Por bruno.dutra

Esta foi a tônica dos discursos oficiais no anúncio, ontem, do programa de R$ 69,2 bilhões em investimentos até o final do mandato de Dilma Rousseff. Sem o ajuste fiscal e a volta da confiança não seria possível fazê-lo. A narrativa oficial supõe que as correções já estejam terminadas. Embora mal tenham começado, há certeza de que serão vitoriosas. O mercado financeiro não compra essa história. Não só porque, em primeiro lugar, será preciso conhecer a receptividade das regras de concessão junto ao empresariado investidor. Mas também porque, em segundo, o plano de ajustamento Levy-Barbosa-Tombini não fecha. E porque, em terceiro, em poucos meses o mundo das finanças globalizadas poderá ser outro.

O dólar fechou em baixa de 0,29%, bem em linha com o comportamento de moedas emergentes congêneres, cotado a R$ 3,1010. Num pregão de liquidez muito exígua — giro de somente US$ 780 milhões na BM&F —, não foi feita aposta prévia de que as concessões atrairão capital estrangeiro em abundância. Os contratos de juros futuros negociados na BM&F quase não saíram do lugar, num misto de apatia e falta de rumo. A taxa para a virada do ano subiu de 14,06% para 14,08%. O contrato para janeiro de 2017 manteve-se nos mesmos 13,57% do fechamento da véspera. E a taxa para janeiro de 2021 recuou de 12,53% para 12,52%.

Os mercados globais começaram ontem a se preparar para a reunião marcada para quarta-feira da semana que vem do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve. As bolsas mundiais caíram em bloco, respondendo ao mesmo temor que elevou o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano de 2,38% para 2,45% — o de que o Fomc possa sinalizar a elevação da “fed funds rate” (FFR) na sua reunião de setembro. Mas por que só em setembro? O Fed gosta de tomar decisões fundamentais nos seus encontros especiais. São especiais porque além da decisão em si de política monetária e dos sinais emitidos pelo “statement”, neles há a divulgação das projeções de emprego, inflação e juros longos formuladas pelos 12 membros do Fomc e também declarações da presidente Janet Yellen à imprensa.

Em 2015, metade das oito reuniões serão especiais. A da semana que vem será uma delas. Mas como a autoridade já informou na reunião passada, de 29 de abril, que não subiria o juro agora, a aposta direcionou-se para a próxima especial, em 17 de setembro. É altamente improvável que o descongelamento da FFR ocorra na reunião intermediária entre a da semana que vem e a de setembro, agendada para 29 de julho, porque nesta, ordinária, não haverá oportunidade para o Comitê prestar esclarecimentos maiores aos mercados.

Então, fica para setembro. Mas se o Fed indicar dia 17 que de setembro não passa, será como se já tivesse tomado agora a decisão de alta. E o mercado vai começar a apostar no tamanho da elevação e se o Fed vai abandonar o range entre zero e 0,25% instituído em dezembro de 2008. Abre-se a porta para a taxa da T-Note de 10 anos buscar os 3% rapidamente. Quais as consequências dessa possibilidade para os países emergentes? Depende do ritmo de ajuste das carteiras globais. E também de dois outros fatores: dos efeitos positivos sobre a liquidez global do programa de afrouxamento quantitativo do BCE e do estouro ou não da bolha acionária chinesa. Os 60 bilhões de euros que o BCE coloca todo mês podem atenuar os movimentos de realocação de portfólios, desde que o furo da bolha chinesa seja pequeno e controlado.

Bolhas de ações costumam explodir de forma estrepitosa. A bolsa de Shangai atravessa um surto tresloucado muito parecido com os de Wall Street em 1987 e 2000, mas ainda está distante do sobe-e-desce vertiginoso de outubro de 1929. O pregão chinês, depois de valorizar-se 145% no ano passado, subiu mais 152% de janeiro a maio de 2015. Trata-se de um ganho alavancado por crédito fácil e por venda de ativos reais. E ocorre em meio a uma desaceleração econômica mais intensa do que a prevista pelo governo, cujas metas de crescimento do PIB são continuamente frustradas. A inflação denuncia o desaquecimento.

Foram divulgados ontem os índices de preço no atacado e ao consumidor relativos a maio. A inflação no varejo desacelerou em termos anuais de 1,5% para 1,2%. E, no atacado, a deflação que já dura 39 meses repetiu os -4,6% do mês anterior. Tais índices levantaram o clamor em prol de novos estímulos monetários. São tudo o que os especuladores querem. Mas, ontem, não teve jeito e Shangai, ao cair 0,4%, acompanhou o declínio global. O índice FTSEurofirst 300, o principal da Europa, fechou em baixa de 0,44%.

São três megaeventos previstos para os próximos meses capazes de mexer com a taxa de câmbio brasileira e com o plano Levy-Barbosa-Tombini: alta dos juros nos EUA, murchamento da falsa euforia chinesa e dúvidas sobre a continuidade do “quantitative easing” europeu. Por enquanto, o presidente do BCE, Mario Draghi, parece empenhado em ir até o fim. Na reunião da semana passada, garantiu que o programa irá, conforme o anúncio original, até pelo menos setembro de 2016. Mas acontece que a zona do euro vem se recuperando notavelmente.

Segundo divulgou ontem a Eurostat, o PIB da região cresceu 0,4% no primeiro trimestre do ano comparativamente ao quarto de 2014. Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, a expansão foi de 1%, de dar inveja ao Brasil e a sua contração de 1,3% em 2015 (previsão Focus).

Como supor que o ajustamento interno já está realizado se há tantas variáveis incertas globais e se os analistas não confiam muito no plano da troica brasileira? Para o mercado, não basta o governo conseguir um superávit de R$ 66 bilhões das contas públicas, equivalente a 1,1% do novo PIB (recalculado pela nova metodologia do IBGE).

Nem se está discutindo a qualidade desse superávit, obtido mais pelo aumento de impostos do que pelo corte de despesas correntes. Mas ele será insuficiente para reduzir a dívida pública em relação ao PIB porque o Banco Central se esmera em um aperto monetário draconiano. Faz crescer o custo de carregamento da dívida enquanto mina o potencial arrecadatório. O que a Fazenda economiza com uma mão, o BC esbanja com a outra. Se a dívida não cai, a confiança não volta e, sem ela, as expectativas de inflação se recusam a convergir para a meta.

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