Acima, Rafael com a avó Emília e o tio-avô Emídio; abaixo, Terezina e Vincenzo, seus pais - Álbum de família
Acima, Rafael com a avó Emília e o tio-avô Emídio; abaixo, Terezina e Vincenzo, seus paisÁlbum de família
Por Irma Lasmar
Niterói - Enquanto várias pessoas ainda resistem a acreditar na periculosidade do novo coronavírus e a cumprir as normas de prevenção, muitas outras padecem com os graves sintomas ou com a morte de seus familiares pela doença. Com rápida e invisível disseminação, a Covid-19 pode acometer diversos membros da mesma família e, por quase um milagre, não fazer nenhuma vítima fatal. Foi o que aconteceu com Rafael Maiolino: no início da pandemia no Brasil, o músico niteroiense de 33 anos retornou para Niterói de uma viagem de trabalho a uma cidade turística da Bahia e, ainda sem sinais de contaminação, transmitiu o vírus a quatro outros parentes, entre 58 e 87 anos. Após quase dois meses de convalescença, todos se curaram. Todos moram em Itaipu.
Rafael relembra que fez o show em Itacaré em 7 de março e voltou no dia seguinte para Niterói; no dia 10 teve enxaqueca, febre alta e dores no corpo. No dia 11 foi até a emergência de um hospital particular da cidade, cujo corpo clínico o liberou após exames de sangue e raio-X do rosto e do tórax, concluindo a princípio se tratar de gripe, para a qual foi medicado. Contudo, naquela noite, soube do adoecimento de outros convidados do mesmo evento em que se apresentou. Informando o fato ao hospital, foi orientado a retornar à unidade para novos exames. Enquanto os resultados não saíam, foi liberado para cumprir o isolamento domiciliar, já que mora sozinho, e manter o uso de antitérmico e antigripal. Dia 14, testou positivo – data em que seu pai, de 62 anos, começou a sentir os sintomas.
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"Quando voltei de viagem, visitei meus pais nos três dias antes de adoecer. Um dia após meu diagnóstico, meu pai foi internado, isolado e testado. E no dia seguinte foi a vez da minha mãe se sentir mal, mas ela não conseguiu fazer o teste porque o coronavírus já havia se alastrado na cidade e centenas de pessoas lotaram as emergências com suspeita da doença, fazendo com que as unidades de saúde selecionassem apenas pacientes em estado grave para a testagem. Uma semana depois e ainda sem o resultado do exame, meu pai voltou a sentir taquicardia e falta de ar. Ficou internado por seis dias, sendo dois deles em UTI após uma convulsão. Ainda apresentou mau funcionamento dos rins”, conta o músico.
Não bastassem pais e filho nessa situação, também o tio-avô de Rafael – que mora com o casal – ficou fortemente doente, porém com outro quadro: Emídio Cândia, de 84 anos, apresentou tosse e confusão mental além da febre, o que seu médico particular, ao ser consultado, atribuiu à pneumonia que o paciente já sofria. A mãe do músico, de 58 anos, que até então não havia feito exames, pagou um laboratório que faz testes rápidos em domicílio (IgG e IgM), que diagnosticaram a existência da produção de anticorpos ao coronavírus, presumindo assim o contato do organismo de todos os membros da família com o vírus, inclusive a matriarca, Emília Cândia Maiolino, de 87 anos, também residente na casa, que curiosamente não se queixou até hoje de nenhuma dor.
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“Foram doze dias de muita dor, onze de febre, e nesse período um sintoma diferente a cada dia, incluindo diarreia e dor de garganta. Graças a Deus, agora estamos nos recuperando bem”, revela a mãe, a funcionária pública Maria Terezina Maiolino. “Uma experiência terrível e inigualável. A vida passa inteira na cabeça como se fosse um filme. E vêm as lembranças e a preocupação com mãe, esposa, filhos. Assustador”, desabafa o pai, o autônomo Vincenzo Bloise.
Há estudos em andamento que rastreiam se o vírus migra para outras partes do corpo além de pulmão e coração, como o cérebro, o que justificaria a confusão mental do tio-avô. O pai de Rafael tem pressão alta e a mãe está no sobrepeso, enquanto a avó tem pressão baixa. Eles não fumam nem bebem.
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“É impressionante a velocidade desso vírus. E a recuperação é lenta. Os sintomas demoram a passar definitivamente. Ainda me sinto ofegante executando tarefas domésticas. Atualmente faço fisioterapia pulmonar em casa e alguns exercícios por orientação médica. Meus pais ainda sentem algumas dores mesmo curados. A Fundação Municipal de Saúde, que me monitorava, telefonou para me dar alta médica no dia 26 de abril, mas preferi me manter em isolamento por não haverem ainda conclusões concretas sobre a possibilidade de reinfecção em pacientes recuperados. Desde 11 de março só saí duas vezes de casa. Peço sempre o serviço de entrega em domicílio, assim como meus pais”, relata o músico.
Ele, que já abordou a história em suas redes sociais, visando à conscientização de um número maior de pessoas sobre a doença, confessa a decepção com amigos que parecem não se sensibilizar com o ocorrido e se arriscam ao desobedecer a quarentena.
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“Os casos em minha família foram cinco dos primeiros na cidade, então os hospitais ainda não estavam superlotados como neste momento. Tivemos sorte por não termos evoluído a óbito. Tem que proibir mesmo as pessoas de circularem nas ruas, principalmente sem máscaras. Fico extremamente chateado com a irresponsabilidade de amigos meus que continuam passeando, fazendo exercícios em local público, visitando outras pessoas. Há pessoas que ainda não entenderam a gravidade da situação. Por isso, deixo meu recado: leiam as notícias e respeitem os especialistas. A doença é real, grave, com recuperação lenta. Não é uma gripezinha”, dispara Rafael Maiolino.