O príncipe e o sapo

Quarenta anos após a queda de Saigon, o presidente Obama procurou reconfigurar uma relação historicamente difícil com o Vietnã em uma parceria estratégica contra a China

Por diana.dantas

A ascensão da China tornou a segunda economia do mundo mais musculosa militarmente. Pequim ampliou seu alcance naval e melhorou suas capacidades aéreas. Mais forte e mais ousada, a China passou a fazer incisivas reinvindicações territoriais e marítimas, preocupando os países de seu entorno, mas também o principal rival de Pequim: os Estados Unidos. Nada como uma rivalidade com a China para transformar sapo em príncipe. No caso, o sapo, para os americanos, era o Vietnã. O país evoca um dos maiores traumas da história dos EUA, com a humilhante derrota na guerra que se estendeu por duas décadas. Mas Obama acaba de transformar o Vietnã em príncipe para, entre outros objetivos, enfrentar o sapão chinês.

Curiosamente para os vietnamitas o que chamamos de Guerra do Vietnã é Guerra Americana. Não se sabe ao certo quantos vietnamitas morreram. Os números variam entre 1,5 milhão a 4 milhões. Cerca de 58 mil soldados americanos não voltaram para casa. Apesar da superioridade militar e econômica dos Estados Unidos, seus soldados foram obrigados a se retirar em 1973. Dois anos depois, o Vietnã foi reunificado sob o governo socialista.

Quarenta anos após a queda de Saigon, o presidente Obama procurou reconfigurar uma relação historicamente difícil com o Vietnã em uma parceria estratégica contra a China.

No última terça-feira(7), Obama abriu as portas da Casa Branca para Nguyen Phu Trong, o número 1 do Partido Comunista Vietnamita, em um encontro simbólico e histórico, duas décadas após os dois países terem normalizada as suas relações oficialmente.

Chamou a atenção de muitos — e Obama foi criticado por isso — o fato de ele ter recebido no Salão Oval, geralmente reservado pata chefes de Estado, o líder comunista que não tem um cargo oficial no governo, apesar de ser o homem forte de Hanói. Em retribuição por ter sido recebido com pompa em Washington, o líder comunista disse esperar que o presidente norte-americano aceite um convite para visitar o Vietnã.

Os Estados Unidos procuraram a eminência parda vietnamita também para amarrar a negociação da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), o acordo de cooperação econômica e de segurança com os países da Ásia-Pacífico que engloba 12 países, desde o Chile até o Japão.

Na verdade, o governo Obama procurou se aproveitar de uma antiga rivalidade entre o Vietnã e a China. A aproximação não nasceu apenas do interesse americano na sua política de contrabalançar o peso chinês na região. Os vietnamitas já haviam sinalizado interesse em aprofundar seus laços econômicos com os Estados Unidos. Washington é hoje o sétimo maior investidor no Vietnã, bem abaixo de onde a maior potência do mundo deveria estar. Mas além disso, Hanói está de olho na relação militar.

A preocupação é imensa com o expansionismo de Pequim no Mar do Sul da China, disputado por vários países do entorno. As ações chinesas na região andaram fazendo notícias ultimamente devido à construção, por parte de Pequim, de infraestrutura, incluindo uma pista de pouso, nas Ilhas Spratly, que os chineses chamam de Nansha, um arquipélago desabitado. Os americanos protestaram, mas não têm muito o que fazer.

O governo chinês, que vem reforçando a sua capacidade militar a cada ano, diz ter direito a 90% do Mar do Sul da China, com base em um mapa de 1947. A região, rica em reservas de gás e petróleo, é a segunda rota comercial marítima mais movimentada do mundo.

Os americanos e os países da região temem que a expansão possa resultar no controle do Estreito de Malaca por parte da China. Este Estreito é o caminho mais curto entre os consumidores da Ásia e os produtores de petróleo do Golfo Pérsico e da África.

Alguns analistas apostam que a viagem de Trong aos Estados Unidos significa que os reformistas estão em ascensão em Hanói, deixando os conservadores em segundo plano. Seria também um sinal de que o Vietnã atingiu um limite no seu engajamento com Pequim e por isso mesmo procura agora aumentar suas opções aproximando-se de Washington.

No entanto, segundo a mídia vietnamita, Trong e o presidente chinês Xi Jinping — que se encontraram em abril, durante visita do líder comunista do Vietnã a Pequim — concordaram que o comportamento dos dois países devido à disputa do Mar do Sul da China acabou prejudicando a atmosfera de confiança mútua. Por isso mesmo, ambos deveriam abaixar o tom no futuro.

Mas há muitos que apostam hoje que Vietnã e Estados Unidos confiam mais um no outro _ apesar do histórico sangrento _ do que ambos em Pequim. No entanto, quando Trong visitou a China, foi recebido com tapete vermelho. Como aconteceu em Washington agora, o comunista vietnamita foi mais bajulado na China do que normalmente deveria ser um líder partidário.

O revolucionário e estadista vietnamita Ho Chi Minh (1890-1969) disse certa vez que “se os americanos querem fazer a guerra por vinte anos, então nós a faremos por vinte anos”. Mas, continuou ele, “se eles querem fazer a paz, nós faremos a paz e os convidaremos para um chá à tarde”. Pena que isso tenha acontecido apenas décadas depois.

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