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Dólar puxa retorno de fundos cambiais em 2014

Incertezas internas e externas devem continuar pressionando a moeda norte-americana este ano, mesmo assim, analistas divergem sobre rentabilidade do segmento

Por monica.lima

São Paulo - O fraco crescimento da economia doméstica, possibilidade de alta da taxa de juros dos Estados Unidos e incertezas no mercado internacional, que pressionaram o dólar em 2014, devem continuar ao longo de 2015, levando o real a se desvalorizar ainda mais. Se por um lado, o dólar apreciado não é bom para importadores e para quem tem dívidas na moeda, por outro, garantiu retorno de 14,26% no ano passado aos investidores que optaram por fundos cambiais, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), acima da valorização da moeda que foi de quase 13% ante o real.

Os fundos cambiais ficaram atrás apenas dos fundos Multimercados Estratégia Específica, que apresentaram rentabilidade de 14,28% e a frente dos fundos Multimercados Trading. Ao contrário do cambial, o fundo de estratégia específica é uma modalidade que pode englobar vários tipos de ativos — incluindo dólar, commodities e ações — conforme a definição de cada gestor. Já o trading é um fundo focado em operações de curto prazo, ou seja, sem uma visão macroeconômica para montagem de posição e, sim, mirando oportunidades pontuais.

A continuidade da boa performance dos cambiais este ano, no entanto, não é consenso entre especialistas da indústria de fundos. Para o analista da Empiricus Research, Felippe Miranda, esse investimento pode ser uma boa opção se ele for entendido, principalmente, como hedge (proteção). De acordo com ele, o dólar deve ganhar valor ante as principais moedas internacionais, como o iene e o euro, em razão da perspectiva de diferenciação de crescimento econômico do país norte-americano. “Enquanto os EUA mostram recuperação vigorosa e devem subir os juros, a Europa e o Japão começam um afrouxamento monetário, derrubando suas moedas, o que pode levar a busca por dólar”, diz.

Do ponto de vista doméstico, Miranda ressalta que o déficit em transações correntes, a desconfiança com as contas públicas, baixo crescimento e inflação em alta devem levar a desvalorização do real. “Dólar contra o real vai ganhar”, diz, acrescentando ainda que não descarta a possibilidade de a moeda atingir R$ 3,50 ao longo do ano. “Não dá para dizer quando, mas é um cenário de dúvidas internas e externas que podem levar a moeda a este patamar no momento de maior estresse”, estima, ressaltando, no entanto, que depois a divisa deve situar-se em torno de R$ 3,10.

Para o diretor-executivo do site Fortuna, Francisco Arruda Camargo, quando os EUA começarem a subir o juro do país pode haver uma migração de recursos do Brasil e também de outros países de volta para a terra natal. Além disso, ele lembra que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, encerrou no ano passado a injeção de liquidez que vinha fazendo para estimular a economia, o que também colabora para a apreciação da divisa norte-americana. “O dólar vai ficar pressionado muito mais por fatores internacionais do que pelo cenário doméstico. Deve haver bastante volatilidade nos próximos meses, portanto, é sempre bom lembrar que uma posição cambial traz risco e investir ou não vai depender do apetite de risco do investidor”, diz. Camargo lembra também que as commodities, principalmente, metais e petróleo são componentes que também impactam no dólar.

Para o analista-chefe da Walpires Corretora, Leandro Martins, o cenário de incertezas externas e domésticas podem levar a moeda a atingir R$ 3,10 ainda no primeiro trimestre do ano. Para o fim do ano, o profissional disse que ainda é cedo para fazer projeções. “Nesse sentido, aplicar em fundo cambial é uma boa possibilidade, apesar da taxa de administração cobrada. Investimento em câmbio é boa opção para quem tem dívida em dólar ou tem viagem programada, o fundo acaba sendo uma opção de hedge”, diz.

Já o gestor de fundos da Ativa Corretora, Arnaldo Curvello, avalia que para o investimento ser satisfatório e necessário que o dólar encerre o ano a R$ 3,07, considerando a taxa de juro futuro de um ano hoje, em 12,86%. “Se comprar fundo, o dólar tem que estar próximo de R$ 3,07 para empatar com uma aplicação 100% do CDI. Hoje o dólar está em torno de R$ 2,7. O dólar vai continuar subindo, mas com todo o risco envolvido, não é uma aplicação fenomenal”, diz, lembrando que a tendência da Selic é de alta para este ano, ou seja, investimentos em renda fixa podem proporcionar um retorno parecido com o do fundo cambial com menos risco.

Já o diretor executivo da NGO Corretora, Sidnei Nehme, escreveu em relatório que projeta a moeda norte-americana em R$ 3,20 no final do ano, sendo que no primeiro trimestre ele deve atingir R$ 2,80. O executivo ressalta, no documento, que há um consenso de que o desafio para o “novo” governo e sua equipe econômica remodelada em relação ao “velho” governo, ambos sob o comando da mesma dirigente, será enorme, desafiador e que em muitos pontos dos anseios será “necessário ver para crer” face ao antagonismo frente a condutas dispares praticadas até recentemente. “A nova postura de gestão, inevitavelmente, será desgastante e não há certezas de que os resultados almejados serão alcançados”, diz.

Nehme ressalta que o Brasil é um país frágil no contexto do mercado internacional, embora o governo tenha sempre utilizado o “escudo” das reservas cambiais de R$ 373,4 bilhões. Ele lembra que a Rússia, mesmo depois de ter usado parte das reservas para “controlar o incêndio”, ainda tem mais reservas cambiais do que o Brasil. “Há um endividamento externo elevado do setor privado e que tem sido foco de observações constantes nas avaliações sobre o Brasil”, diz.

Para o executivo, a decisão do Banco Central de continuar com a oferta diária de US$ 100 milhões até março, é meramente formal e não será suficiente para recuperar fluxo cambial intenso e sustentável e nem a credibilidade da moeda nacional.

Para o profissional, os investimentos em renda fixa e variável tendem a ser menos intensos, com o fator risco ganhando força nas decisões dos investidores estrangeiros. “Preços baixos das ações e rendimento elevado de renda fixa poderão não prevalecer como determinantes nas decisões, visto que o país além de seu “status quo” deteriorado tem sofrido desgastes relevantes face problemas de corrupção”, lembra.

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