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Medo derruba juro americano

A não ser pela sinalização ainda não revista do Fed de elevação dos juros no segundo semestre, o cenário externo atual está muito parecido com aquele de meados de 2011 que permitiu ao Copom reduzir a Selic de 12,50% para 7,25%

Por diana.dantas

Principal aferidor do medo do grande capital financeiro global, o juro americano de 10 anos caiu ontem abaixo de 2%. A queda da taxa do título do Tesouro americano de 10 anos de 2,04% para 1,93% espelha a debilidade econômica nos quatro cantos do mundo. O desabamento do petróleo para aquém do patamar de US$ 50,00, também. 

O aumento na procura por “treasuries” é mecanismo de defesa contra as incertezas, mas trata-se de uma aplicação denominada em dólar. E este envia sinais de cansaço em sua escalada porque <QA0>
já se questiona a visão de que os EUA são hoje a terra da promissão e bem-aventurança em meio à estagnação geral. Dois indicadores americanos divulgados ontem surpreenderam pela apatia.

O comportamento dos preços relevantes atua no mesmo sentido, o da desinflação. Os custos de produção industrial caem por causa da hiperoferta a preços reduzidos de petróleo e commodities, e dos juros globalmente muito baixos. O efeito conjugado é a inflação no chão. Teoricamente, trata-se de um convite ao consumo e, portanto, à retomada das economias, desde que não se instale um processo deflacionista, o qual deflagra nas mentes dos agentes econômicos uma dúvida crucial: por que comprar agora se os preços estarão menores lá na frente?

Os setores industrial e de serviços dos EUA não mostram no quarto trimestre de 2014 a mesma pujança revelada no terceiro. O Departamento de Comércio divulgou ontem que, em novembro, as encomendas às indústrias recuaram pelo quarto mês consecutivo. A queda foi de 0,7%, mantendo o mesmo tamanho da ocorrida em outubro. Os analistas esperavam uma baixa menor, de 0,5%. A desaceleração da indústria afeta o crescimento como um todo. Já o índice Markit para o setor de serviços cedeu de 56,2 em novembro para 53,3 em dezembro, quando os especialistas previam alta para 58.

Os novos ingredientes do cenário global, sobretudo o declínio das “treasuries”, tendem a redobrar a “paciência” monetária do Federal Reserve (Fed). Não há, nem no mundo nem nos EUA, atmosfera propícia para se falar em aperto da política monetária. Só hoje o Fed irá publicar no seu site a ata da reunião realizada pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) em 17 de dezembro, aquela em que, sem abrir mão inteiramente do “forward guidance” anterior — o fornecido pela expressão “tempo considerável” — introduziu um novo, o “ser paciente” até decidir pela elevação da taxa básica de juros. Mas presume-se que a ata deverá merecer uma atualização à luz dos novos fatos. O Fed não precisa esmerar-se no cumprimento dos seus dois mandatos legais. A indústria e os serviços não estão gerando empregos capazes de suscitar inflação justamente em meio ao desabamento do preço dos combustíveis. Ao contrário da brasileira, a gasolina consumida pelos americanos é reajustada para baixo em tempo real em sintonia com os preços do barril do petróleo. O mercado internacional ainda não vê um piso para o barril. Não há nenhum sinal de distensão na guerra entre a Opep e o xisto americano. Pelo contrário: ontem a Arábia Saudita, o maior exportador, ofereceu descontos a compradores europeus.

O novo cenário de 2015 pode ter tornado obsoleto o discurso ortodoxo das autoridades brasileiras. O Brasil está disposto a cumprir a velha receita da austeridade fiscal e monetária para combater a estagnação econômica e a inflação num momento em que o mundo está exportando recessão e desinflação. Mesmo que o remédio esteja correto — e há muitas dúvidas sobre a sua eficiência em qualquer época —, pode ser ministrado na época errada. Se já se respira o ar da recessão — sendo que o último bastião da política anticíclica, o mercado do pleno emprego, começou a ruir com estrépito ontem a partir das demissões anunciadas pela Volkswagen —, pode ter sido prematuro o enterro do efêmero “guidance” de política monetária elaborado pelo Copom em sua última reunião, a de 3 de dezembro. A “parcimônia” anunciada como predisposição para as próximas decisões de política monetária foi, poucas semanas depois, esquecida pelos redatores do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Neste documento, ao invés da conduta parcimoniosa recém-admitida, o BC mostrou-se disposto a fazer tudo “o que for necessário” para conduzir a inflação ao centro da meta.

O fato é que, a não ser pela sinalização ainda não revista do Fed de elevação dos juros no segundo semestre, o cenário externo atual está muito parecido com aquele de meados de 2011 que permitiu ao Copom reduzir a Selic de 12,50% para 7,25%. O pregão de juros futuros da BM&F sabe disso. Tanto é que, apesar das pressões inflacionárias exercidas pela mudança de patamar do câmbio e pela correção das tarifas públicas, as taxas dos contratos caíram ontem pelo terceiro pregão em sequência. O DI para janeiro de 2016 escorregou de 12,83% para 12,78%. A taxa para janeiro de 2017 recuou de 12,77% para 12,64%. E o contrato que mais reflete o juro americano em queda, o relativo a janeiro de 2021, cedeu de 12,17% para 12,07%, já bem distante do ápice de 12,58% alcançado em 16 de dezembro. Se o BC quiser ser rigoroso, na próxima reunião do Copom, dia 21, poderá exumar o guidance da parcimônia e aplicar uma alta final na Selic de 0,25 ponto, de 11,75% para 12%. Mais sensato já seria interromper qualquer movimento até a conjuntura externa ficar mais clara.

Frente ao real, o dólar acompanhou ontem a desvalorização sofrida comparativamente às demais moedas emergentes. A moeda americana parece estar forte demais para uma economia que ainda exibe indicadores mistos e contraditórios. No fechamento do dia, o dólar foi cotado a R$ 2,7019, em queda de 0,25%.

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