O que fazer com o resto do ano?

Uma amiga jornalista desempregada desabafa: “fim da Copa, agora vem as eleições e o ano acabou

Por bruno.dutra

Nenhum empresário vai investir neste momento, está todo mundo esperando para ver o que vai acontecer na política. Só me resta tentar arrumar um emprego temporário nas eleições ou raspar o que tenho na poupança e investir num curso de inglês para melhorar a empregabilidade”. Ouço sua análise e penso que ela é uma personagem perfeita do quadro econômico brasileiro e sua situação é fruto de dois modelos que atrasam muito a vida neste país. Um é o modelo eleitoral, pois o Brasil vive sempre em função de alguma eleição. E o outro é o do crescimento baseado no consumo, que pressiona a economia de curto prazo e impede, ou atrapalha muito, o planejamento de longo prazo.

É muito difícil acreditar nas promessas de mudanças e de inovação que os políticos fazem neste momento das eleições. Acredito que as pesquisas já tenham mostrado aos candidatos o que os brasileiros estão dizendo aos quatro ventos há muito tempo. Queremos boa educação para todos os níveis, saúde de qualidade, segurança e serviços públicos eficientes. O problema é que prometem mudanças, mas a gente sabe que eles querem mesmo é manter as coisas do jeito que elas estão, pois todos estão acostumados com o modus operandi e já sabem como ganhar dinheiro nesta estrutura. Os próprios nomes dos candidatos denunciam a continuidade do modelo. São as gerações mais novas dos mesmos políticos de sempre, feudos antigos, quase uma dinastia.

Muito do desânimo do brasileiro vem daí. Escolher um político hoje é como escolher uma empresa de telefonia ou um banco ou um plano de saúde. Por mais que se pesquise, não há nenhuma empresa que reúna qualidades suficientes para que seja uma escolha clara. Na política, todos os candidatos são ruins. É um pelo outro e não quero troco. Como nada muda na base, não temos esperança que mude no resto. Não dá nem para confiar nos órgãos que foram criados para fiscalizar, para dar transparência na gestão do bem público. Todos os dias vemos denúncias contra dirigentes destes órgãos.

Mas, o que fazer? não votar em nenhum político porque não dá para confiar no que eles dizem? Pode ser a saída mais fácil, mas não é a mais inteligente, pois vamos continuar morando neste país. Portanto, é melhor tentarmos influenciar na forma como ele é administrado do que ficarmos de braços cruzados, e morrendo de raiva o tempo todo. Olhando para trás a gente vê que tem que manter a esperança, mas não dá para dar um cheque em branco. Nenhum partido, e nenhum político brasileiro, merece confiança irrestrita. Eles sempre ganham mais do que entregam.

A saída é votar e cobrar. Que nem quando a gente contrata um plano de telefonia, um pacote de serviços bancários, um plano de saúde. A gente avalia o que nos é oferecido e quanto vai nos custar e resolvemos o que podemos pagar e o que melhor se coaduna com a nossa necessidade no momento e no futuro. Para garantir que o contrato vai ser cumprido, é aconselhável guardar os comprovantes do que foi anunciado, os folders, imprimir as propagandas na internet, anotar o protocolo da gravação da contratação para podermos pedir a prova, caso haja alguma cobrança indevida. Enfim, o consumidor atento sabe que precisa se resguardar porque o nível de reclamações pelo não cumprimento da oferta pelos fornecedores é muito grande, como comprovam os órgãos de defesa do consumidor.

Sei que é até difícil fazer esta análise com os políticos, pois eles prometem coisas muito parecidas. Sugiro que guardemos todas as propagandas impressas e reportagens que tragam as propostas dos políticos e que a gente cobre depois, reclamando diuturnamente, como fazemos quando nos sentimos enganados nas relações de consumo.

Dá muito trabalho agir assim. Por isso, muitas vezes, mesmo irritados com alguma cobrança que consideramos indevida, acabamos deixando para lá, porque achamos que a aporrinhação de reclamar não vale a pena. As empresas que só querem vender, e os políticos, contam com essa nossa inatividade, com a falta de informação clara, com a nossa falta de tempo.

Mas não é mais possível colocarmos nossa felicidade nas mãos de terceiros. Estamos num tempo em que precisamos reinventar nossas vidas, buscar mais qualidade de vida, mais tempo para a família, mais cuidado com a nossa saúde. Precisamos cuidar mais do meio ambiente, da natureza. Precisamos fazer poupança para projetos de longo prazo.

Está na hora de inaugurarmos um novo contrato com empresas e com políticos. Eles precisam nos ouvir mais e nos entregar o que prometem. Temos que sair do confronto e construir relações que garantam lucros para as empresas, mas que a propaganda enganosa não seja a única via de aumento de consumo. E que os políticos nos entreguem resultados claros em melhorias na educação, saúde e transportes, no mínimo! Temos que avançar para o ganha-ganha, como nas negociações de conciliação, onde se busca a satisfação de cada parte, mesmo que através de saídas pouco convencionais.

Mudando nossa postura, as pessoas em torno mudam as delas. Se queremos mudanças, vamos começar por nós mesmos. Não vamos sujar as ruas, praias, praças. Vamos cuidar do nosso lixo, separando-o para a reciclagem, vamos propor colocar energia solar nos nossos prédios, vamos economizar energia e água, ser consumidores atentos, agir com ética, pensando mais na comunidade do que no nosso benefício. Pensar em como levar adiante estas mudanças é uma boa ocupação para o resto deste ano.

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