir que o seu recado maior é o seguinte: IPCA acumulado em 2014 entre 6% e 6,5% estará de bom tamanho. 2015, ano a transcorrer em um universo hoje completamente paralelo e invisível, é outra história.
De pouco adianta o pessimismo inflacionário da elite do mercado. Enquanto o conjunto das cem instituições pesquisadas pelo BC no Boletim Focus mantém estáveis prognósticos redondos e assumidamente falíveis para os IPCAs de 2014 e 2015 — em 6,5% e 6%, respectivamente —, as cinco instituições que mais acertam projeções são mais ousadas. No boletim divulgado ontem, as expectativas das Top 5 saltaram, para o índice deste ano, de 6,59% para 6,67%, e de 6% para 6,5% para o de 2015. Os analistas reconhecem que é muito difícil fazer projeções de longo prazo (em termos de IPCA, sete meses já são longo prazo) para a inflação. Mais difícil ainda talvez seja fazer prognósticos confiáveis de curto prazo para as pesquisas de intenção de voto.

A pesquisa Sensus divulgada na madrugada de sábado já não fez mais preço ontem nos mercados. E estes se recusam por enquanto a antecipar os resultados da próxima, a que será divulgada pelo Datafolha até o fim da semana. Como a metodologia de ambas são diferentes — cartela em ordem alfabética dos candidatos no primeiro caso e cartela circular no segundo — os resultados podem ser diferentes. A tendência é de que não haja, no Datafolha, o mesmo crescimento da candidatura Aécio Neves constatado pelo Sensus.

Se ontem o câmbio já precificou integralmente a menor oferta de hedge cambial pelo BC, a partir de hoje irá se concentrar mais na cena internacional. O acompanhamento minudente de cada indicador americano perdeu o interesse depois que ficou evidente o peso decisivo que o Federal Reserve passou a atribuir aos índices de inflação (com ênfase no deflator do PIB, o PCE) como definidores dos futuros procedimentos monetários. Enquanto o dragão inflacionário não voltar a cuspir fogo, a política acomodatícia e cautelosa não muda. Ontem, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano oscilou em patamar baixo, entre 2,57% e 2,62%, ante 2,58% no fechamento de sexta-feira. A China não melhora, mas também não piora muito. O PMI industrial subiu de 48 para 48,1 no mês passado, quando a expectativa era de avanço para 48,4.

O pregão de juros futuros da BM&F persistiu na conduta da semana passada: taxa curta engessada pela política monetária, tanto que o contrato para janeiro de 2015, depois de ter caído de 10,99% para 10,98% de quinta para sexta, voltou ontem a 10,99%, enquanto a longa, para janeiro de 2017, segue as pegadas das treasuries. Ontem, subiu de 12,16% para 12,24%.

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