Por tamyres.matos

Rio - ‘Querido diário, hoje acordei triste e resolvi comer brigadeiro no café da manhã. À tarde, encontrei uns amigos e me senti melhor’. Ter um local para escrever as próprias emoções continua na moda, mas, hoje, o caderninho atende pelo nome de Facebook. Com uma diferença: a preocupação com o sigilo das revelações perdeu o sentido.

Escritora Lívia Lamblet é usuária frequente do FacebookAgência O Dia

A exposição cresceu tanto que virou tema de estudo de psiquiatras, que contam por que a rede se tornou local privilegiado de ‘desabafo’. O botão ‘curtir’ é uma das explicações para o excesso de comentários muito pessoais — e quase sempre irrelevantes — na sua timeline. “A rede funciona como suporte afetivo e as curtidas fazem as pessoas se sentirem amadas”, declara André Brasil Ribeiro, psiquiatra e professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Salvador.

E quando o post não tem repercussão? “Aí é o caos. Causa angústia e a pessoa se sente desprezada”, diz.

Desde 2007, ele estuda afetividade e redes sociais. Para André, o usuário se expõe, como se o Facebook fosse um ‘livro aberto’, esperando apenas a aprovação do outro, que vem em forma de ‘curtidas’. “A proteção virtual e a espera pelo apoio incentivam o uso da rede social como um local de entrega sentimental, em que a pessoa revela vícios, desejos e até perversões”, alerta.

Segundo o psiquiatra, o Facebook ‘vicia’ por dois motivos: a necessidade de estar conectado para ser ‘aprovado’, e porque a rede permite acompanhar a vida e as opiniões dos outros, ato que ele chama de ‘vouyerismo clássico’. “Apenas o que é interessante deve ser colocado e isso estimula o olhar”.

Pessoas com dificuldade de relacionamento na vida real, ansiosas e vítimas de bullying tendem a usar a rede como se fosse um divã. André listou uma série de dicas para evitar o mau uso, como evitar exposição demasiada, restringir as postagens a um grupo de amigos reais e manter preservadas a imagem do usuário e de terceiros.

“Você não pode ser amigo da rede, deve ser amigo das pessoas”. Curiosamente, o especialista não tem um perfil. “Desativei, porque senti minha privacidae invadida. Hoje, para criar um inimigo, basta bloquear no Face”, brinca.

No Facebook, a jornalista e escritora Lívia Lamblet, 29 anos, recebeu muito apoio durante o processo de perda de peso. “Muitos se inspiraram no que eu postei. As curtidas do Face são um suporte, um incentivo, vejo que há pessoas comigo”, conta.

Apaixonada pela rede, ela posta diversas vezes ao dia fotos, comentários, além do ‘check-in’ indicando onde está. “Escrever te deixa suscetível a reações positivas e negativas dos outros. É difícil exigir privacidade na rede”, disse.

SEM AMIZADE

Convém adicionar o psiquiatra ou psicólogo no Facebook? Essa questão já chegou aos profissionais e, para a maioria, a resposta é não. Isso porque o contato na rede pode afetar a relação médico-paciente.

Amaury Cantilino, psiquiatra e professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco, explica que enquanto o Facebook prioriza a exposição e encoraja a autorrevelação, a psiquiatria enfatiza a privacidade. Ele lembra que, quanto menos informação o paciente tiver do médico, menores são as chances de manipular o que será dito na consulta. “Se souber os gostos do médico, o paciente pode mudar o discurso na consulta, com receio de desagradá-lo.”

Amaury lembra ainda que o psiquiatra deve trabalhar com as informações que o paciente traz até ele nas consultas, ou seja, não é apropriado buscar dados ‘extras’ na rede.

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