Por monica.lima

Com a fusão de duas grandes empresas de equipamentos ferroviários, a China criou a segunda maior empresa industrial do mundo, atrás apenas da General Eletric (EUA). As ações da CRRC Corp, empresa de quase US$ 130 bilhões, resultado da fusão da da CSR Corp. e da China CNR Corp., começaram a ser negociadas ontem em Hong Kong e Xangai. A gigante das ferrovias não tem intenção de se limitar à China. Com ela, Pequim pretende competir ainda mais agressivamente pelos negócios ferroviários no exterior.

A China usa suas empresas ferroviárias não apenas para ganhar contratos lucrativos, mas para projetar influência política no exterior. A CRRC transforma em anões concorrentes como Siemens AG (Alemanha), e Alstom SA (França). Seu alvo são mercados emergentes como a África, a América Latina e o Sudeste Asiático. Os negócios do imenso complexo industrial ferroviário são reforçados pelo premiê Li Keqiang, que esteve recentemente no Brasil, onde anunciou investimentos de cerca de US$ 50 bilhões. Entre os projetos, estão a construção de uma ferrovia que ligaria o Brasil ao Peru. Mas além de países emergentes, o premiê também vem apresentando, em suas viagens, ofertas por contratos de alto nível no mundo desenvolvido.“A CSR e a CNR costumavam competir com a Bombardier e a Alstom. Agora é a China contra todos os demais”, disse Alexious Lee, chefe de pesquisa industrial da CLSA Ltd., em Hong Kong. “Os produtos da China podem não ostentar especificações de alto padrão, mas dão valor ao dinheiro”, completou.

A CRRC entra em cena em um momento de turbulência na indústria ferroviária internacional. A canadense Bombardier Inc. reavalia o futuro de sua divisão ferroviária. A CSR e a CNR teriam considerado assumir uma participação controladora na empresa. Em fevereiro, a italiana Finmeccanica SpA entregou sua divisão de sinalização ferroviária à japonesa Hitachi Ltd.O impulso da China no setor coloca o país em concorrência direta com o Japão por contratos e influência no Sudeste Asiático. Ambos os países miram um projeto de ferrovia de alta velocidade na Califórnia. Os concorrentes europeus e americanos também enfrentarão concorrência mais dura com o surgimento da nova gigante chinesa. As empresas chinesas já são conhecidas por suas táticas agressivas. Em 2014, a CNR ganhou o primeiro grande contrato ferroviário da China na América do Norte: um negócio de US$ 567 milhões pelos trens do metrô de Boston, proposta 50% mais barata que a da Bombardier.

Siemens, Alstom e Bombardier “eram empresas grandes, e de repente há uma empresa enorme”, disse o ministro da Economia canadense, Jacques Daoust, no mês passado, quando circulou a notícia de que a CSR e a CNR estariam estudando fazer uma oferta pela unidade ferroviária da Bombardier. “É uma preocupação”, afirmou. Mas as concorrentes da CRRC podem lucrar fornecendo componentes enquanto a gigante chinesa oferece os trens. “Os chineses produzirão os veículos ferroviários, mas precisarão de peças e componentes fabricados no Japão”, disse Hiroyasu Nishikawa, analista da Iwai Cosmo Securities em Tóquio. As empresas da China, que tem a maior malha ferroviária de alta velocidade do mundo, participaram de 348 projetos ferroviários internacionais e exportaram US$ 3,74 bilhões em equipamentos locomotivos no ano passado, segundo o Ministério do Comércio chinês. As ambições do país são ainda maiores. Em maio, o setor ferroviário foi apontado como um dos 10 focos de um plano para transformar a China em uma das economias industrializadas mais avançadas do mundo. “A China está tentando mudar a forma como o setor ferroviário é conduzido”, disse Lee, da CLSA. Com Bloomberg

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