'No pátio, eram montanhas de corpos', diz testemunha do Carandiru

Ex-presidiário afirmou que policiais atiravam nos detentos que não passassem sobre os cadáveres

Por julia.amin

São Paulo - Sobrevivente do massacre que no dia 2 de outubro de 1992 deixou 111 detentos mortos na extinta Casa de Detenção São Paulo, mais conhecida como Carandiru, o ex-presidiário Antonio Carlos Dias afirmou em seu depoimento que os presos poupados eram obrigados a escalar uma pilha de corpos e “se caíssem eles atiravam.”

A afirmação de Carlos Dias ocorreu na primeira fase do julgamento e foi exibida pela promotoria em vídeo nesta segunda-feira, primeiro dia da segunda etapa do júri, que desta vez avalia a responsabilidade de 27 policiais militares sobre a morte de 73 presidiários no 3º pavimento do Pavilhão 9.

Entrada do Fórum onde acontece o julgamento dos policiais acusados do assassinato de detentosDivulgação


“Fomos brutalmente espancados”, afirmou Carlos Dias antes do choro interromper seu relato. Ele se referia ao corredor que os policiais formaram entre as celas e o pátio do presídio por onde os sobreviventes eram obrigados a passar depois do massacre. “Alguns eram espetados por uma faca na ponta do fuzil, outros tomam pauladas. Eu fui atingido no rosto e quebrei o nariz.”

Ao chegarem no pátio, os sobreviventes se depararam “com uma pilha de cadáveres, alguns agonizando”. “No pátio, eram montanhas de corpos, alguns agonizavam. A gente tinha de passar por cima dos corpos. Tínhamos de escalar. Se caísse, eles atiravam.”

A testemunha afirmou ainda que viu um caminhão com mais corpos no pátio e que, para ele, morreram mais de 111 detentos. "Vi um caminhão com vários mortos em cima dos outros ao lado do pavilhão". De acordo com o ex-detento, essas pessoas eram como "indigentes", "pessoas que não recebiam visita, não tinham família. Os 111 que dizem são pessoas que recebiam visita regularmente", contou depois de explicar que pensou em não mencionar isso, mas mudou de ideia.

Testemunhas

O testemunho de Carlos Dias é o segundo de hoje. O primeiro foi do perito criminal Osvaldo Negrini, que acusou a polícia de esconder os vestígios do massacre. Ainda hoje outros dois vídeos com depoimentos serão exibidos.

A promotoria dispensou sete testemunhas de acusação. Amanhã, será a vez de ouvir as oito testemunhas de defesa: seis em plenário e duas por meio de vídeos.

O massacre do Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. Durante uma rebelião, a Polícia Militar invadiu o local e matou 111 presos. Todos os policiais saíram ilesos. A invasão foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, que chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, mas em fevereiro de 2006 o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a decisão e o absolveu. Ubiratan acabou morto no mesmo ano, em setembro de 2006, com um tiro na barriga, em seu apartamento nos Jardins, região nobre de São Paulo.

Depois de ter sua história manchada, a casa de detenção foi desativada no começo de 2002 e demolida no final do ano. No lugar, foi construído o Parque da Juventude.




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