Argentina enfrenta com força fundos abutre, proibidos na Europa e livres nos EUA

A determinação do governo Kirchner surpreendeu até mesmo os mais experientes operadores do mercado financeiro americano

Por monica.lima

A briga entre a Argentina e os fundos abutre não se limita aos tribunais. A disputa pela versão dos fatos é visível na imprensa mundial. Existem os veículos que afirmam, categoricamente, que a Argentina deu um novo calote nos credores, 13 anos depois do maior calote soberano da história. Uma descrição que o governo da Argentina rejeita já que depositou o dinheiro devido. Ele não foi distribuído aos credores porque a justiça não permitiu. Exige, antes um acordo com os abutres. O “Wall Street Journal”, porta-voz dos interesses do mercado financeiro americano, disse, na manchete, que “A briga da dívida argentina encontrou muitos culpados e poucas soluções.”

A Economist optou por uma manchete curta: “A saga da dívida Argentina”, e completou no subtítulo: “Argentina dá novo calote”. O nome abutre não é usado por todos os veículos. Alguns destacam até que a Argentina “insiste” em chamar os fundos hedge pelo título sugestivo. Mas foi com o nome abutre também que políticos americanos apresentaram uma lei ao Congresso, em 2008, justamente para impedir a atuação desses investidores, que compram dívidas de países em dificuldades quando elas não estão valendo nada para usar os tribunais como meio de auferir grandes lucros mais tarde.

Nos Estados Unidos, a lei não passou. Mas a Grã-Bretanha adotou legislação, em 2010, para impedir este tipo de investimento. O objetivo da lei, como deixou bem claro o jornal “The Guardian” na época em que ela foi aprovada, é impedir que o sistema jurídico britânico “seja usado por empresas financeiras internacionais para extrair pagamentos de dívidas de países em dificuldades. Esses chamados fundos abutre compram dívida de países pobres, em geral com descontos enormes, porque o país se tornou inadimplente”. Daí a corrida a Nova York, coração do sistema financeiro e paraíso dessa indústria. Cidade onde esse verdadeiro clube de privilegiados dita as regras e o ritmo de vida.

O governo da Argentina negocia há mais de dez anos com um grupo de fundos abutre, liderado pelo Elliott Management Corp. Juntos, têm apenas 1% da dívida externa do país: 93% dos credores fecharam acordos em 2005 e 2010 para reduzir o valor de face dos papéis. Aceitaram cortar, e muito, o valor total da dívida do país. Especializados em pressionar para conseguir algo próximo do valor original, esses fundos encontraram, na Argentina, um adversário à altura. Eles conseguiram arrancar lucros fabulosos do governo peruano e de países africanos. Mas a determinação do governo Kirchner surpreendeu até mesmo os mais experientes operadores do mercado financeiro americano.

O “New York Times” fez até um perfil do Ministro da Economia Axel Kicillof. Destacou as costeletas típicas de políticos argentinos do passado e descreveu Kicillof como um volátil e jovem ministro. Kicillof tem 43 anos e, segundo o Times, aversão a terno e gravata. O jornal também diz que o ministro se tornou quase um ídolo pop que ainda resiste a se cercar de seguranças e sai de férias com a família como qualquer cidadão comum.

Ao contrário de tantos outros ministros de finanças ou de economia da América Latina, Kicillof se formou na Universidade de Buenos Aires, onde fez mestrado, doutorado e foi professor. Não veio buscar nos Estados Unidos a receita neoliberal da escola de Chicago. Como diz o Times, ele usa conceitos marxistas para interpretar o trabalho do economista britânico John Maynard Keynes. Mas foi Kicillof quem começou o processo de reaproximação entre a Argentina e o mercado financeiro internacional. Primeiro, abriu negociações para chegar a algum tipo de compensação pela estatização da empresa de petróleo do país. Fechou acordo com o Clube de Paris e pagou cinco empresas que cobraram US$ 650 milhões do país, através do Banco Mundial. Para responder as críticas do FMI a respeito das estatísticas econômicas da Argentina, ele vai divulgar este mês uma revisão dos dados sobre a inflação.

Mas com os fundos abutre, até o momento, não existe acordo possível. Na última quinta-feira, enquanto Kicillof negociava diretamente com os fundos, um batalhão de jornalistas aguardava diante da entrada do edifício onde acontecia a reunião. Um senhor engravatado puxou conversa. Funcionário de um fundo hedge, ele garantiu: “Não tem como, eles terão que fechar um acordo”. Crítico dos fundos abutre, ele disse que o mercado financeiro tem uma associação internacional dos chamados credit swaps. E um comitê dessa organização declara, oficialmente, se um país entrou ou não em moratória. Qual é a importância dessa decisão? Quando ela é anunciada, aciona-se o gatilho que faz valer os tais credit default swaps, CDS para os íntimos. Papéis que funcionam como um seguro contra calotes de países soberanos. Ou seja, assim que o comitê declarou a Argentina inadimplente, quem tinha os CDSs ficou apto a receber uma bolada. E dizem, segundo este senhor, que os tais abutres investiram pesado em CDSs. Fechando o acordo, ganhariam. Não fechando, também ganham. Ou podem até ganhar agora, com o seguro, e faturar mais adiante, com um acordo.

A conversa foi mais longe. Em tom de revolta, ele destacou: o abutre líder das negociações, o Elliott Management Corp, tem assento no comitê que declara se o país está inadimplente. Qualquer um pode conferir a dica na internet. Eles estão lá, com poder de voto no comitê de determinação. O que passa aquela imagem de ação entre amigos.

Fracassada a negociação, declarada a inadimplência da Argentina, as agências de análise de risco logo rebaixaram a nota do país. “E quem ainda leva essas agências a sério?”, reagiu Kicillof lembrando a crise de 2008/2009. Nas vésperas da quebradeira geral, gerada por papéis de dívidas do mercado imobiliário, as agências cotavam esses papéis como investimentos excelentes. Antes da moratória histórica da Argentina, também diziam que estava tudo bem.

O governo Kirchner manteve a postura e a argumentação iniciais. Se desrespeitar o acordo firmado com 93% dos credores do país para satisfazer as exigências dos abutres, abrirá as portas para um desastre financeiro, para uma cobrança e revisão que desmontariam o acordo de renegociação da dívida. “Não vamos assinar um compromisso que comprometeria os interesses do povo argentino”, afirmou Kicillof. E, assim, a briga continua.

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