Por helio.almeida

São - O pequeno centro comercial ao lado de um condomínio de 28 torres no Belém, zona leste de São Paulo, é composto por dez lojas. Entre elas, hortifruti, cabelereiro, pet shop, loteria e um novo restaurante japonês, que causou sensação entre os 8 mil moradores do condomínio.

Um dos sócios e moradores dali, Jamil Torrecilha Junior, 32 anos, comemora.

"Ficamos lotado das 20h às 23h". Ele cita como principal vantagem o estacionamento em frente às lojas, em um recuo diante de uma das avenidas mais importantes da região. "Se fosse uma loja de rua, teria dificuldades para fazer convênio com estacionamentos. Eles estão lotados com mensalistas".

No pet shop, a sócia Eliana Moreira, 53 anos, conta que 50% de seus clientes são moradores do condomínio.

"Bom é que cada loja ajuda a chamar o cliente da outra".

Jamil Torrecilha Jr%2C sócio de um restaurante em um centro comercial%3A facilidade para estacionariG

Além de representarem uma facilidade para a população, os shoppings de vizinhança se tornaram uma oportunidade para grandes companhias e também incorporadoras, que criam divisões para explorar o nicho. Entre elas, o Grupo Pão de Açúcar, a BRstores e a Florida Center.

Isso porque esses espaços já estão no radar de redes de franquias, pois são uma opção para os franqueadores continuarem a crescer após forte expansão nos últimos anos. Além disso, podem oferecer custos mais baixos do que os de shoppings, e chamar mais a atenção do que lojas de rua, fora de endereços comerciais.

Elas miram um modelo de compras de conveniência, que já é popular nos Estados Unidos e Europa e parece já ser bem aceito no País, ancorados em postos de combustíveis.

Um exemplo é a rede de postos Ipiranga, que, para atender a um novo perfil de consumidor que otimiza o tempo em busca de alternativas que ofereçam comodidade e pronta disponibilidade de produtos e serviços, criou centros comerciais ao redor de seus postos, principalmente em grandes capitais, que sofrem com trânsito.

Um deles é o posto localizado na Avenida Pompeia, em São Paulo, que tem 12 lojas, oito delas franquias, como Soho, Casa do Pão de Queijo e Spoleto.

A operação é comandada pelo empresário Arthur Etzel, 64 anos.

"Tenho visão de varejista. Os shoppings estão inviáveis para o pequeno começar".

O empresário conta que o aluguel no posto equivale a 60% de um shopping e que, nos últimos cinco anos, a demanda aumentou.

"O ponto é 80% do negócio, e o centro comercial agrega valor. Com ele, consigo vender mais combustível".

A rede Ipiranga já tem, entre parceiros, Burger King, McDonald's, Subway, Bob's e Pizza Hut; Drogaraia e 5 à Sec.

Mais players

Em junho, foi a vez do Grupo Pão de Açúcar entrar nesse segmento. Com o grupo francês Casino no controle, a empresa deixa de ser um departamento do grupo para se tornar uma empresa imobiliária, com o objetivo de aumentar a rentabilidade dos imóveis já detidos pela operação de supermercado.

Para isso, serão criados centros comerciais ao redor de um supermercado Pão de Açúcar ou de um posto de combustível Extra.

A GPA Malls já lançou seu primeiro empreendimento com o conceito, o Conviva Américas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que pode ser considerado um mini shopping, pois tem 12,5 mil metros quadrados de área e abriga a maior loja da rede Centauro, mais quatro lojas âncoras e 40 lojas, ancorado em grandes condomínios na região.

O próximo, em Belo Horizonte, vai aproveitar o fluxo de uma universidade.

"Buscamos oferecer espaços de convivência com clima de praça, onde os vizinhos possam se encontrar", diz Isadora Sbrissa, diretora de marketing da GPA Malls.

Porém, a empresa planeja entrar também no segmento de shoppings de vizinhança, menores ainda este ano.

Isadora Sbrissa%2C diretora de marketing da GPA Malls%3A espaço de convivênciaDivulgação

"Temos hoje mais de 200 mil metros quadrados de área bruta locável. Queremos dobrar de tamanho nos próximos anos", diz a executiva.

A empresa pode tanto reformar supermercados existentes quanto criar novos supermercados para desenvolver os centros comerciais. A ideia é ficar perto dos centros urbanos.

"Nos Estados Unidos é comum observar os shoppings de vizinhança ao lado de rodovias. Vemos que isso é diferente no Brasil".

Mercado pulverizado

A Associação Brasileira dos Shoppings Centers (Abrasce) não reconhece empreendimentos inferiores à 5 mil metros quadrados de área bruta locável (ABL). Em média, esses pequenos centros comerciais têm entre 500 metros quadrados e 3 mil metros quadrados de ABL.

Porém, os executivos conseguiram cadastrar cerca de 100 mil metros quadrados em strip malls espalhados pelas principais capitais, o que dá uma ideia do segmento.

Cristiano Campos Rodrigues, superintendente BR Stores, define o conceito.

"É um shopping sem perder a essência da loja de rua".

A ideia, portanto, é criar o empreendimento a cinco minutos da moradia dos consumidores alvos, no caminho de volta do trabalho. Dos cinco projetos que a BRStores desenvolve, quatro são ancorados em grandes condomínios. A incorporadora realiza aprimoramentos no primeiro empreendimento lançado no Rio: planeja aumentar o estacionamento de 85 vagas.

A estratégia é aproveitar terrenos que não estão na mira de incorporadoras, seja pela restrição do potencial construtivo ou por serem áreas menores; e ganhar em escala.

"Redes de franquias ligadas à saúde, beleza e bem estar nos procuram", diz Rodrigues.

A Florida Center, que pertence ao grupo Brasil Franchising – dono de marcas como Nobel e Sapataria do Futuro – já tem 16 empreendimentos do tipo no portfólio, que também são compostos por outras redes, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em cidades do interior paulista.

A operação de incorporação nasceu há quatro anos para ser uma opção de crescimento para as redes que compõem o grupo, conta o diretor comercial Sérgio Milano Benclowicz.

"Oferecemos, em média, R$ 100 por metro quadrado, com todos os custos envolvidos. Não tem a insegurança de uma loja de rua, nem a maratona para entrar e sair de um shopping."

Mais segurança

A gestão profissional do empreendimento, feita por empresas especializadas no segmento, pode auxiliar lojistas como os do centro comercial do bairro do Belém.

Isso porque a segurança é vista por eles como uma das principais vantagens do modelo. No centro comercial do Belém, entretanto, há apenas uma "inibição" de furtos, feita por funcionários quem cuidam do estacionamento.

Jamil, por exemplo, paga do bolso um segurança particular para vigiar seu restaurante japonês.

"Ninguém quer dividir. Acham que é muito custo. Mas não posso correr riscos."

Consumidores cativos eles já têm. Como a dona de causa Cleusa Rodrigues Pina, 57 anos, que mora no condomínio ao lado. "Compro carne, remédios e vou ao cabelereiro lá. É mais fácil. Senão, tenho de andar mais, e o supermercado fica longe", resume.

As informações são da repórter Marília Almeida

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