Emissores estreantes com nota junk lotam mercado brasileiro de títulos

A escassez de vendas de títulos por empresas brasileiras que fazem sua primeira emissão está dando lugar a um crescimento abrupto das ofertas depois que os rendimentos de referência nos mercados externos caíram para o valor mais baixo em um ano

Por marta.valim

A escassez de vendas de títulos por empresas brasileiras que fazem sua primeira emissão está dando lugar a um crescimento abrupto das ofertas depois que os rendimentos de referência nos mercados externos caíram para o valor mais baixo em um ano.

A InterCement Brasil SA, a fabricante de autopeças Tupy SA e a produtora de polpa Klabin SA pediram aos bancos que organizassem reuniões com investidores em títulos nos últimos sete dias. Suas ofertas marcariam o mês mais ativo para os emissores estreantes da maior economia da América Latina desde outubro de 2012, mostram dados compilados pela Bloomberg. A única venda feita neste ano por um emissor estreante foi no mês passado, com uma oferta de US$ 2 bilhões feita pelo fundo de pensões do Rio de Janeiro, o Rioprevidência.

O súbito impulso dos novos emissores sinaliza que a emissão recorde de corporações brasileiras deste ano está começando a se espalhar para empresas menos conhecidas e com nota menor. A Standard Poor’s dá nota junk à Tupy e à InterCement e atribui seu grau de investimento mais baixo à Klabin, com uma perspectiva negativa. A aceleração das vendas faz parte de um boom internacional, pois taxas de juros quase zeradas alimentam a demanda por ativos de maior rendimento, levando o Banco de Compensações Internacionais (BIS) a advertir que os decisores políticos estão alimentando bolhas de ativos, afirmação rejeitada pela presidente da Reserva Federal, Janet Yellen.

“Há um grande apetite dos investidores por todo tipo de créditos, até na categoria de rendimentos altos”, disse Katia Bouazza, uma das diretoras de mercados internacionais de capitais para o continente americano da HSBC Holdings Plc em Nova York, em entrevista por telefone. “Nomes menores normalmente precisam de um cenário mais estável e, basicamente, de menos volatilidade para serem introduzidos em um mercado. E essas são exatamente as condições que temos tido nas últimas semanas”.

Emissor de papelão

No Brasil, a emissão está crescendo rapidamente. Empresas venderam cerca de US$ 31 bilhões em títulos nos mercados internacionais nos primeiros seis meses do ano, frente a US$ 22,9 bilhões no primeiro semestre de 2013, mostram dados compilados pela Bloomberg. A média de rendimentos dos títulos corporativos em dólares do País despencou 0,72 ponto porcentual neste ano, para 6,04 por cento, frente a uma queda média de 0,60 ponto porcentual nos mercados emergentes, segundo dados de índices da JPMorgan Chase Co.

A Klabin, a maior fabricante de papelão no Brasil, contratou bancos para agendar reuniões com investidores na Europa e nos EUA a partir de hoje, disse uma fonte do setor que pediu para não ser identificada porque não está autorizada a discutir publicamente o assunto. A companhia, com nota BBB-, visa vender US$ 500 milhões em notas com vencimento em 2024, segundo a Fitch Ratings.

A Tupy, fabricante de blocos de motores e peças para sistemas de freio com sede em Joinville, Santa Catarina, procura emitir até US$ 350 milhões em títulos com vencimento em 2021. A oferta proposta pela Tupy tem nota BB- da S&P, três níveis abaixo do grau de investimento e um patamar abaixo da InterCement. Ambas as companhias começarão suas reuniões com investidores hoje, segundo fontes do setor que solicitaram o anonimato porque não estão autorizadas a falar publicamente.

Juros em alta

A alta das taxas de juros no Brasil, fator que conteve a emissão no mercado local de dívida do País, também levará empresas que nunca venderam títulos no exterior a avaliarem o interesse dos investidores lá, segundo Rodrigo Cabernite, diretor de mercados de capital de dívida para a América Latina da Standard Chartered Plc.

“A dinâmica do mercado local não tem sido ótima, e o mercado internacional tem estado muito forte”, disse Cabernite em entrevista por telefone de São Paulo. “Ainda temos tempo antes que a oportunidade acabe. O mercado deveria continuar contribuindo para a geração destes tipos de ofertas de empresas estreantes”.

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