A diretora do Ceja Niterói, Verônica Dias: 40 anos de magistério Divulgação
Por MARCELO BERTOLDO
Publicado 13/05/2020 00:00

Após 30 anos de trabalho no Colégio São Vicente de Paulo, em Icaraí, Maria de Fátima, de 57 anos, não ficou muito tempo longe da escola. Aposentada, a ex-auxiliar de serviços gerais trocou o material de limpeza pelo didático no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) de Niterói, o antigo supletivo. Com a suspensão das aulas presenciais por conta da pandemia do coronavírus, a Fundação Cecierj, além de assistência digital para os atuais alunos, reabriu o processo de matrícula para novos interessados. Tudo, agora, 100% online.

Em Niterói, a plataforma digital já era uma realidade antes do decreto do governador Wilson Witzel determinar o isolamento social no Estado do Rio. Uma vez matriculado, o aluno terá acesso a todo o conteúdo programático e aos professores por meio da plataforma digital de ensino.

"O Ceja Niterói já trabalhava com a plataforma digital antes da pandemia. No dia da matrícula, o aluno recebe uma senha para acessar o Ceja Virtual. Na plataforma, agendam aulas, tiram dúvidas e fazem exercícios com os professores", explica Verônica Dias, diretora do Ceja Niterói.

Maria de Fátima é uma das 3,2 mil matrículas na unidade de Niterói. Natural de Itaperuna, ela parou de estudar aos 14 anos. A necessidade de trabalhar falou mais alto. Por décadas, o sonho de voltar às salas de aula ficou adormecido. Sem arrependimento, ela se orgulha por ter ajudado a família, em especial o filho, Sérgio Rodrigo, de 27 anos, que cursa gestão empresarial.

"Fácil não é, mas é preciso fazer um esforço. Estou no Ensino Fundamental, e falta uma prova (de Matemática) para concluir e iniciar em breve o Ensino Médio. É uma satisfação muito grande cada conquista", disse Maria de Fátima.

Do Ceja Niterói para a UFRJ. Foi assim com Marcos Paulo da Silva Rodrigues, de 24 anos, que iniciou o curso de pedagogia depois de concluir o último ano do Ensino Médio em sete meses. Violinista da Orquestra Cordas da Grota, projeto social musical na comunidade, ele lembra como a educação o salvou.

"Estava numa fase ruim, em depressão. No Ceja Niterói, pude me abrir com algumas pessoas, como a diretora Verônica e outros professores. Pensei em desistir, mas fui acolhido e incentivado. Ali, mais do que uma escola, encontrei pessoas de todas as idades em busca de uma vida melhor. Escolhi pedagogia porque gosto da sala de aula", diz.

Com 40 anos dedicados à educação, Verônica Dias revela que o projeto Ceja marca um capítulo especial em sua trajetória no magistério. Ela conta que histórias como a de Maria de Fátima e Marcos Paulo são fontes de inspiração, e renovam a paixão pela sala de aula.

"É muito bonito e gratificante ver os alunos se sentindo valorizados. São pessoas que passaram por alguma dificuldade na vida. E nosso trabalho é recuperar o tempo perdido, resgatar a autoestima de quem decidiu voltar a estudar depois de muito tempo, sempre respeitando as diferenças", diz.

As inscrições no Ceja Niterói devem ser feitas no site https://sca.cecierj.edu.br/scc/prealuno/preMatricula/. Em seguida, é preciso enviar CPF, RG e histórico escolar para o e-mail secretarianiteroi@cecierj.edu.br.

Mais tempo para estudar
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Em tempos de pandemia, o desafio do Ceja Niterói é manter a assiduidade dos alunos na plataforma online. Os professores, que tinham carga horária de aulas presenciais, agora estão dando suporte 100% digital devido às medidas de isolamento social. O número de acessos tem aumentado a cada semana, com uma média de 30 a 40 estudantes usando a plataforma diariamente.
"A pandemia criou uma oportunidade. Quem é obrigado a ficar em casa tem mais tempo para estudar. Muitos têm dificuldade de acesso à internet, outros não possuem computador. A falta de estrutura dificulta, mas a plataforma funciona bem em celulares. No entanto, os alunos acima dos 50 anos não têm facilidade para acessar a plataforma e ainda sentem falta da sala de aula", explica Verônica Dias, diretora do Ceja Niterói.
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É o caso de Maria de Fátima. Apesar de toda a dedicação, ela não possui computador e não tem conseguido tirar as dúvidas que surgem na apostila de Matemática. Em quarentena, ela tem estudado sozinha e lembra com orgulho da nota 8.0 da última avaliação antes da suspensão das aulas presenciais. O curso de Informática, por enquanto, está adiado.
"Tenho dificuldade em Matemática. Por isso, deixei a matéria por último e estou evoluindo, aprendendo. Não tenho computador e estou estudando somente com a apostila. Esse é o lado ruim, pois ainda não temos uma previsão para a volta das aulas na escola. Mas não vou desistir", diz Maria de Fátima, que sonha em cursar a faculdade de Gastronomia.
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