Os temores do Banco Central

O BC brasileiro morre de medo da terceira onda de aversão global a risco. É o seu espectro aterrorizante que o impede de reduzir a Selic para minorar o sofrimento da atividade econômica

Por marta.valim

Esta primeira semana de agosto está esvaziada de eventos americanos relevantes. Saem apenas dados de serviços e comércio exterior incapazes de agitar o mercado de “treasuries” e, por extensão, o de câmbio. Tudo o que tinha de mais importante para ser divulgado já saiu na semana passada.
A tendência é de o juro de 10 anos, que disparou de 2,47% para até 2,57% na quinta-feira, permanecer abaixo dos 2,50% de sexta-feira. Há entre os “players” globais uma torcida brutal para que os indicadores americanos marchem robustamente lado a lado a ponto de forçar o Federal Reserve (Fed) a antecipar a alta da taxa básica. Mas o mundo real teima em frustrar as expectativas. Os EUA permanecem alternando números bons com outros francamente ruins. No que de fato interessa — emprego e inflação — os dados afagam a cabeça branca da pomba Janet Yellen. A alta da “fed funds rate” deve ficar mesmo para o terceiro trimestre de 2015.

O entusiasmo dos investidores internacionais com o avanço de 4% registrado pelo PIB americano no segundo trimestre durou muito pouco. No dia seguinte foram trazidos de volta à dura realidade por informes de inflação e do mercado de trabalho. Na sexta-feira, o “payroll” (o relatório oficial de emprego) mostrou a criação em julho de 209 mil postos de trabalho, bem aquém da expectativa de 230 mil. E a taxa de desemprego subiu de 6,1% para 6,2%. Como a população ocupada cresceu em velocidade menor que a registrada pela população ativa, o sinal foi muito ruim. E a inflação? Permanece morta: o núcleo do índice de preços dos gastos com consumo pessoal (PCE, a medida de inflação que o Fed considera a mais confiável) subiu 1,5% em 12 meses.

Ainda não será desta vez que os hedge funds conseguirão desencadear a terceira onda de aversão global a risco. A primeira durou três meses, de maio a agosto de 2013. A segunda concentrou-se na virada de janeiro para fevereiro deste ano. Em ambas, o dólar flertou com a taxa de R$ 2,45. O Banco Central brasileiro morre de medo desta terceira onda. É o seu espectro aterrorizante que o impede de reduzir a Selic para minorar o sofrimento da atividade econômica. Num raro rasgo de franqueza explícita, em entrevista concedida há um pouco mais de um ano, o presidente do BC, Alexandre Tombini, disse que a taxa de câmbio tem poder de movimentar um “caminhão de inflação”. Pelos seus cálculos, uma depreciação cambial de 20% acresce diretamente um ponto percentual à inflação. Fazendo as contas: se a terceira onda puxar o dólar para R$ 2,70, o IPCA, que hoje roda a 6,5%, pularia para 7,5%. Haja Selic para frear a carreta.

A sorte do BC é que a moeda americana só teria condições de se alçar a R$ 2,70 se, assustados com a política monetária americana, os investidores globais promovessem uma realocação geral em suas carteiras, saindo de emergentes e rumando para as “treasuries”. Isso não deve acontecer este ano. Não há fatores domésticos capazes de provocar uma corrida ao dólar. Nem as eleições de outubro. Os grandes investidores locais estão com o dedo no gatilho, prontos para intensificar suas compras de moeda americana ao menor sinal de uma guinada ainda mais desenvolvimentista em um segundo governo Dilma. Esse sinal não virá explicitamente, salvo se houver algum escorregão involuntário em debates eleitorais televisivos. Sinais em sentido contrário, destinados a acalmar os investidores, seriam bem-vindos. Mas o perigo mora nos EUA.

Enquanto o BC estiver atemorizado com os efeitos da terceira onda, a Selic não cai. A atividade pode estrebuchar que não moverá um dedo. O pregão de juros futuros da BM&F está cada vez mais convencido de que, ao escrever na última nota pós-Copom que decidira “neste momento manter a Selic em 11%”, estava na verdade querendo dizer que tinha decidido “neste momento” não elevar a taxa básica. Ou seja, se for preciso elevar o juro real campeão do mundo para atenuar o impacto da terceira onda, assim o fará.

Esta foi a principal razão para as fortes altas experimentadas pelas taxas dos contratos futuros de juros na sexta-feira. O pregão passou por cima das tendências indicadas pelos seus dois mercados formadores: o dólar, após disparar 1,24% na quinta-feira, caiu 0,41% na sexta, cotado a R$ 2,2605; e a T-Note de 10 anos, após uma batelada de indicadores americanos ruins, cedeu de 2,56% para 2,50%. Surgiram também duas justificativas adicionais para o avanço dos DIs. A primeira foi a queda, menos expressiva do que o previsto, da produção industrial de junho. O IBGE divulgou uma baixa de 1,4%, enquanto os analistas previam 2,3%. Embora tenha sido a quarta retração em sequência, denunciando forte contração dos investimentos, o pregão viu um certo alívio. A segunda foi a alta do Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil. Sim, todo mundo sabe que o Brasil não é a Argentina, mas o grande capital é, em essência, medroso e tratou de buscar proteção no CDS. No início da semana passada, o título estava perto da faixa de 135 pontos, mas fechou na sexta-feira perto de 158.

Até a taxa para a virada do ano desvencilhou-se do engessamento da Selic e subiu de 10,78% para 10,81%. Os contratos mais longos dispararam. A taxa para janeiro de 2016 pulou de 11,15% para 11,27%. E a do contrato com liquidação em janeiro de 2017 avançou de 11,49% para 11,63%. Na prática, a curva de juros acentuou sua inclinação positiva, encarecendo o custo primário do dinheiro, mais um golpe na atividade. Os planos de estabilização da Selic em 11% não devem se alterar nem se o IBGE divulgar na próxima sexta-feira um IPCA fechado de julho abaixo do já diminuto 0,15% previsto pela mediana das cem instituições pesquisadas pelo Focus do BC.

A autoridade não dispõe apenas do instrumento taxa de juros para induzir apreciação cambial benéfica ao combate à inflação. Pode agir diretamente sobre a taxa de câmbio simplesmente regulando a oferta de swaps destinados a rolar os que estão vencendo. Nos últimos meses, o BC tem optado por não renovar algo entre 25% e 30% do lote a resgatar. Agosto pode ser diferente, dada a ampliação da volatilidade dos mercados globais. Nesta semana, deve fazer as primeiras sinalizações sobre a sua intenção de rolagem do megalote de US$ 10,07 bilhões a expirar no dia 1° de setembro. É bem possível que revalide tudo.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia