Por bruno.dutra

O pano de fundo global favorecia a apreciação: a aversão a risco que imperou sexta-feira por causa da fragilidade econômica da zona do euro foi substituída por um apetite frugal estimulado por indicadores melhores sobre a China. Mas o fator que fez a diferença mesmo foram os últimos lances da corrida eleitoral. O dólar e os juros futuros fecharam com fortes quedas em razão de nova pesquisa pró-Aécio e dos apoios que o candidato recebeu de Marina Silva e da família de Eduardo Campos. Mas os três fatores não foram “precificados” em sua plenitude. O dólar caiu 1,27%, cotado a R$ 2,3927, mas poderia ter mergulhado muito mais se o mercado tivesse confiança na vitória do tucano.

Ainda não tem. Os analistas trataram a pesquisa Sensus divulgada no fim de semana como um ponto fora da curva. Quando se trata de projeções, o mercado gosta de operar com a “mediana”, uma medida que, por expurgar os extremos, é mais confiável do que uma simples média. A vantagem de 17 pontos de Aécio em relação a Dilma foi considerada um ponto extremado, sem exatidão. O resultado precisa ser confrontado com os de institutos que, como o Datafolha e o Ibope, desfrutam de maior credibilidade junto aos executivos.

Seria muito temerário ou francamente estúpido sair apostando dinheiro a rodo numa amostra sem confiabilidade. A menos que a sondagem indique o início de uma tendência irrefreável. Nesse caso, quem sai na frente ganha mais. Ninguém confiaria nisso a menos que dispusesse de informação privilegiada de qualidade superior. Não parece ser o caso, em face até do baixo volume de negócios registrado ontem no mercado de câmbio, de apenas US$ 800 milhões.

Ainda não tem também por dois outros motivos. O peso do apoio da família Campos parece restringir-se a Pernambuco e não se sobrepõe ao racha interno do PSB. O peso de Marina Silva também é discutível. Será aferido com maior acuidade nas próximas pesquisas. Mas, em princípio, os analistas relativizam a influência do apoio. Este parece nutrir a lista de contradições da ex-senadora, ampliando a divisão no seio da agremiação política que ainda não conseguiu o status de partido. A maior parte do eleitorado de Marina, de esquerda, não se deixará seduzir pela inclusão no programa econômico tucano de uns adendos de natureza estranha aos postulados básicos do PSDB. Isso não engana o marinista de raiz e não constrange o mercado. A pureza liberal-ortodoxa do PSDB não foi conspurcada: o viés esquerdista foi introduzido para atrair incautos, não para ser cumprido.

Um desvalorização do dólar, portanto, na casa de 1,3% não está inteiramente fora dos padrões especulativos “normais” do mercado de câmbio em período de tiroteio eleitoral. O preço de R$ 2,39 parece ser um patamar confortável, de onde poderia partir tanto para cima (se houver a comprovação de que o Sensus foi extravagante) quando para baixo, se a onda antipetista crescer. A baixa parece exagerada se o parâmetro for a cena externa. O índice que mede a variação do dólar frente a uma cesta de divisas, o DXY, recuou ontem apenas 0,45%.

E não havia negociação no mercado secundário de títulos do Tesouro americano. O feriado do Dia de Colombo não permitiu a que a taxa da T-Note de 10 anos subisse do nível de 2,29% no qual fechou na sexta-feira para refletir a maior predisposição global ao risco. Nem a nova declaração do vice-presidente do Federal Reserve (Fed), Stanley Fischer, segundo a qual a expansão mais contida do mundo deve levar o banco central americano a frear a retirada dos estímulos monetários.

A fala de Fischer e o dado sobre comércio exterior da China não seriam capazes, sozinhos, de mover o dólar para perto da faixa de R$ 2,39. O crescimento das exportações chinesas em 15,3% no mês passado, quando os especialistas previam uma alta de 12%, compensou o superávit comercial aquém do esperado. Enquanto o mercado projetava um saldo de US$ 41,1 bilhões, a balança comercial registrou um superávit de US$ 30,94 bilhões. Não foi possível porque as importações cresceram 7%, ao passo que se previa uma queda de 2%. De qualquer forma, os indicadores sugerem uma melhora da economia chinesa.

Sem o respaldo do mercado de “treasuries”, o pregão de juros futuros da BM&F movimentou-se em função do dólar. As quedas dos contratos não foram suavizadas pela piora na expectativa de IPCA para este ano do boletim Focus. A mediana das cem instituições pesquisas apontou taxa de 6,45% no acumulado de 2014, ante 6,32% no boletim anterior. A garantia dada pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em entrevista após a reunião anual do FMI em Washington, de que não será “complacente” com a inflação só fará preço no DI se crescerem as chances eleitorais de Dilma.

Embora os contratos futuros de DI tenham caído em bloco, a curva a termo intensificou sua inclinação negativa. Isso porque os contratos longos recuaram mais acentuadamente que os curtos. Quanto mais marcado o declive, maior a aposta na vitória de Aécio Neves. Enquanto a taxa para janeiro de 2016 cedeu 0,09 ponto (de 11,97% para 11,88%), o juro para janeiro de 2017 caiu 0,17 ponto (de 11,93% para 11,76%) e a taxa para janeiro de 2021 tombou 0,28 ponto (de 11,43% para 11,15%).

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