Por monica.lima

A tradição tem mais de seis décadas. Dwight Eisenhower tinha Heidi na Casa Branca. Os Kennedys criavam Charlie, Pushinka, Shannon e Clipper. Cada um de uma raça. Dali em diante, o Presidente dos Estados Unidos sempre teve um cachorro como companheiro fiel na residência oficial. Atribuem a Henry Truman a frase que ele nunca disse, mas que entrou para a história: "você quer ter um amigo em Washington? Compre um cachorro". Não disse mas poderia ter dito porque ela cai como uma luva.

O lançamento do livro do ex-Secretário de Defesa Leon Panetta é mais um exemplo das eternas aparentes traições que a máquina política de Washington fabrica sem parar. Essa também é uma tradição do sistema político norte-americano. Dizem que tudo começou com Raymond Moley, o jornalista alçado a conselheiro político do então ainda aspirante a candidato à presidência Franklin Roosevelt. Moley teria cunhado o termo "New Deal", o conjunto de medidas que Roosevelt adotou para tirar a economia do país do buraco pós crise de 29. Mas depois, se desencantou com o presidente e publicou o livro "After seven years", no qual analisa e critica a atuação de Roosevelt no poder.

Depois de Moley, a lista de ex-aliados que recorreram a livros como forma de ganhar dinheiro e acertar as contas com ex-chefes políticos só aumenta. Nunca se sabe exatamente qual é a intenção do autor. Mas um livro, aqui nos Estados Unidos, pode servir a vários objetivos. "Worthy Fights" (poderia ser traduzido como As lutas que valem à pena) é mais um nessa linha. Nele, Panetta diz que o presidente Barack Obama se perdeu em matéria de política externa. Segundo Panetta, Obama é inteligente, capaz mas indeciso. Gosta das análises e discussões mas não tem a paixão necessária para liderar o país. Não são críticas superficiais. Se forem levadas a sério, são demolidoras. Simplesmente condenam Obama ao pé de página da história.

Leon Panetta estreou na política como assessor de um senador republicano da Califórnia, trabalhou no governo Nixon e teve carteirinha do partido republicano até decidir ele mesmo se candidatar a deputado. Aí, se juntou aos democratas. Burocrata de carreira, ele fez história na Câmara. Chegou a Presidente do Comitê de Orçamento, onde defendeu a redução da verba milionária investida nas forças armadas.

Curiosamente, foi este o ponto principal de atrito com Obama. Quando o Congresso ameaçou fechar o governo porque não queria aumentar o teto de endividamento do país, os políticos acabaram com o impasse criando outro para o futuro. Formaram uma comissão com três democratas e três republicanos que deveria fechar um acordo em torno da redução do orçamento da união. Caso não se entendessem, haveria cortes automáticos no orçamento do Pentágono. Quando o acordo não saiu, como era de se esperar, e vieram os cortes, Panetta saiu em campanha para defender o maior orçamento militar da história do país. Essa é a marca registrada da carreira do político-burocrata-agora escritor. Defender com unhas e dentes os interesses do grupo que representa no momento. Empossado Secretário de Defesa, ele passou a defender o ponto de vista dos militares com todas as forças, quando deveria ser a ponte entre a turma de uniforme e o presidente.

Nas entrevistas de lançamento do livro, Leon Panetta ainda afirmou que publicou as críticas em livro para ajudar Obama. Para acordar o Presidente e fazer com que ele reaja a tempo de garantir, nos próximos dois anos, um lugar ao sol nos livros de história. Mas em Washington já se sussurra algo bem diferente. Ele estaria atirando em Obama como forma de promover a futura e muito provável candidatura de Hillary Clinton a presidente. Aliado de longa data do casal Clinton, ele estaria usando o livro para descolar Hillary do que vê como falhas do governo Obama. Pode ser. Porém, é mais provável que ele esteja tentando desvincular a própria história de uma administração que, agora, vê como pouco merecedora de elogios no futuro.

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