Judeus e adventistas passam sábado à noite fazendo Enem

Candidatos eliminados nos dois dias da prova somam 1.519, dos quais 236 por uso de celular

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Cânticos, orações e lanches compartilhados marcaram o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para os sabatistas — praticantes de religiões que guardam o sábado como dia santo. Mas o que se tornou uma grande confraternização quase não aconteceu devido a erros no sistema de inscrição do Enem.

Alguns sabatistas, que haviam optado em fazer a prova às 19h, foram colocados em horário convencional, às 13h. “Minha filha e outros jovens da igreja preencheram a opção corretamente, mas quando receberam a confirmação, viram que estavam no horário normal”, conta o analista de sistemas e membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia André Novaes. “A igreja teve que entrar na Justiça para garantir o direito deles, mas a confirmação do horário correto só foi feita na sexta à noite.”

Jovens adventistas e judeus fizeram a prova do Exame Nacional do Ensino Médio juntos no Centro do Rio e aproveitaram o tempo vago para orar%2C cantar e fazer novas amizadesMaíra Coelho / Agência O Dia

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do Enem, informou que os casos estão sendo investigados para apurar se houve erro. Ao todo, 69.396 candidatos solicitaram atendimento especial por causa da religião.

As irmãs Letícia e Luiza Campos Coelho, de 16 e 17 anos, respectivamente, vieram de Resende para a prova. Todos os sabatistas chegaram nas salas às 13h. “Na nossa cidade não podemos ler a Bíblia, nem cantar, pois o prédio não é exclusivo de sabatistas. Ficamos em um canto quietas esperando dar a hora para não atrapalhar os outros”, diz Letícia, que quer cursar medicina. “Se houvesse outra prova semana que vem, eu ia adorar”, complementa Luiza, que planeja cursar engenharia. Isabelle Quintela, de 17 anos, concorda. “O tempo passa muito rápido, fizemos um grupo de jovens, o pai de uma colega preparou uma lição.”

As irmãs Luiza e Letícia saíram de Resende%2C no Sul Fluminense%2C para fazer a prova no Centro do Rio Maíra Coelho / Agência O Dia

Mas Luiza conta que nem sempre os colegas de escola ou os professores compreendem a questão religiosa. “Alguns sugerem para pedir autorização ao pastor para poder sair no sábado, não entendem que eu sigo não o que o pastor está dizendo, mas a Bíblia.” Para ela, a escola foi fundamental na preparação. “Tínhamos provas aos sábados, nos davam antes ou depois, na confiança.”

Os judeus ortodoxos também guardam o sábado e aproveitaram o tempo até a prova fazendo preces. “Ficamos todos em uma sala e fizemos uma confraternização”, conta Guilherme Rabinovitsch, de 16 anos, que pretende cursar engenharia da computação.

Retardatária aprendeu a lição

Após chegar atrasada no primeiro dia de provas do Enem%2C Amanda Alli chegou na Uerj às 11h56 deste domingoDivulgação

?Com medo de chegar atrasada à segunda etapa do Enem, Amanda Alli, de 19 anos, chegou à UERJ às 11h30. Ela quis testar seus conhecimentos. “Ontem (anteontem) foi o pior dia da minha vida, mas minha família me apoiou. Ela e meus amigos foram fundamentais para eu estar aqui agora. Vou tirar um notão.” A estudante chegou acompanhada da mãe e do irmão.

Um curso, que aproveitou o episódio da véspera e fez uma jogada de marketing, foi criticado por ter lhe dado uma bolsa de estudos integral. “Disseram que criamos o 'bolsa-atraso', que fomos paternalistas”, disse o coordenador pedagógico do colégio Álvaro Barreto.

“Vários alunos disseram pelo Facebook que 'a pancada ensina' e que deveríamos ter deixado ela aprender com o erro”, completou Emanuel Nascimento, professor de história. Apesar das críticas, a bolsa da jovem foi mantida.

No sábado, Amanda saiu de casa às 12h e foi com a mãe de carro para a Uerj, onde faria a prova do Enem, mas o trânsito atrasou o seu sonho de ser jornalista. Às 13h03 ela chegou à faculdade, mas os portões estavam sendo fechados.

Novo recorde de inscrições, 8,7 milhões para o exame

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014 teve pelo menos 1.519 eliminações, informou o ministro da Educação, José Henrique Paim, durante coletiva ontem. Nesta edição, foram mais de 8,7 milhões de inscritos. O uso indevido de celular de eliminou 236 pessoas ao longo dos dois dias de prova.

De acordo com Paim, o número de eliminados ainda pode aumentar, pois haverá uma atualização de dados com informações sobre cada ponto onde a prova foi realizada. O ministro acredita que, este ano, o Enem mostrou um significativo avanço em direção à consolidação.

“Esse processo está consolidado e temos, sem dúvida alguma, um exame que abre cada vez mais oportunidades para jovens e trabalhadores do país. É uma política que vem gradativamente sendo melhorada e aperfeiçoada”, comemorou.

Paim lamentou a morte de Edvania Florindo de Assis, 32, uma vestibulanda que morreu vítima de um edema pulmonar no local onde faria a prova, em Olinda, Pernambuco. Em outro caso inusitado, uma candidata entrou em trabalho de parto durante o exame, no município de Caucaia, no Ceará.

O número superior a 8,7 milhões de pessoas representa um novo recorde de inscrições. O percentual de abstenções ficou em 28,6%, em 2014. No ano passado, esse mesmo índice foi de 29%. A prova foi aplicada em 1.752 municípios, com 17.367 locais e 242.948 salas. Ainda segundo o MEC, o gabarito oficial do Enem será divulgado até a próxima quarta-feira.

?Colaborou Tamyres Matos

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