Por bferreira

Rio - Uma quadrilha está fraudando faturas de cartão de crédito no Rio de Janeiro. O golpe consiste na alteração da numeração do código de barras impresso no boleto, de forma que o dinheiro do pagamento vai para a conta dos criminosos.

O professor universitário Pedro Vieira, de 49 anos, foi vítima do grupo recentemente. Depois de pagar o boleto no final de janeiro, ele começou a receber correspondências do Itaú Unibanco cobrando o valor novamente. O mesmo ocorreu em fevereiro. “Liguei para o banco para ver o que tinha acontecido e eles me contaram essa história do golpe”, afirma. “Me surpreendi completamente em saber que alguém está quebrando meu sigilo fiscal e vendo tudo que estou comprando e pagando.” O banco informou que iria sustar a cobrança dos valores desviados, mas ainda não o fez, segundo Vieira.

Notei que o número do código de barras da fatura era referente a uma conta do banco Santander%2C e não do Itaú”%2C Vitorino Peixoto%2C analista de suporteMaíra Coelho / Agência O Dia

O analista de suporte Vitorino Peixoto, 51, também sofreu uma tentativa do mesmo golpe, mas se livrou do pagamento indevido graças ao atraso na chegada do documento a sua residência. Para não pagar juros, ele imprimiu uma via da fatura na internet e fez o depósito normalmente. Quando a cobrança fraudada chegou em sua casa, apenas um dia antes do vencimento, ele detectou alterações na impressão.

“A primeira coisa que percebi é que o papel estava dobrado fora do padrão”, afirma Peixoto. “Em seguida, notei que o número do código de barras era referente a uma conta do banco Santander, e não do Itaú”, diz.

Nos dois casos relatados ao DIA, os valores cobrados e a descrição das compras estavam corretos, o que levanta a suspeita de que a falcatrua aconteça com a participação de alguém do próprio banco ou que ocorra fraude postal, com a interceptação das correspondências.

Em nota, os Correios informaram que “casos de golpes que envolvem empregados da empresa são muito raros” e que “a causa principal de fraudes envolvendo objetos postais é o assalto praticado por pessoas alheias à empresa.”

O Itaú Unibanco não informou quantos casos semelhantes foram reportados ao banco. Em nota, alertou aos clientes para que fiquem atentos aos documentos recebidos em casa,“especialmente ao layout da fatura”. A instituição também recomenda que o cliente use o serviço de débito automático, o que evita a exposição a fraudes deste tipo. A Delegacia de Defraudações e Falsificações não se pronunciou sobre o assunto.

Para os consumidores, a atenção redobrada é sempre o melhor remédio. “Estou cada vez mais ligada. Minha família já foi vítima de fraude com cartão de crédito e preciso sempre estar de olho”, afirma Mayara Lima, 20, estudante de administração.

Polícia deve ser acionada

O Procon estadual orienta que as vítimas de golpes com cartão de crédito denunciem a fraude à polícia. Muitos clientes deixam de comunicar os casos à autoridade policial depois que resolvem a situação com o próprio banco, evitando a prisão dos responsáveis. “A polícia pode verificar em qual conta os valores estão sendo depositados e achar essas pessoas”, afirma Carlos Eduardo Amorim, diretor jurídico do Procon-RJ.

Outra orientação da autarquia é que o usuário dos serviços bancários sempre verifique qual o nome do cedente que aparece no computador ou no caixa automático quando a operação for efetuada. Se o pagamento foi feito manualmente, o depositante deve pedir ao caixa que verifique quem está recebendo a quantia. “As pessoas estão muito mecanizadas hoje em dia, fazendo tudo automaticamente e sem a atenção devida”, diz.

No caso de fraude, a vítima deve sempre tentar resolver o problema diretamente com o serviço de atendimento ao consumidor da empresa “Ele deve conversar com o banco. Se não resolver, pode pedir a gravação e procurar o Procon-RJ ou a Justiça, que irá notificar os responsáveis”.

EX-LADRÃO DE CARTÕES RECOMENDA USO DO CRÉDITO

“Não usem cartões de débito. Cartões de crédito são mais seguros e mais vantajosos”. A conclusão é de Frank Abagnale Jr, golpista que ficou conhecido pelo filme “Prenda-me se for capaz”, baseado em um livro da sua autoria, no qual é interpretado pelo ator Leonardo Di Caprio. Hoje, ele trabalha no Federal Bureau of Investigation (FBI).

Em um evento ontem promovido pela Serasa Experian, em São Paulo, ele explicou sua teoria. “As bandeiras não responsabilizam o cliente por fraudes com cartões de crédito. As com cartões de débito são mais dificilmente ressarcidas. Além disso, se alguém clonar um cartão de crédito meu, não terá acesso ao meu dinheiro, apenas ao meu crédito. Prefiro pagar tudo com crédito. Enquanto isso, meu dinheiro fica aplicado rendendo no banco. E os dados da minha conta corrente não ficam tão expostos por aí”, justifica. O ex-gênio do crime hoje é conselheiro da 41st Parameter, empresa do Grupo Experian, especializada em tecnologia de identificação de dispositivos e detecção de fraude na web.

Dados parciais da Serasa Experian mostram que no Brasil as fraudes totalizaram R$ 2,3 bilhões em 2013, dos quais R$ 1,2 bilhão foram em tentativas de fraude offline — mais conhecidas como roubo de identidade —, aproximadamente R$ 500 milhões em e-commerce e R$ 600 milhões em internet banking. No país, 30% dos usuários de cartões de crédito já sofreram fraude, o que torna o Brasil o quinto país no ranking mundial desse tipo de golpe, apenas atrás de Estados Unidos (37%), México (37%), Emirados Árabes (33%) e Reino Unido (31%).

Reportagem de Luisa Brasil

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