Se cair bomba é só correr para o Edifício Moema

Foi por medo de avião que, na época da guerra, prédio niteroiense ganhou abrigo antiaéreo

Por paulo.gomes

Niterói - A história já foi contada como lenda urbana da cidade, mas a existência de um abrigo antiaéreo no subsolo do bloco A, do Edifício Moema, em Icaraí, tem testemunha da sua construção. “Foi na época da Guerra”, atesta o aposentado Aurelino Fernandes Machado, de 87 anos, que viu o prédio de 11 andares e 66 apartamentos ser erguido na Rua Coronel Moreira Cesar, n° 469. Na época, ele morava próximo, na Rua Joaquim Távora, mas acabou se mudando para o Moema de onde é um dos moradores mais antigos.

O condomínio possui ainda os blocos B e C. Todos são independentes, com 44 apartamentos cada. Foram construídos a partir de 1946. Para Aurelino, o afundamento de navios brasileiros, que levou o país à Segunda Guerra Mundial, pode ser o motivo de se buscar a proteção antiaérea, que nunca foi necessária. Bem humorado, ele só não sabe explicar como as pessoas sairiam do bunker depois de um hipotético bombardeio, uma vez que os escombros fechariam os acessos.

Dois dos moradores mais antigos do prédio%3A Aurelino Fernandes Machado (Esq.) e Irapuan Gurgel do AmaralAlexandre Vieira / Agência O Dia

A obra do Moema foi iniciada em 1939 pela Caixa Previdenciária dos Funcionários do Banco do Brasil. Os empregados do banco foram os primeiros compradores dos amplos e bem construídos apartamentos. “Botar um prego nessas paredes é um desacerto”, diz Aurelino.

A construção atravessou todo o período da guerra, que durou de 1939 a 1945. Em 1942, o Decreto 4.098 estabelecia medidas de defesa passiva antiaérea, e entre elas estava a exigência de abrigos para os prédios que tivessem mais de cinco pavimentos ou área coberta superior a 1.200 metros quadrados.

Embora a obra do Moema já estivesse em execução e isenta da obrigação, o abrigo foi feito. “Acabou que o prédio ficou sem garagem e não tem como fazer obra”, diz o aposentado Hélio Jorge Abicalil, de 73 anos, há 44 morador do Moema e síndico por várias gestões do bloco A. Os outros dois blocos foram construídos com vagas para automóveis.

A área do abrigo hoje tem cozinha e banheiro para os empregados, a casa de força do prédio e um bicicletário. O pé direito é baixo e o espaço possui muitas colunas de sustentação. Nos classificados dos jornais do Rio nesse período, eram comuns anúncios de venda e aluguel de apartamentos que descreviam a quantidade de quartos, a existência de dependência de empregada, elevador, e também de abrigo antiaéreo nos edifícios, como se fora uma comodidade a mais.

Endereço conhecido da cidade, o Moema abrigou famílias grandes, como relata o aposentado Irapuan Gurgel do Amaral, de 75 anos, 54 de Moema. Ele lembra com saudades dos anos 1960, quando era grande o número de crianças e jovens. Os moradores chegaram a manter um clube, em uma casa da Rua Joaquim Távora, onde eram realizadas festas e havia até sessões de cinema.

Em 1994 os moradores do bloco A passaram por um susto que virou notícia, quando uma das pilastras exteriores do prédio sofreu um abalo. “Nada que comprometesse o prédio, elas são acabamentos e não tem a ver com a estrutura do edifício" explicou Abicalil.

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