Por bferreira

O golpe militar que mergulhou o país numa ditadura de mais de duas décadas foi muito além do que o nome pode sugerir. A tomada de poder teve o apoio decisivo da sociedade civil organizada. Igreja Católica,imprensa, empresários e ruralistas tiveram papel fundamental na deposição do presidente João Goulart. Mas, de acordo com historiadores e estudiosos do tema é um erro pensar que apenas a elite apoiou o golpe. Ela liderou, mas teve amplo apoio popular.

500 mil pessoas foram às ruas de São Paulo no dia 19 de março de 1964FolhaPress

“É tapar o sol com a peneira imaginar-se que golpe só foi apoiado por segmentos ‘de elite’, embora estes tenham dado, evidentemente, todo o seu apoio”, explica Daniel Aarão Reis, professor da Universidade Federal Fluminense, e que no fim dos anos 60 integrou a luta armada contra o regime militar.

Há exatos 50 anos, no dia 19 de março de 1964, cerca de 500 mil pessoas foram às ruas de São Paulo pedindo a intervenção dos militares. O ato ficou conhecido como ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’ e se espalhou rapidamente por centenas de outras cidades do país, incluindo outras capitais. A marcha do Rio de Janeiro, no dia 2 de abril, teve a presença de 1 milhão de pessoas, já como ‘Marcha da Vitória’, em tom de celebração pelo golpe dado um dia antes.

As líderes das marchas eram, sobretudo, mulheres de alta sociedade, ligadas a militares e políticos conservadores, e que integravam a Camde (Campanha da Mulher pela Democracia) e UCF (União Cívica Feminina), além do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), cujas atividades nada tinham a ver com a razão social.

De acordo com estudo da historiadora Aline Presot, o IPES era o órgão responsável por financiar as marchas pelo país. O dinheiro vinha de cerca de 300 empresas americanas ligadas ao Padre Patrick Peyton — importante líder anticomunista — além de outras centenas de empresas de origens diversas.

Entre as mulheres com maior destaque estavam Amélia Molina Bastos, presidenta da Camde, professora primária, além de neta, sobrinha, irmã e mulher de generais. Eudóxia Ribeiro Dantas, mulher de José Bento Ribeiro Dantas, então chefe do Centro das Indústrias, atual Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio), e da companhia aérea Cruzeiro do Sul.

Há 50 anos, mulheres católicas estavam entre os líderes do movimento que queria tirar Jango do poder. Dias depois, veio o golpeAE

Outras líderes eram Mavy D’Aché Assumpção Harmon, casada com o economista americano Robert Harmon, e Ignez Félix Pacheco Brito, mulher de Raimundo Brito, que seria ministro do general Castelo Branco. Também apoiavam o movimento Letícia Lacerda e Leonor de Barros, primeiras-damas do Rio de Janeiro e de São Paulo, e até Sarah Kubitschek, mulher do ex-presidente JK. Juscelino governou o país tendo Jango como vice.

“Estas mulheres se apresentavam como mães, esposas e donas de casa que tinham o dever de lutar pela família e pela religião, e contra o comunismo”, explica outra estudiosa do assunto, a historiadora Janaína Cordeiro.

Todas estas associações acabaram desfeitas ainda nos anos 60 e muitas das lideranças nunca mais quiseram tocar no assunto, algumas por arrependimento; outras por vergonha; e todas com medo de represálias pós-redemocratização. Para sábado, várias marchas da família estão sendo convocadas para voltar às ruas em comemoração aos 50 anos do golpe.

No Rio, uma das organizadoras da marcha de sábado, Ilze Pazian, se recusou a dar entrevistas e seu perfil no Facebook, local de convocação do ato, foi apagado após contato feito com O DIA.

“A conjuntura política é outra. Vi a convocação de uma Marcha da Família em São Paulo para o dia 22 que tem apenas 81 pessoas confirmadas. Ridículo. Mas que as ‘senhoras de bem’ do Leblon estão indignadas com o fato de esbarrarem no aeroporto com suas empregadas domésticas, isso estão... (risos). Viva a classe C”, brinca Evelyn Chaves, também historiadora, que estudou a fundo este capítulo fundamental para a compreensão do golpe militar.

Bolsonaro dispara

Ícone da direita no Congresso Nacional, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), eleito em 2010 para seu sexto mandato com nada menos que 120 mil votos, ainda defende o golpe militar, que ele chama de “revolução gloriosa”.

“Sem os militares, o Brasil não existiria, não haveria Itaipu e as hidrelétricas. Olha a Ponte Rio-Niterói. Esse pessoal de esquerda, que não gosta de trabalhar, quer rebatizá-la com o nome do Betinho (o sociólogo Herbert de Souza), que era apenas ladrão a mando do Brizola e do Jango. Costa e Silva foi um presidente honrado”, alfineta.

Conhecido e criticado pelas declarações polêmicas a favor da homofobia e do sexismo, Bolsonaro diz ter participado das marchas das famílias pelo interior de São Paulo ainda aos nove anos de idade.

“As pessoas agora querem esconder a verdade dizendo que foi um golpe, quando na verdade foi a sociedade civil que pediu a intervenção militar. A imprensa, por exemplo, estava toda a favor. Era unânime.

A Igreja Católica ainda mais. Todos queriam a intervenção. Os empresários não queriam perder suas empresas, os ruralistas não queriam a reforma agrária. Todas as pessoas de bem queriam a revolução. Os militares foram apenas instrumento da vontade popular”, completou.

Até Lula era a favor

Principal líder político surgido do país na ditadura que combateu a partir de meados dos anos 70, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também via o golpe militar com bons olhos em março de 1964, aos 18 anos de idade.

Em depoimento ao livro ‘Memória Viva do Regime Militar’, de Ronaldo Costa Couto, Lula conta um pouco do ambiente que vivia não apenas em casa como também na Metalúrgica Independência, onde trabalhava.

“Eu trabalhava com várias pessoas de idade. E para elas o Exército era uma instituição de muita credibilidade, que poderia ‘consertar’ o Brasil. Eu via os velhinhos comentarem: ‘Agora vai dar certo, vão consertar o Brasil, vão acabar com o comunismo’. Era essa a ideia. Era essa a visão que eu tinha na época do golpe. Em casa, minha mãe escutava o rádio e dizia: “O Exército vai consertar o Brasil. Agora nós vamos melhorar.”

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