Atividade aflige mais que IPCA

O pregão de juros futuros da BM&F tentou na manhã do primeiro dia desta semana mais curta puxar os contratos para cima já embutindo nos preços a expectativa de que o IPCA de junho, a ser divulgado hoje pelo IBGE, virá mais robusto do que se vinha prevendo

Por bruno.dutra

As pressões exercidas por itens relacionados à Copa do Mundo, como passagens aéreas e recreação, podem fazer com que o índice repita o 0,46% de maio, interrompendo a escadinha de baixa vinda desde março. As mais recentes previsões de IPCA tornam inteiramente obsoleta a projeção de 0,35% ainda defendida pelo boletim Focus do Banco Central. Os juros futuros abriram a semana em alta também porque o índice de junho forçará o estouro do limite máximo de 6,5% da meta de inflação no acumulado de 12 meses. Mas o DI não conseguiu sustentar a alta porque o setor automobilístico deu um cavalo de pau.

A produção de veículos em junho, segundo a Anfavea, tombou 23,3% ante maio e 33,3% em relação a igual mês de 2013. A queda acumulada desde janeiro foi de 16,8%. Semestre contra semestre, a redução atingiu 7,6%. Como a indústria automobilística tem um forte efeito propagador na cadeia produtiva, para o bem ou para o mal, o pregão de DI futuro fez a coisa certa: deixou em segundo plano suas aflições (às vezes, alucinações) inflacionárias e concentrou-se na debilidade econômica. E as taxas não se sustentaram nas máximas do dia, obtidas antes da divulgação dos números da Anfavea.

O contrato com vencimento em janeiro de 2016, o que tem a embaraçosa tarefa de prever a política monetária que será praticada no ano que vem, chegou a avançar até 11,12%, vindo de 11,09% na sexta-feira, mas fechou a 11,07%. O mesmo deslocamento foi traçado pelo contrato com liquidação em janeiro de 2017: dos 11,43% do pregão anterior, subiu até 11,47%, para encerrar a 11,41%. O pregão de DI futuro só retoma plenamente as suas atividades na quinta-feira. Hoje, o expediente se encerra mais cedo, às 15 horas, e amanhã ele não abre devido ao feriado constitucionalista de São Paulo.
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Focus publicado ontem manteve-se no piloto automático. A única projeção que sofreu mudança foi a relativa ao crescimento do PIB este ano. Ela baixou de 1,10% para 1,07%. Estava em 1,44% há quatro semanas, e em 1,95% no início do ano. As cem instituições que participam da pesquisa preferem ajustar para baixo suas estimativas para o PIB de forma precavidamente lenta, no ritmo, até agora incessante, da divulgação de indicadores ruins sobre a atividade econômica presente. O 1,07% de ontem não delimita o fundo do poço. Novos rebaixamentos devem ser feitos nas próximas semanas.

O mercado poderia estancar a descida para uma reavaliação do cenário se houvesse uma melhora dos índices de confiança de empresas e consumidores. Ou se houvesse uma reviravolta nas expectativas, seja decorrente de pesquisas eleitorais mais favoráveis ao candidato tucano Aécio Neves, seja pela explicitação pela candidata Dilma Rousseff de uma plataforma econômica entendida como mais adequada aos mercados. As instituições e agentes econômicos receberiam com satisfação a pré-nomeação de um futuro ministro da Fazenda alinhado com a política econômica conservadora defendida por eles. Mas todas as indicações são de que a presidente não fará nem uma coisa, nem outra.

A persistente revisão para baixo dos prognósticos para o PIB deste ano deveria influenciar as projeções de outras variáveis, como a taxa Selic e o IPCA. Afinal, um crescimento cada vez mais anêmico — com a economia já podendo estar em uma recessão técnica —, ao refletir a debilidade da demanda, deveria trazer para baixo o índice oficial de inflação, e tal movimento deveria ser acompanhado pela redução do juro básico. Mas, no piloto automático, à espera de uma mudança de rota ou de obstáculos na pista, o Focus prefere sustentar suas expectativas. Pela quinta semana em sequência, manteve em 11% a Selic projetada para o fim do ano. Pior ainda: pela sexta semana, reiterou a sua crença de que a taxa subirá para 12% até o fim de 2015.

Com um volume de negócios acanhado — um pouco mais de US$ 970 milhões, ante média já baixa no mês de US$ 1,3 bilhão —, o dólar só subiu ontem, e mesmo assim mero 0,38%, cotado a R$ 2,2240, graças às compras defensivas feitos por investidores temerosos em passar hoje e amanhã desligados do mundo e vulneráveis a acontecimentos imprevistos no exterior. Não dá para ficar “vendido” em dólar diante da expectativa de que possa vir alguma novidade na ata, que será publicada amanhã, da reunião de política monetária realizada pelo Federal Reserve (Fed) no dia 18 de junho. O risco de surpresa é remoto, mas os investidores não gostam de apostar no incerto.

Ontem não foi um dia propício a valorizações do dólar. No mercado secundário de títulos do Tesouro americano, os fundos persistiram devolvendo o excesso de alta imprimido às taxas por conta do auspicioso relatório de emprego divulgado na quinta-feira. A taxa da T-Note de 10 anos caiu ontem de 2,64% para 2,62%, já distante da máxima de 2,70% alcançada logo após o susto positivo dado pelo “payroll”. Como não há indicações mais recentes de qualquer mexida na política acomodatícia do Fed, o mercado volta ao marasmo.

O BC persistiu ontem em sua rolagem a conta-gotas do lote de US$ 9,46 bilhões de swaps cambiais que vencerão no dia 1°. Vendeu a quantidade costumeira de 7 mil contratos, no valor de US$ 347 milhões. Faltam ainda a serem renovados US$ 8,41 bilhões. Como não vem fazendo leilões nos dias de jogos da seleção brasileira, como amanhã o mercado estará esvaziado por causa do feriado paulistano e como não realiza operações deste tipo no último dia útil do mês, restam apenas 15 dias úteis para abrigar leilões de rolagem.

Mantido o ritmo de 7 mil contratos por dia, deixará de revalidar US$ 3,2 bilhões, o equivalente a 33,84% do lote a vencer. Como no mês passado o montante levado ao resgate correspondeu a 12,92% do vencimento, estará ampliando a retirada de hedge cambial do mercado, um fator que empurra o dólar para mais perto do teto da banda informal de flutuação, de R$ 2,25.

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