Por douglas.nunes

Rio - A crise geopolítica resultante da anexação da Crimeia está abalando a economia russa e - diferentemente do que se pensou no início do conflito - trazendo efeitos positivos para o Brasil. Nos últimos dias, ganhou força a interpretação de que parte dos dólares que chegaram ao país em março estiveram na Rússia até a recente expansão territorial. Para especialistas, o saldo positivo de US$ 5 bilhões do fluxo cambial acumulado pelo país esse ano não se deve apenas às questões domésticas - como a subida dos juros aqui -, mas também à fuga de capitais da Rússia, cujo saldo do fluxo está negativo em US$ 60 bilhões nos três primeiros meses de 2014.

"Recursos com mandato para serem alocados em bolsa de emergentes, quando saem de um país com a força e a rapidez que vimos na Rússia, têm de ter ido para outra economia com esse perfil. Na análise que fizemos, as bolsas de emergentes subiram durante o desenrolar da crise russa", conta Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Securities.

Desde o início de março, o índice mexicano Mexbol subiu 2,5%; o turco XU100 disparou 12,9%; o indiano Nifty outros 7,6%; o sul-africano Jalsh ganhou 1,8%, e o Ibovespa saltou 6,8%. Comparado à sua maior cotação no ano - ainda em janeiro -, o indicador russo RTSI fechou a semana passada com queda de 18,8%. Fontes contam que o maior responsável pela alocação desses novos recursos no Brasil seria o banco Santander, que não confirma a informação.

Os indícios do mercado de câmbio também são fortes. No mês de março, o dólar experimentou um novo patamar, chegando a R$ 2,2594 na sexta-feira. Nas últimas duas semanas, os minicontratos futuros de dólar - chamados dessa forma devido ao volume e ao prazo reduzidos - bateram recordes históricos em seis oportunidades. "Ainda que o dinheiro no mercado de capitais não tenha carimbo, é possível que os investidores anteriormente alocados na Rússia estejam buscando outros emergentes.

Quando chegam no novo país, o câmbio costuma acusar", explica Sidnei Nehme, diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, para quem o movimento recente ainda não preenche as posições em descoberto no mercado, estipuladas por ele em R$ 13 bilhões. "A realocação desses recursos internacionais explicaria a queda recente do dólar, que eu considero contra a lógica".

Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, consegue enxergar motivos para a chegada de novos recursos saídos da Rússia. "É uma operação que faz todo o sentido, dada a taxa de retorno elevada na renda e a eliminação do risco de o Brasil perder o grau de investimento esse ano", resume. O cenário acabou por, ao contrário do que se previa, trazer benefícios ao Brasil. "Ainda assim, é um capital volátil que pode sair daqui da mesma forma que chegou, inesperadamente.

A fuga persistindo pode trazer efeitos negativos para o preço de commodities que o Brasil tem dependência externa". Na sexta-feira, Alexei Ulyukayev, ministro da economia russo, projetou cenários para a crise. No pior deles, com saídas líquidas de US$ 150 bilhões no ano, o PIB russo encolherá 1,8%.

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