Pressão sobre Israel aumenta por cessar-fogo em Gaza

Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, acusou Israel de possíveis crimes de guerra. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha conseguiu breve trégua para ajuda humanitária

Por marta.valim

Israel prosseguia nesta quarta-feira com sua ofensiva em Gaza, apesar da pressão internacional, que aumentou com as denúncias da Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU sobre possíveis crimes de guerra em uma operação que já custou a vida de quase 50 palestinos.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), por sua vez, conseguiu uma breve suspensão dos combates em duas zonas devastadas da Faixa de Gaza para permitir a passagem de comboios humanitários.

O chefe da diplomacia americana, John Kerry, que chegou nesta quarta-feira a Israel, buscava, por sua vez, alcançar um cessar-fogo entre o Estado hebreu e o movimento islamita Hamas, que controla a Faixa de Gaza.

"Sem dúvida, demos alguns passos, mas ainda há muito trabalho", declarou Kerry durante um encontro com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

Ban expressou certo otimismo. "Estamos unindo nossas forças para obter uma trégua o quanto antes (...) Não temos tempo a perder", afirmou.

Kerry também se reunirá com o presidente palestino, Mahmud Abbas, em Ramallah (Cisjordânia), e com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em Tel Aviv.

A comunidade internacional denuncia os ataques com foguetes do Hamas contra Israel - que motivaram o início da ofensiva terrestre - mas multiplica as críticas contra a operação, já que a maioria das vítimas dos bombardeios contra Gaza são civis.

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, denunciou os ataques indiscriminados do Hamas contra zonas civis, mas pediu uma investigação sobre possíveis crimes de guerra cometidos por Israel, em uma reunião extraordinária do Conselho de Direitos Humanos em Genebra.

"Existe uma alta possibilidade de que o direito humanitário internacional tenha sido violado, o que pode constituir crimes de guerra", declarou Pillay, citando como exemplo a destruição de casas e os civis mortos, entre eles muitas crianças, como resultado da operação israelense em Gaza.

O ministro das Relações Exteriores palestino, Riad Malki, acusou Israel de cometer um crime contra a humanidade e exigiu uma investigação internacional.

"Israel está cometendo crimes hediondos. Israel destrói completamente bairros residenciais. O que Israel faz (...) é um crime contra a humanidade", declarou Malki durante a reunião de Genebra.

Menos foguetes

O exército israelense, que registrou 29 mortos desde quinta-feira - suas maiores perdas desde a guerra contra o Hezbollah libanês em 2006 - destacava o êxito de suas operações, em especial em Shejaiya, um subúrbio da cidade de Gaza (no norte da Faixa) onde os bombardeios mataram 70 pessoas.

"Durante as últimas 24 horas a situação está mais sob controle", declarou o porta-voz do exército, Peter Lerner, acrescentando que os disparos de foguetes do movimento islamita contra Israel diminuíram de intensidade.

"Foi constatada na terça-feira uma diminuição substancial dos disparos de foguetes. É difícil dizer se trata-se de uma tendência, mas o número é menor, 97", expôs.

Nesta quarta-feira, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou a suspensão dos combates em duas zonas devastadas da Faixa de Gaza para permitir a passagem de comboios humanitários.

Esta pausa nas hostilidades entre o movimento islamita Hamas e o exército israelense deve permitir a evacuação dos feridos de Shejaiya e de Khuzaa, no sul do território, segundo Cécilia Goin, porta-porta do CICV.

Desde o início da ofensiva, no dia 8 de julho, foram contabilizados 1.700 impactos de foguetes em território israelense e 420 projéteis foram destruídos no ar.

O objetivo anunciado por Israel é desarmar o Hamas, colocar fim ao lançamento de projéteis, destruir os túneis utilizados pelos islamitas e deter as infiltrações em Israel de combatentes palestinos.

Voos cancelados

Enquanto isso, os bombardeios e os disparos de tanques prosseguiam nesta quarta-feira em Gaza. Cinco palestinos, entre eles duas crianças, morreram perto de Khan Yunes, no sul do reduto.

Do lado israelense, um trabalhador estrangeiro morreu ao ser atingido por um projétil lançado de Gaza.

Segundo a ONU, a maioria das vítimas palestinas são civis. O último balanço disponível é de 649 mortos, um número difícil de verificar, levando-se em conta o caos que reina em Gaza, onde aparecem sob os escombros corpos de pessoas falecidas em dias anteriores.

O presidente palestino, Mahmud Abbas, reconheceu que seus esforços para alcançar uma trégua durante um giro pelo Oriente Médio fracassaram. A direção palestina, reunida de urgência na noite de terça-feira em Ramallah, fez um chamado a "manifestações populares gerais de solidariedade com Gaza e a Resistência".

Israel tentava se organizar nesta quarta-feira depois que várias companhias aéreas suspenderam seus voos a Tel Aviv por razões de segurança. Um foguete explodiu na véspera perto do aeroporto internacional da cidade israelense.

As autoridades ordenaram a abertura de um aeródromo no sul do país e a companhia aérea israelense El Al anunciou que aumentará seu número de voos.

O presidente israelense, Shimon Peres, considerou que a suspensão dos voos "se traduzirá em mais disparos de foguetes e em um risco maior não apenas (para Israel), mas para o mundo".

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