Uso da bicicleta como transporte gera novos negócios

Estacionamentos para bikes com local para chuveirada se tornam empreendimentos em São Paulo e no Rio de Janeiro

Por monica.lima

Quando se mudou para o Rio de Janeiro, o engenheiro Abelardo Araujo Lima, de 54 anos, queria continuar a utilizar a bicicleta como meio de transporte, hábito que mantinha em Macaé, município de 230 mil habitantes do norte fluminense, onde morava. Não eram a carência de ciclovias ou a baixa consciência dos motoristas no trânsito que o impediam, e sim razões mais simples. O suor gerado pelo trajeto de 15 km entre sua casa e o trabalho não permitiria que ele chegasse apresentável a uma reunião. Faltava, também, um lugar seguro para guardar a bicicleta. Ao ouvir as reclamações do irmão, Frederico, de 49 anos, não titubeou: “Por que a gente não abre um lugar onde você tenha tudo isso?”.

Assim surgiu o Bike Rio Café, que oferece o serviço Park and Shower (estacionamento e banho) há dois meses, no Centro do Rio. “Passamos boa parte da nossa infância na ilha de Paquetá, onde só se anda de bicicleta. Crescemos com essa cultura, e a bicicleta sempre foi uma paixão”, explica Frederico, que contou com a imediata aprovação de Abelardo para o projeto. O irmão mais novo, Carlos (49), que vive em Barcelona, também se interessou e entrou no negócio. “Fui pesquisar se já existia algo parecido e encontrei o Aro 27, em São Paulo. Vi uma entrevista em que o dono do espaço falava da importância do café para o sucesso inicial do projeto. Foi uma dica importante para nós, pois não tínhamos pensado em servir almoço”, comenta.

Os irmãos admitem a alta expectativa quanto ao sucesso imediato do negócio, que recebeu aporte de R$ 200 mil. Mas, passada a euforia inicial, analisam as dificuldades de ingressar em um mercado pouco explorado. “Ao contrário de outros mercados, nossa maior dificuldade não é a concorrência, mas a falta de uma cultura da bicicleta. Pela falta de instrução, existe uma ideia de que pedalar na cidade é perigoso”, argumenta Abelardo. “ Nossa ideia é que o espaço seja um ponto de encontro para quem pedala. Na internet, estimulamos as pessoas a pedalarem em grupo, para que tenham maior segurança e possam ser ajudadas em caso de acidente”, diz.

Citado por Frederico, o Aro 27 já funciona há dois anos em Pinheiros e foi o primeiro estabelecimento do tipo no país. Ambos os espaços oferecem os serviços de banho, oficina, estacionamento, venda de peças e café-restaurante. O Bike Rio Café leva vantagem no tamanho do estacionamento, que tem capacidade para 80 bicicletas. Já o estabelecimento paulista comporta 30 bikes, mas possui maior variedade gastronômica. Além de introduzir uma ideia inovadora no mercado brasileiro, o Aro 27 também representou uma mudança de 180º na vida de Fabio Samori, biólogo de 41 anos dono do espaço. Após uma empreitada frustrada no mercado de cursos preparatórios, viajou para acompanhar a esposa no doutorado em Edinburgo, na Escócia, onde morou por três anos.

“Lá, pude experimentar a bicicleta em sua plenitude, inserida no contexto da malha urbana, e pensei: 'isso tem que acontecer na minha cidade'. Não sabia exatamente como, fui pesquisando e achei que o bike café ia ser legal. Pedalar sempre foi uma paixão minha, e essa experiência me fez ver que sou uma pessoa muito passional para trabalhar com algo que não me encante”, conta. Mesmo antes de começar a expansão das ciclovias em São Paulo, o empresário já observava um aumento do número de ciclistas, mas acredita que as ciclovias impulsionaram os desencorajados: “Temos sentido o aumento de vendas de bicicletas, equipamentos e acessórios. E até mesmo algo que antes era mais difícil: pessoas vendendo o carro para trocar pela bicicleta, por ter uma ciclovia passando na frente da casa dela e/ou do trabalho. A infraestrutura precisa existir para que o ciclista venha”.

Os irmãos Araujo Lima querem, agora, investir nos planos corporativos, em parceria com empresas localizadas próximo ao estabelecimento, para impulsionar o negócio. Embora já existam planos de expansão dentro do Rio de Janeiro e até mesmo para municípios de outros estados, o objetivo inicial é a consolidação do negócio. E Abelardo destaca que não se preocupa se a iniciativa começar a ser copiada no Rio: “Vamos gostar se isso acontecer! Somos cicloativistas, e nossa maior vontade é que a cultura da bicicleta se espalhe”.

Samori diz ter se inspirado em modelos europeus e norte-americanos para criar o Aro 27. Em dois anos, o perfil do faturamento mudou. “No começo, de 90% a 95% de nossa arrecadação vinha do café. Hoje, está em torno de 60% a 65%”, conta. Valendo-se da localização em uma região comercial, a parte gastronômica do negócio foi fundamental para sua alavancagem. “Sempre digo que ao abrirmos a porta, literalmente, entrou gente. Conseguimos nos destacar pelo atendimento diferenciado dos restaurantes próximos, a maioria a quilo”, avalia.

SERVIÇO

Bike Rio Café- As diárias do estacionamento variam de R$ 4 a R$ 13 e, com banho, de R$ 6 a 17, de acordo com o tempo de permanência. Já o plano mensal varia de R$ 100 (sem banho) a R$170 (com banho e toalha).

Aro 27 - A diária do estacionamento custa R$ 9,90. Com kit banho e toalha, sai a R$ 18,90. Não há plano mensal, mas um sistema de pontos que é revertido em descontos nos serviços da loja.

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