Por julia.sorella

Viena - O Uruguai não quer ser modelo para outros países com sua lei sobre a regulação da produção, distribuição e venda de maconha, declarou nesta quinta-feira em reunião da ONU em Viena o pró-secretário da presidência e presidente da Junta Nacional de Drogas, Diego Cánepa.

Em discurso diante de delegados de mais de 120 países reunidos nesta quinta-feira na Comissão de Narcóticos da ONU, Cánepa afirmou que o problema da droga no Uruguai é muito específico. "Não achamos, nem queremos, ser modelo para ninguém", disse Cánepa, ao mesmo tempo em que negou que a experiência que está sendo desenvolvida no Uruguai com a legalização possa ser imitada por outro país.

"O Uruguai tenta encontrar caminhos alternativos que atinjam realmente a saúde e o bem-estar de nossos compatriotas", manifestou o chefe da delegação uruguaia, cujo discurso era um dos mais esperados nesta quinta.

Cánepa defendeu assim a polêmica legalização da maconha, que na opinião da Jife - o órgão das Nações Unidas que zela pelo cumprimento da legislação global sobre drogas - transgride a legislação internacional. "O objetivo da lei uruguaia é combater o tráfico ilegal da maconha, ao mesmo tempo preservar a saúde pública da totalidade da população", disse Cánepa.

Além do Uruguai, os estados do Colorado e Washington, nos Estados Unidos, legalizaram a maconha para fins recreativos. O representante uruguaio destacou que desde 1974 não se penaliza o consumo de droga em seu país. Cánepa afirmou na reunião que o problema das drogas "requer um enfoque múltiplo, de uma grande flexibilidade, de compreensão por realidades diferentes, aceitando a possibilidade de transformações das legislações nacionais ou de impulsionar mudanças na legislação internacional".

O representante uruguaio lembrou que as Nações Unidas asseguraram recentemente que é preciso recuperar o "espírito original dos tratados (de drogas), que se centra na saúde". "Continuar com o projeto e a aplicação de instrumentos rígidos, inflexíveis, nos afasta do cumprimento do espírito das convenções e nos arroja a uma espiral de violência sem fim", assinalou Cánepa. "Devemos reconhecer a evidência da realidade, que demonstra em nossa opinião, o profundo fracasso das políticas implementadas nas últimas décadas nesta matéria", acrescentou o representante uruguaio.

Dado esse fracasso, "não assumir o desafio e não atuar seria um erro imperdoável que seguiriam pagando os mais fracos de nosso mundo", concluiu. A Jife repetiu que a lei uruguaia viola as normas internacionais porque estas permitem o uso de maconha só para fins médicos e científicos, e não recreativos.

O presidente da Jife, o belga Raymond Yans, reiterou nesta quinta a vigência das convenções internacionais sobre drogas e ressaltou que haviam "limitado o consumo" ao "controlar a oferta" de entorpecentes. "Quem assumirá a responsabilidade política se, ao tornar as drogas acessíveis sem controle médico, achemos uma geração incapaz de concentrar-se em suas tarefas elementares?", indicou Yans.

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