Massacre do Carandiru: Em novo júri, defesa deve desqualificar 1º julgamento

Vinte e sete policiais militares acusados pelo assassinato de 73 detentos começam a ser julgados nesta segunda-feira em SP

Por helio.almeida

São Paulo - A segunda etapa do julgamento do massacre do Carandiru começa nesta segunda-feira no Fórum Criminal da Barra Funda em São Paulo. Depois da condenação de 23 policiais militares na primeira etapa do júri, em abril deste ano, a defesa tentará absolver 27 policias (nove na ativa) acusados pela morte de 73 pessoas no terceiro pavimento do Pavilhão 9 do antigo presídio.

Desta vez, a missão da advogada Ieda Ribeiro de Souza será reverter a tendência de nova condenação. Para isso, ela terá de desqualificar o primeiro julgamento ou provar que a ação no terceiro pavimento foi muito diferente da que ocorreu no segundo, onde 13 pessoas foram assassinadas.

Entrada do Fórum onde acontece o julgamento dos policiais acusados do assassinato de detentosDivulgação

A opinião é do criminalista Marcelo Mendrone, para quem os fatos são “teoricamente os mesmos”, como deve argumentar a promotoria. “A defesa tem de demonstrar que o primeiro julgamento foi equivocado ou que as provas são diferentes em relação aos acusados. Só assim para convencer os jurados.”

Segundo o promotor do caso, Eduardo Olavo Canto, a nova condenação em bloco é garantida porque “os exames mostram o excesso criminoso”: "Temos os disparos feitos dentro das celas, há trechos do laudo dizendo, claramente, que houve tiros em rajadas.”

O criminalista não acredita que a troca do juiz poderá mudar o curso do julgamento. O antigo magistrado, José Augusto Nardy Marzagão, foi removido de comarca, e em seu lugar assumiu Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo. “Não vai trazer nenhuma diferença porque quem decide são os sete jurados. A função dele será presidir o julgamento, dar a palavra para as partes e fazer perguntas objetivas”, diz Mendrone.

O advogado também aposta na opinião “inconsciente” que o júri pode ter adquirido sobre a polícia depois que sua postura nas recentes manifestações populares foi considerada truculenta por parte da opinião pública. “Pode existir alguma influência em razão do atual momento, mas a opinião sobre a criminalidade no País é individual e imprevisível.”

Durante o julgamento, que deve levar a semana toda, serão ouvidas 11 testemunhas de acusação e seis de defesa. A reportagem marcou entrevista com a advogada dos PMs, mas ela não atendeu as chamadas no horário marcado.

O massacre

O massacre do Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. Durante uma rebelião, a Polícia Militar invadiu o local e matou 111 presos. Todos os policiais saíram ilesos. A invasão foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, que chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, mas em fevereiro de 2006 o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a decisão e o absolveu. Ubiratan acabou morto no mesmo ano, em setembro de 2006, com um tiro na barriga, em seu apartamento nos Jardins, região nobre de São Paulo.

Depois de ter sua história manchada, a casa de detenção foi desativada no começo de 2002 e demolida no final do ano. No lugar, foi construído o Parque da Juventude.

As informações são do repórter Wanderley Preite Sobrinho

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