Não há compaixão na política

O governo de Jokowi atritou-se não apenas com o Brasil e Holanda, mas também com a Austrália e o Reino Unido, que têm cidadãos na fila do corredor da morte por tráfico de drogas

Por diana.dantas

Joko Widodo completou, no fim de janeiro, 100 dias como presidente da Indonésia, um dos grandes emergentes da Ásia e país com maioria islâmica mais populoso do mundo. Ele derrotou nas urnas o ex-comandante das Forças Especiais, Prabowo Subianto, após uma campanha em que ambos prometeram medidas moralizantes, como combate à corrupção, ao tráfico de drogas, além da melhoria do sistema de Educação, e a promoção de um salto do crescimento econômico, atualmente de cerca de 5%, para 7%. Jokowi, como é apelidado, não teve muito tempo para comemorar: sua popularidade está em baixa. E para impulsioná-la, ele, como qualquer outro político, está disposto a quase tudo. É neste contexto que se insere a sua negativa de perdoar qualquer um dos 64 estrangeiros que cometeram o crime de tráfico de drogas e que estão no corredor da morte deste ano.

A inflexibilidade de Jokowi, de 52 anos, coloca o país em rota de colisão diplomática com vários outros, mas analistas políticos da Indonésia têm advertido o presidente sobre o perigo de sua perda de popularidade. Escândalos de corrupção têm prejudicado sua imagem porque os indonésios não enxergam o empenho prometido durante a campanha eleitoral para lutar contra esse mal.

O governo de Jokowi atritou-se não apenas com o Brasil e Holanda, mas também com a Austrália e o Reino Unido. O brasileiro Marco Archer, 53 anos, foi executado por tráfico de drogas no dia 18 de janeiro, sob protestos da presidenta Dilma Rousseff. E há mais um brasileiro no corredor da morte acusado do mesmo crime: Rodrigo Gularte, 42 anos, que sofre de esquizofrenia. Por isso a diplomacia brasileira tem tentado convencer o governo indonésio a transferir Gularte para um hospital psiquiátrico.

Entre os estrangeiros da primeira leva de execuções estava ainda um holandês. Assim como o governo brasileiro, a Holanda, que colonizou a Indonésia, protestou e chamou o seu embaixador em Jacarta para consultas, um sinal de abalo nas relações diplomáticas. A mídia indonésia afirma que o segundo pelotão de fuzilamento está marcado para o final deste mês. “A cada dia, 50 pessoas morrem na Indonésia por causa dos narcóticos”, alega Jokowi. Em um ano, são 18 mil pessoas. “Não há acordo”, diz ele.

Terceira maior democracia do mundo, após a Índia e os Estados Unidos, e quarta nação mais populosa do planeta, com 250 milhões de habitantes, a Indonésia livrou-se do governo autoritário do general Suharto em 1998 e há 10 anos realizou as suas primeiras eleições presidenciais diretas. O discurso nacionalista e anti-ocidental dominou os debates da última campanha, com um candidato acusando o outro de querer entregar o país para exploradores estrangeiros de recursos naturais.
Com pai carpinteiro, ele nasceu em uma família de classe média e foi vendedor de móveis até 2005, quando iniciou os seus primeiros passos na política: foi eleito prefeito da cidade de Surakarta, quando começou a se notabilizar como uma caçador de corruptos. Ao contrário de seu oponente na campanha, Jokowi é um “outsider” da política, não pertence à elite, e não tem conexões militares.Por isso mesmo os analistas políticos do país têm dito que ele só pode contar mesmo com o apoio do povo. Como presidente ele costuma nutrir o estilo populista, visitando bairros pobres de surpresa. Essas visitas-relâmpago feitas uma vez por semana, são chamadas de “blusukan” e se transformaram em sua marca registrada.

Mas mesmo assim, Jokowi já teve dias melhores em sua popularidade. Pesquisas de opinião revelaram recentemente a queda de aprovação: em uma delas, 74% dos indonésios já se dizem descontentes com o governo Jokowi.Um dos fatores que irritou os indonésios foi a nomeação de um suspeito de corrupção para ser o chefe de polícia. No início deste mês, Christiane Amanpour, âncora da televisão americana “CNN” foi a Jacarta para fazer uma matéria com o presidente da Indonésia, caminhando pelas ruas e andando de bicicleta com ele. Mesmo com a queda nas pesquisas, muitos pediam para fazer “selfies” com Jokowi e o cumprimentavam.

“A Indonésia é um grande país. Temos 17 mil ilhas e não é fácil gerenciá-las”, disse ele a Amanpour, lembrando que atuam no país violentos movimentos separatistas. Ao explicar a estratégia do “blusukan”, Jokowi diz que a ideia é checar diretamente com o povão o seu programa de governo. E se há um item em que os indonésios são rígidos é no combate aos traficantes.
Sua inflexibilidade com a violência também está ligada à necessidade de reprimir eventuais grupos islâmicos radicais. Em 2002,um grupo afiliado à al-Qaeda promoveu um ataque em Bali que matou 202 pessoas. Cerca de 300 indonésios já se uniram às fileiras do Estado Islâmico (EI) na Síria, segundo Jokowi.

Seu gosto musical é surpreendente: é fã de carteirinha de bandas heavy metal como Led Zeppelin e Metallica. Por isso mesmo, Barney Greenway, vocalista do Napalm Death, grupo de rock pesado da Inglaterra que também está na lista dos preferidos do presidente da Indonésia, tentou amolecer o coração de Jokowi, apelando para que ele salve do fuzilamento Lindsay Sandiford, uma avó britânica de 57 anos, presa em 2012 carregando cinco quilos de cocaína. O roqueiro também empenhou seu prestígio junto a Jokowi para tentar salvar outros dois fãs de sua banda: os australianos Andrew Chan e Myuran Sukumaran, presos por tráfico de heroína.Mas a sobrevivência política de Jokowi parece ser mais forte do que seu amor pela música.

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