A cada três florestas protegidas pelo governo, uma tem focos de incêndio

Criadas por decretos, Unidades de Conservação federais enfrentam milhares de queimadas anualmente em suas áreas; instituto responsável por proteção admite falta de funcionários

Por marcelle.bappersi

São Paulo - A destruição de uma ampla área do Parque Nacional da Chapada Diamantina, no fim de semana passado, é o exemplo de algo rotineiro nas florestas brasileiras. Apesar de protegidas por decretos, Unidades de Conservação federais enfrentam milhares de focos de queimadas anualmente, cujo enfrentamento é dificultado devido à falta de funcionários para combate, dificuldade de acesso aos locais afetados e clima seco que ajuda a alastrar as chamas.

Somente na segunda-feira (14), monitoramento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostrava que quase um terço das Unidades de Conservação federais tinham focos de incêndio – 105 de um total de 338 áreas protegidas. Tamanhos e números variavam, mas em algumas delas os focos passava de duas centenas, caso do Parque Nacional Serra das Confusões, em Jurema, Piauí.

"Essas queimadas são comuns no dia a dia das florestas brasileiras, em sua ampla maioria, causadas pelo homem. Causas naturais, como raios, são raríssimas", diz ao iG Alberto W. Setzer, pesquisador do Inpe. "Pode até existir discussão quando se pensa em outras queimadas no País. Mas essas unidades de conservação são parques que deveriam estar sempre protegidos. Não é normal que contem com esse número de focos."

São vários os motivos para os incêndios. No caso da Chapada Diamantina, a principal suspeita é de que um homem tenha tido um surto psicótico e iniciado as chamas no local. Incêndios criminosos como esse, no entanto, são bastante raros. Mesmo que, de acordo com o Ibama, 99% dos casos sejam praticados pela ação do homem, em boa parte eles são involuntários. Aquelas consequentes de causas naturais, como quedas de raios, também são difíceis de ocorrer.

Isso é fácil de ser observado por meio das imagens de satélite do Inpe sobre as áreas afetadas. Quando não há nuvens visíveis é possível cravar que o culpado é o ser humano, que utiliza o fogo, por exemplo, para limpar terreno para agricultura e se livrar de materiais não-recicláveis. O clima seco faz sua parte para alastrar as chamas.

"O volume dos focos é extremamente afetado pelo clima, não tem jeito. É a secura que vai manter as folhas secas e os galhos caídos no chão, que vão servir como combustível para deixar esses incêndios ainda mais destrutivos", afirma a pesquisadora Simone Aparecida Vieira, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade de Campinas (Unicamp).

No total, 17 Estados tinham focos de incêndio em Unidades de Conservação federais na segunda-feira: Acre, Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Piauí, Roraima, Santa Catarina e Tocantins. Pará liderava a lista, com 29 de suas áreas protegidas com queimadas registradas.

Falta de funcionários

A dificuldade de acesso a focos de incêndio e a rápida propagação das chamas pelas florestas são naturalmente obstáculos para o enfrentamento ao fogo. Mas, para os especialistas consultados pelo iG, há um outro ponto que colabora imensamente para os incêndios que dominam as áreas verdes brasileiras: a falta de funcionários para controlá-los.

"Parece-me existir uma preocupação das autoridades com relação às queimadas, mas, claramente, não existe a proteção devida. Muitas vezes temos uma área imensa para ser cuidada por uma única pessoa. E aí não tem como dar conta. Fica impossível de controlar", analisa o pesquisador do Inpe Alberto W. Setzer. "Além disso, apesar de não poderem, muitas dessas áreas ainda têm moradores, ainda registram disputas por terras. E essas pessoas acabam praticando as queimadas, que se espalham pelas florestas."

Helicóptero do Corpo de Bombeiros joga água sobre chamas na região serrana do Rio%2C em 2014Fernando Frazão/ Agência Brasil

Desde 2007, o gerenciamento e cuidado das unidades de conservação federais do País é de responsabilidade exclusiva do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que fornece cursos de fiscalização a um corpo técnico de analistas, a quem cabe o combate ao desmatamento, tráfego de madeira, entre outros. Em lugares mais problemáticos devido ao clima seco, também existe a disponibilização de Brigadas de Incêndio especialmente para combater chamas quando necessário. 

Por meio de sua assessoria de imprensa, o instituto admite a não existência de funcionários em número suficiente para controlar a situação em um "cenário ideal". No entanto, ameniza a situação, afirmando que o órgão é de fundação recente – cuida das unidades há sete anos – e que, ainda assim, conseguiu melhorar a situação do combate a incêndios no País.

"O cenário de contingenciamento orçamentário é algo presente atualmente em todas as autarquias do governo. Todas estão em regime especial, necessitando rearranjos para lidar com suas prioridades. Não existe o dinheiro que precisamos", explica o ICMBio.

"O instituto também vem adotando parcerias que têm dado certo em vários Estados. É o caso da Chapada dos Guimarães, por exemplo, que tem parceria com o governo e o Corpo de Bombeiros local, que ora cede helicóptero ora reforço com pessoal. Assim, em momentos mais críticos, se age para o combate."

Até a publicação desta reportagem, o instituto não respondeu quantos funcionários são responsáveis pelo controle das queimadas nas áreas protegidas do governo federal. 

 Fonte: IG

 

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