'O PMDB não tem, não teve e não terá um operador', diz Eduardo Cunha

Deputado líder da bancada do partida vai lançar candidatura à presidência da Câmara daqui a nove dias

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - A nove dias de lançar oficialmente sua candidatura à presidência da Câmara, o deputado Eduardo Cunha, líder do PMDB, diz que é apenas ‘questão de tempo’ o apoio da presidenta Dilma Rousseff. Afirma ainda que não crê em veto a seu nome pelo Planalto. Mas faz um alerta: se perder a eleição em 1º de fevereiro, no dia seguinte permanecerá no comando do PMDB, bancada essencial para aprovar projetos de interesse do governo no Congresso. Eleito para o quarto mandato com 232.708 votos, Cunha nega com veemência qualquer vínculo do PMDB com ‘operadores’ do esquema de desvio de recursos da Petrobras e considera inevitável a criação de uma nova CPI para apurar as irregularidades na estatal.

O DIA: Sua candidatura à presidência da Câmara não é rompimento de acordo com o PT, que previa alternância no comando da Casa com o PMDB?

EDUARDO CUNHA: Nas duas legislaturas anteriores, em 2006 e em 2010, a vitória do PT foi por uma margem muito mais significativa. O processo não terminou tão conflagrado como agora. A disputa parece que ainda não acabou, que persiste. Naquele momento a disputa se encerrou. Então houve uma hegemonia eleitoral naqueles dois momentos. Agora, não houve uma hegemonia; houve uma vitória. Com a conflagração do processo eleitoral, existe hoje um isolamento da bancada do PT em relação ao resto da Câmara. O PMDB não está rompendo qualquer acordo.

"Sou líder da bancada. Não posso ser vetado. Vetar a mim é vetar a bancada do PMDB"%2C diz Eduardo CunhaFabio Gonçalves / Agência O Dia

A sua candidatura tem o apoio da oposição?

Já procurei o DEM, o PSDB, o PPS. O Solidariedade é oposição e já deu apoio. Não pretendo ser um candidato de oposição ao governo. Não existe essa possibilidade de eu ser um candidato de oposição. É uma candidatura de posição, e não de oposição. É uma candidatura de defesa do parlamento acima de tudo, de qualquer coisa. Não é confronto.

Mas o governo pretende lançar um candidato contra o senhor.

Certamente terão outros candidatos. Que vença aquele que obtiver mais votos, como tem que ser na democracia. Agora, outra coisa é usar a máquina e sair distribuindo cargos, ministérios e verbas e achar que, em função disso, vai mudar o resultado de eleição de voto secreto. Time que quer ser campeão não escolhe adversário. Sou o líder da bancada do PMDB, que está no poder, não está pregando nem vai pregar uma candidatura de oposição.

Por que a presidenta Dilma Rousseff não gosta do senhor? Ela seria pessoalmente contra sua candidatura. Ela aceita o PMDB pleitear a presidência da Câmara, só não quer que o candidato seja o senhor.

Ela sempre me tratou muito bem. Se ela não gosta de mim…. Você tem que conviver com a realidade: eu sou líder da bancada por unanimidade. Se eu sou o líder da bancada, não posso ser vetado. Porque vetar a mim, é vetar a bancada do PMDB. Não pode ter esse tipo de veto. Não posso aceitar, não acredito que tenha. Não posso falar sobre sentimento: quem gosta ou não de mim. As relações políticas são feitas de outra natureza. Nem sempre todas as pessoas com quem eu convivo, sou obrigado a ser amigo ou ter um sentimento de admiração. Às vezes, a gente convive com pessoas que até pessoalmente não tem um bom trato. Mas gente tem a convivência política, o respeito, porque a política é feita por defesa de posições.Gostando ou não gostando, alguns têm posições que convergem ou divergem da nossa. A mim ela sempre tratou com a maior cordialidade, sempre foi muito gentil comigo.

A Dilma vai ter de engolir o senhor?

Acho que não ...Acho que ela vai acabar me apoiando. Acho que é questão de tempo. Não vou entregar a liderança do PMDB, se perder a eleição para a presidência. Se eu perder a eleição, eu já sou líder. Não vou perder a eleição e entregar a liderança, não. Como é que ela vai conviver depois com a gente? Vai precisar aprovar a DRU (Desvinculação das Receitas da União) no ano que vem.

A CPI da Petrobras foi prorrogada até o dia 22 de dezembro. Em 2015, será criada uma nova CPI?

Essa CPI que está aí já morreu. Se deu apenas um balão de oxigênio na UTI para ela ficar mais tempo moribunda.É inevitável a criação de uma nova CPI a partir do conhecimento da denúncia, das delações premiadas que estão sendo feitas. Jamais negaremos o apoio a qualquer tipo de investigação sobre esse assunto.

O PMDB é apontado como um dos partidos beneficiados pelo esquema existente na Petrobras.

Nos repudiamos essa ilação. O PMDB não tem, não teve e não terá um operador. O PMDB tem membros partidários, delegados pela sua direção, ou exercidos pela sua própria direção, que fazem durante o período eleitoral, na forma da lei, a busca por recursos normais para o financiamento de suas campanhas. Não existe para o PMDB essa figura de operador ou pessoas que fazem operações em nome do PMDB. Se alguém individualmente eventualmente fez qualquer coisa, ele que vai responder por isso.

O lobista Fernando Soares, o Baiano, é apontado como operador do PMDB. Não há preocupação do partido com o depoimento dele?

O partido não está preocupado com isso. Preocupação zero. Tanto não está preocupado que assinou o pedido de prorrogação de CPI. Não estamos preocupados. O PMDB está preocupado que tudo seja investigado, apurado e esclarecido.

O Aezão foi um erro?

Não diria que foi um erro ou um acerto. A convenção do PMDB mostrou um partido muito dividido naquele momento: 57% da convenção apoiou a aliança com a reeleição da presidente Dilma e 43% o contrário. O PMDB só aprovou a aliança pelo prestígio pessoal do Michel Temer. O descontentamento naquele momento era muito grande. O Aezão foi em reação ao movimento político do PT no Rio. Essa inabilidade do PT no Rio, que terminou em quarto lugar, quase perdendo para o Psol, é que mostrou que a ambição pessoal levou quase ao comprometimento da aliança nacional e quase derrota a presidente Dilma.

O PMDB vai ter candidato à Presidência da República em 2018?

O PMDB sempre teve essa discussão de candidatura própria e eu sou favorável a ela. Já falei que o Eduardo Paes é um bom nome para ser trabalhado pelo partido. Vai terminar sua gestão municipal, teremos as Olimpíadas. Se sair tudo a contento, se ele tiver um bom êxito, ele pode se credenciar para isso. Outros nomes também poderão surgir.

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