Líderes muçulmanos reagem contra nova publicação do Charlie Hebdo

Edição da revista satírica francesa registrou venda de 5 milhões de exemplares, número 80 vezes maior que a tiragem normal

Por paulo.lima

França - A decisão do jornal satírico francês Charlie Hebdo de publicar uma nova charge de Maomé na capa da edição histórica que foi às bancas nesta quarta-feira gerou reações de líderes islâmicos em todo o mundo. O secretário-geral da Organização para a Cooperação Islâmica (OIC), Iyad Amin Madani, qualificou a atitude do jornal de “insolente, ignorante e irresponsável”.

Com tiragem maior%2C edição do Charlie Hebdo após ataque se esgota na FrançaReuters


Madani lembrou que o mundo islâmico não só condenou os ataques terroristas ocorridos na última semana na França, como participou, por meio de cidadãos e líderes, da marcha que reuniu 1,5 milhão de pessoas no último domingo, em Paris. “Mas, ao mesmo tempo nós vemos que, no dia seguinte, o jornal voltou a publicar desenhos de Maomé. Isso é uma insolência, uma ignorância e uma irresponsabilidade. Pessoas marcharam pela sua liberdade de expressão, mas essa liberdade não pode atingir a crença de outras pessoas”, enfatizou Madani.

O ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, disse que “valores e crenças precisam ser respeitadas para que haja um diálogo sério com o Ocidente”. Zarif fez a declaração em entrevista concedida antes de iniciar reunião com o chefe da diplomacia norte-americana, John Kerry, sobre a redução da capacidade nuclear do país.

Franceses fazem fila para a nova edição do Charlie HebdoReuters


O grupo Hamas, movimento islâmico fundamentalista, também se manifestou. Em Gaza, o porta-voz do Hamas, Fawzi Barhoum, condenou a charge do profeta Maomé. “Esta é uma ação perigosa. É claramente um ataque aos muçulmanos, é uma motivação para o ódio e a consolidação do ódio contra os muçulmanos no mundo e na França. Todas essas campanhas contra o islamismo, contra o profeta Maomé e contra os muçulmanos no Ocidente precisam parar”.

A capa da edição histórica do Charlie Hebdo - a primeira depois que a redação do jornal foi atacada por terroristas, que mataram 12 pessoas na última quarta-feira - traz uma charge do profeta Maomé com lágrimas nos olhos, segurando uma placa onde se lê "Je suis Charlie", que quer dizer "Eu sou Charlie", a mesma frase usada por milhões de manifestantes que marcharam pelas ruas da França no domingo. No topo, o título: Tudo está perdoado.

A edição do Charlie Hebdo tinha tiragem prevista de 3 milhões de exemplares, mas, com a grande demanda registrada nesta manhã, foi ampliada para 5 milhões, número mais de 80 vezes maior do que a circulação normal, de 60 mil.

Jornal turco publica charges da edição de quarta-feira da Charlie Hebdo

O jornal opositor do governo turco Cumhuriyet publicou, nesta quarta-feira, algumas charges da edição de quarta-feira da Charlie Hebdo. Foram publicadas quatro páginas integradas ao caderno central, que inclui os artigos e caricaturas mais importantes da edição desta quarta-feira, traduzidas para o turco. O editorialista Hikmet Cetinkaya descreveu as charges de maneira sóbria.

"Repito mais uma vez, o terrorismo é um crime contra a humanidade, seja qual for sua origem. Por isso o profeta tem em sua mão um cartaz que diz 'Eu sou Charlie'", disse Hikmet. A polícia turca mobilizou um grande dispositivo de segurança em frente à sede do jornal opositor em Ancara, capital da Turquia, temendo manifestações hostis de islamitas que apoiam o governo.

O jornal Cumhuriyet publicou charges traduzidas para o turcoEfe


No primeiro momento, o jornal decidiu em publicar todas as charges da revista satírica francesa de hoje, mas a redação decidiu limitar em apenas quatro páginas o número de charges. Segundo relatos, a polícia foi até a gráfica do jornal, em Istambul, para analisar o conteúdo que seria publicado no caderno. O governo islamita-conservador turco já denunciou, no passado, as publicações da revista francesa.

O Cumhuriyet, forte opositor ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan, sofreu diversos atentados nos últimos anos, tendo muitos dos seus jornalistas detidos.

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