'Trackings' ditam o ritmo dos mercados

Embora carregada de eventos teoricamente relevantes, a agenda econômica desta semana não parece capaz de sobrepujar-se à cena eleitoral e alterar o viés dos mercados

Por monica.lima

A um mês das eleições, esta primeira semana de setembro pode ser perigosa para os investidores menos informados. Depois da avalanche de pesquisas eleitorais divulgadas na semana passada, da guinada que promoveram na corrida sucessória, esta promete ser mais comedida. Apenas as instituições que tiverem acesso às “trackings” — pesquisas internas que não precisam ser registradas no TSE pois seus resultados não vêm a público — irão operar já cientes de alguma alteração no quadro. O comportamento dos mercados pode depender das respostas que as consultas privadas puderem dar a questões cruciais: O trabalho de “desconstrução” da candidatura de Marina Silva empreendido pelos seus dois competidores está dando certo? Marina parou de crescer? Ou continua em sua arremetida a ponto de poder se eleger já no primeiro turno?

A importância do embate eleitoral para a definição da rota do dólar e dos juros futuros pode ser medida pelo que aconteceu após a divulgação da pesquisa do Ibope, no início da semana passada. Antes dela, o dólar tinha apetite para testar o rompimento do teto informal de R$ 2,30. Depois, recuou a ponto de perder a fronteira de R$ 2,25. Fechou sexta cotado a R$ 2,2390, acumulando em agosto desvalorização de 1,36%. Mesma trilha foi tomada pelo DI futuro. A taxa para janeiro de 2017 caiu na semana de 11,41% para 11,23%.

Embora carregada de eventos teoricamente relevantes, a agenda econômica desta semana não parece capaz de sobrepujar-se à cena eleitoral e alterar o viés dos mercados. Na quarta-feira, o Copom do Banco Central faz a sua última reunião antes de sacramentado o próximo presidente da República. Após este encontro do dia 3, o Comitê só volta a se reunir no dia 29 de outubro, depois, portanto, do segundo turno. Seria a última chance de o BC interferir nos rumos eleitorais caso pautasse as suas decisões por critérios que não fossem os exclusivamente técnicos. Como não faz isso, o consenso maciço e absoluto é de que manterá a Selic em 11%.

A única alteração possível será a retirada da nota pós-Copom da locução adverbial de tempo “neste momento” que tanta polêmica suscitou em julho. O mercado entendeu erroneamente que, com ela, o BC estava sinalizando a intenção de reduzir a Selic em breve (outra locução adverbial de tempo intuída pelos especialistas). Para acabar de vez com a hipótese, na ata da reunião o BC foi forçado a contragosto a ser direto e explícito, fugindo à sua cultivada ambiguidade. Escreveu constrangido que a estratégia atual “não contempla redução do instrumento de política monetária”. Esse instrumento é a taxa Selic.

Como a decisão do Copom de depois de amanhã já está dada e precificada, os mercados terão de se socorrer de outros indicadores para desencadear alguma agitação. Mas não há expectativa de que venham a permitir sobressaltos favoráveis aos negócios. O IPCA de agosto, a ser conhecido na sexta-feira, deverá vir bem-comportado na faixa de 0,24%. E o IGP-DI, também na sexta, ainda mostrará alguma deflação. A produção industrial de julho, que será divulgada amanhã pelo IBGE, deve exibir alguma recuperação, após sucessivas quedas. A agenda externa promete mais animação.

Dois eventos têm potencial de mudar o fluxo da liquidez global. Em sua reunião de política monetária de quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) pode finalmente materializar as tão ensaiadas e pré-anunciadas medidas complementares de ampliação da liquidez. Os mercados globais já precificaram na semana passada a adoção de um suprimento regular de euros nos moldes do afrouxamento quantitativo americano. Se não vier na extensão esperada, os ativos de risco poderão sofrer mundo afora. O dado mais importante da semana sai na sexta-feira. Trata-se do relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA em agosto. O que os operadores querem mais saber é se o “payroll” vai confirmar o crescimento do PIB acima das previsões. E, com isso, já desencadear um rali de alta dos juros de 10 anos.

Os pregões de câmbio e juros olharam para a retração do PIB no segundo trimestre do ano — de 0,6%, pior do que a expectativa consensual de recuo de 0,4% — e a entrada técnica da economia na recessão — decorrente da revisão do produto nos três primeiros meses do ano, de uma alta de 0,2% para uma queda do mesmo tamanho — de um ponto de vista egocentricamente positivo: quanto pior estiver a economia, menores as chances de reeleição de Dilma Rousseff. O dado provocou nova onda de revisão para baixo nas previsões de PIB para o ano. Os economistas já falam agora num crescimento entre 0,5% e 0,6% em 2014. O Itaú, que antes da divulgação do número do segundo trimestre, trabalhava com uma expansão de 0,6% está refazendo os cálculos e já anunciou que poderá reduzir a estimativa para algo entre zero e 0,2%. Ou seja, o boletim Focus, cuja edição divulgada na semana passada trouxe a décima terceira revisão consecutiva, ainda está otimista ao projetar expansão de 0,70%.

O DI futuro persistiu em queda na sexta-feira não porque os investidores passaram a acreditar na possibilidade de o Copom desistir do seu plano de manter a Selic estável em 11% durante o “horizonte da política monetária”, mas porque o pesado tombo dos contratos longos — decorrente da perspectiva de introdução de uma política econômica séria por parte de Marina Silva irá reduzir a inflação, dispensando o rigor monetário — acaba contaminado os contratos curtos. É tanta a confiança na vitória de Marina e tanta a certeza de que implantará uma política econômica conservadora que a curva futura de juros já assumiu uma inclinação negativa a partir de outubro de 2017. Este contrato, a 11,27%, é o divisor de águas. Depois dele, as taxas são cadentes, chegando a 11,13% em janeiro de 2021.

O mercado de juros recebeu com indiferença a divulgação na sexta-feira do déficit primário das contas públicas em julho. Foi o terceiro consecutivo. Nunca havia acontecido tal sucessão. O rombo primário fiscal soma R$ 17,87 bilhões de maio a julho. O distanciamento do DI futuro não se fundamenta apenas no clássico “eu já sabia”. Até fevereiro, quando o governo se comprometeu para este ano com meta de superávit primário equivalente a 1,9% do PIB, qualquer resultado negativo provocava um clamor indignado: ou se fazia um arrocho fiscal ou o monetário seria inevitável. A segunda via prevaleceu e, na reta final das eleições presidenciais, a gritaria foi substituída pela esperança de que o próximo governo irá consertar a área fiscal. Resta ao mercado esperar. Desde que o Tesouro continue honrando o pagamento dos juros da dívida pública interna — só em julho, a conta foi de R$ 27,996 bilhões, mais do que o gasto anual de R$ 25 bilhões com o bolsa-família — estará tudo bem, mesmo que o superávit primário do ano fique bem longe do 1,9% prometido. No acumulado de 12 meses, caiu de 1,32% em junho para 1,22% em julho. Como um calote da dívida é impossível e como a inflação corrente não vem sentindo o que o mercado gosta de chamar de “gastança”, está tudo calmo no DI futuro.

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