Fuga do risco anima dólar

Todas as moedas emergentes acusaram a fuga em direção às “treasuries”. Frente ao real, o dólar fechou em alta de 0,57%, cotado a R$ 2,2208

Por douglas.nunes

O temor de que as economias emergentes possam ser abaladas pela recuperação insuficiente dos países desenvolvidos desencadeou ontem um princípio de fuga do capital aplicado em ativos de risco. Os juros dos títulos longos americanos, já em declínio desde o fim de abril por causa da suspeita de que a retomada hesitante dos EUA não aconselha nenhuma pressa na normalização monetária, voltaram a despencar ontem. A taxa da T-Note de 10 anos, que havia fechado o mês passado em 2,70%, caiu de 2,62% para 2,55% na quarta-feira e ontem foi até 2,47%, encerrando o dia perto de 2,50%. Todas as moedas emergentes acusaram a fuga em direção às “treasuries”. Frente ao real, o dólar fechou em alta de 0,57%, cotado a R$ 2,2208.

O desabamento dos juros longos americanos causa nos analistas um espanto incrédulo, pois ocorre praticamente no meio do caminho entre o início das reduções das compras de títulos pelo Federal Reserve (Fed), desfechado em dezembro, quando o dispêndio alcançava US$ 85 bilhões, e o seu fim, previsto para outubro. O mercado secundário de títulos do Tesouro americano já deveria estar sentindo, e reagindo com altas, à menor oferta de dinheiro. Mas está acontecendo o contrário. Os investidores estão assustados com a desaceleração da Rússia, cujo PIB cresceu 0,9% no primeiro trimestre após alta de 2% no quarto de 2013, da China (cuja meta de expansão de 7,5% este ano está sob suspeição), com a falta de vigor da economia europeia (o PIB consolidado da área de euro cresceu apenas 0,2% nos três primeiros meses do ano) e com os indicadores erráticos provenientes dos EUA. O receio é de os países emergentes perderem receitas de exportação, agravando os seus problemas de balanço de pagamentos e endividamento externo.

Nos EUA, os indicadores não se harmonizaram. Dois vieram bem positivos: o índice de atividade industrial do Fed de Nova York, ao subir de 1,29 em abril para 19,01 em maio, superou as expectativas de 6, e os pedidos de auxílio-desemprego caíram de 321 mil para 297 mil na semana passada, ante projeção de 320 mil dos especialistas. Mas o dado negativo prevaleceu: a produção industrial cedeu 0,6%, quando os analistas previam estabilidade. O CPI (índice de preços ao consumidor), também de abril, teve influência neutra ao confirmar o prognóstico de alta de 0,3%.

Embora o “tapering” americano já não seja mais o fator principal a desencadear uma corrida em favor do dólar, há outros elementos de intranquilidade no cenário global capazes de sugerir ao Banco Central o prosseguimento de sua atual estratégia cautelosa de administração da taxa de câmbio. A autoridade age desde abril, por meio da diminuição da oferta de swaps cambiais destinados a substituir os que estão vencendo, para evitar a desvalorização da moeda para aquém do preço de R$ 2,20, considerado piso informal de flutuação da moeda. O teto seria flexível, mas desde que o dólar não feche o ano acima dos R$ 2,45 previstos pelo mercado será um nível tolerado pois já incorporado aos prognósticos de IPCA para o acumulado do ano. Mas em nenhum momento o BC fechou questão sobre nada.

As atuações diárias, embora sinalizadoras de intenções futuras, se esgotam em si mesmas. Do início do mês até ontem, já rolou por meio de leilões a conta-gotas US$ 2,25 bilhões dos US$ 9,65 bilhões que vencerão no dia 2. E sugere que, mantido o ritmo homeopático de 5 mil contratos por dia, renovará no total apenas US$ 4,75 bilhões. Isso é o que o mercado está entendendo a partir da persistência do passo comedido. Mas, oficialmente, não se manifestou, nem por nota, nem por discurso. Nada o impede, se a aversão bater com força aqui, de rolar todo o restante do lote a vencer em poucos e expressivos leilões. Tudo indica que o BC quer encerrar maio com um estoque de swaps menor do que os US$ 88,76 bilhões do final de abril. Mas a prioridade não é essa. O mais importante é evitar explosão do dólar que adie por mais tempo a decisão, já protelada desde o início do ano, de encerrar o ciclo de alta da Selic.

O mercado futuro de juros da BM&F equilibrou-se ontem entre forças antagônicas. Puxando as taxas para cima, pesou a valorização do dólar e o substrato do aumento da aversão a ativos emergentes. Exercendo pressão contrária, dois dados compatíveis entre si: a queda do consumo e o freio na inflação. As vendas varejistas caíram 0,5% em março, segundo pesquisa do IBGE. A queda surpreendeu. Os analistas não esperavam mesmo uma alta, mas se contentavam com uma estabilidade. Comparativamente à igual mês do ano passado, as vendas retrocederam 1,1%. E a inflação não está simplesmente desacelerando. Está, na verdade, quase parando. O IGP-10 tombou de 1,19% em abril para 0,13% em maio, reforçando o diagnóstico de que os alimentos perdem pressão mais rapidamente do que o esperado.

É um cenário perfeito para o Copom conseguir, finalmente, encerrar o movimento de alta da Selic em sua reunião do dia 28. Se o câmbio deixar. Na dúvida, ontem foi dia de leve correção no pregão de DI futuro da BM&F. Após pesadas quedas acumuladas desde a virada do mês, as taxas subiram ontem. O contrato para janeiro de 2015 avançou de 10,97% para 10,98%. E a operação com vencimento em janeiro de 2017 passou de 12,05% para 12.09%. No seminário sobre metas de inflação, realizado ontem no Rio, dirigentes do BC tiveram o cuidado de, ao repisar a narrativa da última ata do Copom, não alterar em nada o sinal de que a Selic, em 11%, já encontrou seu zênite.

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