Lena vendendo doces e depois, na casa própria com as netas: sofrimento e recompensa - Arquivo pessoal
Lena vendendo doces e depois, na casa própria com as netas: sofrimento e recompensaArquivo pessoal
Por Jupy Junior
ITAGUAÍ – Nylse Lene Mendes Bastos, mais conhecida como Lena, nunca experimentou nada igual nos seus 50 anos: teve sua vida totalmente transformada depois que a itaguaiense Laís Torres, de 30 anos, se comoveu com sua história. Hoje, graças ao poder da empatia e da solidariedade, deixou para trás momentos de grande dificuldade e constrói novos caminhos. “Só de lembrar o que fizeram por mim eu choro de emoção”, conta ela. A mesma emoção que Laís também revela: “senti que precisava fazer alguma coisa”.
O COMEÇO
Lena não sabe dizer ao certo quando veio de Ipatinga (MG) para Muriqui (Mangaratiba), para tentar a vida no Rio de Janeiro, na casa da sobrinha. Foi a filha da irmã que forneceu os doces que ela passou a vender na praia, principalmente para os turistas. Mangaratiba é famosa pelas saborosas cocadas. Assim, Lena e Karina, a filha de 31 anos, garantiam o seu sustento, e criavam Camila (7) e Daniele (3), filhas de Karina.

Até que a pandemia deixou a praia de Muriqui deserta. Sem turistas nem clientes, Lena e Karina migraram para Itaguaí em março para tentar vender os doces, dos quais obtinham apenas 25% do preço de venda. Resolveram se dividir em dois pontos na cidade para tentar vender mais. Lena foi para a frente do supermercado Miraí, no bairro do Engenho. Karina foi para a frente do supermercado Guanabara, na rua Curvelo Cavalcanti. As crianças acompanhavam e às vezes dormiam embaixo da carroça de doces. Foi então que alguém prestou mais atenção à mineira de 50 anos.

EMPRESÁRIA SE MOBILIZA
A empresária Laís Torres, que tem uma hamburgueria na cidade, viu uma postagem no Instagram com uma foto de Lena e um pedido para ajudá-la a pagar o aluguel. Laís foi até ela, comprou doces e as duas começaram a conversar. A empresária decidiu promover uma ação na sua loja: cada real pago no sanduíche se converteria em alimentos para Lena. Decidiu também marcar os amigos na internet. Por causa disso, houve uma primeira onda de solidariedade: por R$ 680 reais, compraram todos os doces de Lena sem levá-los.
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Laís com Lena: mobilização via internet mudou a vida da mineira - Arquivo pessoal
O aluguel foi devidamente pago e a despensa abastecida. Mas a segunda onda foi bem maior: na postagem, Laís havia marcado também o grupo Razões para Acreditar, que organiza ações de caridade no seu site, mobilizando pessoas de todo o Brasil. Deu certo. Graças à vaquinha aberta no site, Lena arrecadou R$ 43,5 mil.
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Postagem de Laís no Instagram: ação viralizou e muita gente ajudou - Arquivo pessoal


CASA EM MG
Emocionada, Lena conta que não soube como agradecer às pessoas na internet, pois não sabe ler nem escrever. Mas a irmã e uma sobrinha em Minas a ajudaram a abrir uma conta no banco. Com parte do dinheiro, partiu de volta a Ipatinga no mês de maio, onde comprou uma casa de três cômodos perto da casa do irmão. A filha e as netas foram um pouco depois. O resto do dinheiro deve sair ainda este mês. “Tudo o que eu queria era voltar para a minha cidade”, explica a mineira. Lena agora vende produtos de limpeza e continua atônita com a mobilização virtual das pessoas.
Laís continua a vender hambúrgueres – somente delivery, por causa da pandemia – e também com ações de caridade em Itaguaí, porque há muita gente que, como Lena, precisa muito de ajuda. A empatia e a solidariedade são mais doces do que qualquer cocada.