Por fernanda.magalhaes
Publicado 03/02/2014 18:34 | Atualizado 03/02/2014 18:36

Estados Unidos - "Quando eu tinha sete anos, Woody Allen pegou minha mão e me levou para um sótão escuro, como um armário no segundo andar da nossa casa. Me pediu que deitasse de bruços e brincasse com o trem elétrico do meu irmão. Depois, abusou sexualmente de mim".

É assim que começa a carta aberta com a qual Dylan Farrow, filha adotiva de Allen, pôs fim a mais de duas décadas de silêncio.

Farrow, que agora tem 28 anos, narra na carta publicada em um blog do "The New York Times" como o famoso cineasta abusou dela em 1992 e recrimina Hollywood por ignorar os fatos e permitir que Allen tivesse uma carreira de sucesso e reconhecimento.

Woody Allen Reprodução Internet

"Na semana passada, Woody Allen foi indicado ao Oscar. Mas, desta vez, me recuso a desmoronar", disse a jovem, que alega ter sofrido durante anos as consequências dos abusos do pai.

Em 1992, Dylan Farrow denunciou ter sido abusada sexualmente por Allen, que foi investigado. Porém, nunca foram apresentadas provas contra o cineasta.

A acusação veio à tona em meio à separação do ator e diretor de sua parceira, Mia Farrow, que ganhou nos tribunais a custódia de seus filhos.

Allen, que na época tinha mais de 50 anos, começou no mesmo período um relacionamento com outra filha adotiva de Farrow, Soon-Yi Previn, que tinha 19 anos e com quem finalmente se casou em 1997.

Segundo Dylan Farrow, os abusos cometidos pelo autor de "Manhattan" e "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" não foram um fato isolado.

"Desde que me lembro, meu pai fazia coisas que eu não gostava. Não gostava de como frequentemente me afastava da minha mãe, irmãos e amigos para ficar sozinha com ele. Não gostava de quando colocava o dedo polegar na minha boca. Não gostava quando tinha que entrar debaixo dos lençóis quando ele estava de cueca", relatou.

Farrow diz que essas lembranças a perseguiram durante anos, provocando distúrbios alimentares e problemas para se relacionar com homens.

A dor, segundo a jovem, aumentava ao ver como a maior parte da indústria cinematográfica preferia fazer vista grossa e continuava admirando Allen.

"Os atores o idolatravam em premiações, as emissoras o colocavam na televisão, e os críticos nas revistas. Cada vez que eu via o rosto do meu abusador - em um cartaz, em uma camiseta, na televisão - eu só podia esconder meu pânico até encontrar um lugar para ficar sozinha e desmoronar", disse a jovem.

Após tantos anos, Farrow decidiu falar para servir de exemplo a outras vítimas de abusos sexuais, segundo explicou na carta.

"Hoje me considero uma pessoa de sorte. Sou casada e feliz. Tenho o apoio de meus incríveis irmãos e irmãs. Tenho uma mãe que encontrou em seu interior uma força que nos salvou do caos que um depredador trouxe para a nossa casa", explicou.

"Mas outros ainda estão assustados, vulneráveis e sofrem para encontrar coragem para dizer a verdade. A mensagem que Hollywood envia é importante para eles", ressaltou Farrow.

Por isso, a filha de Allen critica duramente a atitude do mundo do cinema e dispara abertamente contra várias estrelas que trabalharam com o cineasta.

"O que aconteceria se tivesse sido com sua filha, Cate Blanchett? Louis CK? Alec Baldwin? E se tivesse sido você, Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson? Você me conheceu quando eu era uma menina, Diane Keaton, você me esqueceu?", perguntou.

Alguns dos atores citados, como Blanchett e Baldwin, reagiram reconhecendo a gravidade da situação e dizendo torcer para que a família possa encontrar algum tipo de solução.

Já o próprio Woddy Allen se manifestou através de seu representante Leslee Dart alegando que considera "falsas e vergonhosas" as acusações por abusos sexuais feitas contra ele por
sua filha adotiva.

Segundo Dart, Allen deve responder diretamente às alegações "muito em breve".

A impactante carta publicada por Farrow surge algumas semanas depois de seu irmão Ronan, único filho biológico de Allen e Mia Farrow, ter resgatado os supostos abusos do diretor por causa da homenagem dedicada a ele no Globo de Ouro.

"Eu perdi a homenagem a Woody Allen. Eles colocaram a parte em que uma mulher confirmou publicamente que ele havia abusado dela aos 7 anos, antes ou depois de 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa?", publicou o jovem, de 26 anos, em sua conta no Twitter.


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