Manoel, contente, de volta ao trabalho onde há 23 anos atende os clientes na madrugada: fim de um tormento - Arquivo pessoal
Manoel, contente, de volta ao trabalho onde há 23 anos atende os clientes na madrugada: fim de um tormentoArquivo pessoal
Por Jupy Junior
ITAGUAÍ – Aquele que sempre foi um refúgio para matar a fome dos baladeiros e dos religiosos nas madrugadas itaguaienses só não passou fome por causa da caridade. Durante 23 dos 78 anos de Manoel Inocêncio Correa, a barraca de cachorro-quente que ele mantém com a esposa Docenea (72 anos) e o filho Marcelo (44) pagou as contas da casa. Com o decreto municipal que fechou o comércio e impediu o trabalho dos ambulantes, a família se viu em sérios apuros e só com ajuda não se entregou ao desespero. Hoje, depois da flexibilização do decreto 4484, a vida de Manoel e sua família se renova de esperança.
Desde 1997 na mesma esquina, quase em frente ao Calçadão, Manoel prepara com a esposa os acompanhamentos, molho, pães e guarnições de um lanche que todo brasileiro adora. Antes viver como ambulante na rua em Itaguaí, Manoel trabalhava na lavoura. Quando casou, mudou de vida e encontrou na barraca uma fonte de renda. Fez fama porque é um dos poucos que oferece lanche na madrugada: seu ponto é a salvação dos esfomeados que se divertiram a noite toda e do pessoal que sai da igreja doido para comer algo gostoso. A partir das 18h, Manoel só vai embora perto das 4h ou quando já vendeu tudo. E assim os itaguaienses aprenderam que ali, naquela esquina, de segunda a segunda (sim, em todas as madrugadas) sempre esteve Manoel com seu hot-dog esperto. Mas tinha uma pandemia no meio da história.
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ENCHENTE, PREJUÍZO, TRISTEZA
O tormento de Manoel começou em março, com a enchente que arrasou a cidade. Morador da antiga Rua 40, no Engenho, ele já tinha se acostumado a deixar o carro, um Ford Fiesta, perto de uma oficina, pois não conseguia entrar com o veículo na rua alagada que vira praticamente um rio toda vez que chove forte. Mas não conseguiu prever o que aconteceu: um muro caiu em cima do carro. Prejuízo de mais de 1,5 mil reais, justamente o que levava os suprimentos para o trabalho na rua. A esposa fez um empréstimo para consertar o carro, o nome entrou para o SPC. Por causa disso, de vez em quando, Docenea chora. Acha vergonhoso, como cristã, ter o "nome sujo".
A barraca fica guardada em um estacionamento no centro, ao custo de 50 reais por semana. E lá ela ficou por mais de 100 dias, pois o decreto municipal e a fiscalização impediam Manoel de montar no seu ponto o seu pequeno “estabelecimento de rua” para atender os clientes que se habituaram com o tempero de Docenea. Nesse período difícil, a família conseguiu se alimentar graças às cestas básicas que as igrejas Universal e Nova Vida doaram. A luz quase foi cortada. Rose, irmã de Docenea e cunhada de Manoel, ajudou como podia.
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Para Manoel, a felicidade é poder trabalhar para garantir o seu sustento e o da família - Arquivo pessoal
O comerciante entristeceu, parecia deprimido, pouco falava. Não sabia o que fazer, pois há 23 anos fazia a mesma coisa. Tinha medo de reclamar, de reivindicar. Manoel é sujeito pacato e trabalhador: é com carinho que ajeita o sanduíche, coloca as provisões, sorri para o cliente. Manoel enfrenta as dificuldades da vida na maior parte das vezes calado, sai de casa no Engenho, trabalha durante a madrugada, descansa de dia e logo está na hora de voltar de novo. Ele vive como tantos outros trabalhadores de Itaguaí: com esforço, as conquistas são árduas, a persistência é a única opção, a vida é simples, mas dura.
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A VOLTA, O RECOMEÇO
Semana passada veio a boa notícia. A prefeitura ia liberar o trabalho. A cunhada Rose ajudou a comprar os mantimentos, pagou no cartão de crédito. Amigos se mobilizaram para pagar o que Manoel devia no estacionamento para pegar a barraca. Docenea correu para fazer molho e picar os legumes. Comprou-se pouco pão, não se sabia o que venderia. As vendas estão indo bem, agora é acabar de pagar o carro, ainda não sobrou quase nada de dinheiro, o que entra é para comprar mais suprimentos para manter a barraca aberta, para manter a vida mais ou menos em ordem, para renovar as esperanças. Para sobreviver.
O decreto 4484 liberou Manoel e tantos outros para voltarem ao trabalho nas ruas, mas sob a condição de usar máscaras, deixar álcool gel disponível, manter distância entre as pessoas. Manoel, é claro, segue rigidamente. Ele sempre segue. Rigidamente. Ele sempre faz o que é preciso.
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Ele é tão tímido que pediu para a cunhada: “Rose, diz assim ao jornalista: diz que eu estou feliz. Diz que eu agradeço a todos que me ajudaram. Diz que vai ficar tudo bem”.
É o que todos esperam, Manoel do cachorro-quente de Itaguaí. Que tudo fique bem.
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