BC encurta rédea do câmbio

O Banco Central irá encurtar este mês as rédeas já retesadas da taxa de câmbio

Por bruno.dutra

Sinalizou ontem que pretende reduzir, tanto em termos nominais quanto relativos, a quantidade de swaps cambiais que estará disposto a deixar vencer no dia 1° de setembro. A calibragem fina das rolagens de títulos antigos é, desde março, o principal instrumento de administração do câmbio de flutuação suja hoje adotado no Brasil. O BC não parece disposto a permitir um abaulamento do teto da banda informal. A taxa máxima de R$ 2,25 se mostra a mais adequada para rechaçar pressões inflacionárias potencialmente aptas a estragar seus planos monetários de preservar a Selic estável em 11% pelo menos até o fim do ano.

A postura mais conservadora despersuade movimentos de alta do dólar, embora possa transmitir a sensação de que o BC está preocupado com a rota da moeda americana este mês. E o mercado gosta justamente de atacar quando a presa exala substâncias secretadas em estado de medo. E há de fato razões para apreensão.

À contagem regressiva feita pelos fundos globais à retirada total de novos estímulos monetários por parte do Federal Reserve (Fed), em outubro, juntou-se na semana passada a expansão do PIB dos EUA de 4% no segundo trimestre para compor um quadro favorável ao início, embora ainda tímido e hesitante, de um processo de rearranjo de carteiras. Apesar de incipiente, esse movimento parece já ter mudado o dólar de patamar.

A moeda passou a maior parte de julho gravitando, com escassa volatilidade, muito perto de R$ 2,22. E, desde a divulgação do PIB, reluta em recuar do território de R$ 2,26 recém-conquistado.

Ontem, a moeda alternou altas e baixas, num movimento ondulatório favorecido pelo baixo giro de negócios. O volume não passou de US$ 1 bilhão. Mas acabou fechando com valorização quase imperceptível de 0,09%, cotada a R$ 2,2625. O mercado secundário de títulos do Tesouro americano não amparou a evolução. O rendimento do papel com 10 anos de prazo variou de 2,47% a 2,52%, mas encerrou o dia nos mesmos 2,49% de sexta-feira. O mercado preferiu não prestar muita atenção ao alerta do presidente da unidade de Richmond do Fed, Jeffrey Lacker, de que pode estar subavaliando a alta de juro prevista para os próximos dois anos. O dirigente enxerga um hiato entre as projeções do Fed e o nível precificado pelo mercado.

O BC iniciou o mês com uma oferta diária de 8 mil swaps destinada a substituir gradualmente os US$ 10,07 bilhões que serão liquidados no dia 1°. Mantido o ritmo até o fim de agosto, desse total irá revalidar US$ 7,51 bilhões, retirando hedge equivalente a US$ 2,56 bilhões, representativos de 25,42% do lote integral. No mês passado, pelos dois critérios, a autoridade assumiu conduta mais temerária, pois permitiu a liquidação de US$ 2,81 bilhões ou 29,71% do total.

Agora em agosto, retorna ao degrau ontem se sente mais confortável, o dos 25%. Trata-se de um posto que não exigirá deslocamentos radicais se a situação externa mudar para um lado ou para o outro. Se as pressões em favor da elevação do dólar se agigantarem poderá ampliar rapidamente a oferta de swaps e, com poucos leilões, rolar o volume integral dos títulos a vencer. Na hipótese inversa, poderá reduzir a quantidade oferecida e aumentar o montante que levará ao vencimento.

O controle da taxa de câmbio por meio da regulagem dos swaps de reposição é muito eficaz em momentos caracterizados pela ausência de especulações mais intensas. Quando a aversão a risco cresce a ponto de desencadear liquidação de ativos em mercados emergentes, de nada serve. O BC pode restituir as condições originais, além de ampliar a oferta de títulos novos, hoje tabelada em quatro mil contratos por dia, que o mercado irá absorver tudo e, com o dólar ainda em alta, pedir mais. Nessa circunstância, o BC pode adotar um de dois caminhos, ou ambos simultaneamente se a coisa ficar feia: vender reservas internacionais ou subir a taxa de juros, não propriamente para atrair novos capitais especulativos, mas para tentar persuadir os que já estão alocados em títulos nacionais a aqui permanecer. E, para tanto, não poderá ser econômico ou sovina.

A percepção de que o BC pode ser obrigado a elevar o grau de sedução da Selic foi o que moveu ontem para cima os contratos de juros futuros. Se o pregão da BM&F fosse se referenciar apenas nas expectativas de inflação e atividade relatadas pela pesquisa Focus, conduzida pelo BC junto a uma centena de instituições, os DIs futuros teriam caído. Afinal, recuaram tanto as projeções de IPCA para este ano quanto as de evolução do PIB, indício de que a Selic pode estar muito elevada, inapropriada à conjuntura atual.

Na terceira revisão para baixo consecutiva, a inflação estimada para o acumulado do ano cedeu no Focus divulgado ontem de 6,41% para 6,39%, afastando-se mais um pouco do teto de 6,5% da banda inflacionária. Na mesma direção, o prognóstico de crescimento do produto em 2014 cedeu de 0,90% para 0,86%. Foi a décima semana em sequência de queda desse prognóstico.

Mesmo assim, apesar de as instituições terem mantido os prognósticos de Selic em 11% este ano e 12% no próximo, os juros futuros subiram. A taxa para a virada do ano avançou de 10,81% para 10,82%. O juro para janeiro de 2016, o que relata as expectativas para a política monetária que será praticada no ano que vem, nem precisou fechar na máxima do dia (11,36%) para exibir uma alta. Passou de 11,27% para 11,31%. O resultado é que, se cai a expectativa de inflação mas sobe o DI futuro, o juro real implícito aumenta. Trata-se de um efeito não indesejável se o interesse do BC é sustentar elevada a atratividade do mercado de renda fixa nacional.

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