Especialistas estão divididos sobre mudanças radicais no trânsito do Rio

Eva Vider, da UFRJ, vê ‘ mal necessário’. Para Rojas, da Uerj, ações são ‘temerárias’

Por tamyres.matos

Rio - As mudanças no tráfego do Centro do Rio informadas pelo prefeito Eduardo Paes dividem as opiniões de especialistas, assim como os pedidos para que os cariocas evitem usar o carro particular. Enquanto a especialista em mobilidade urbana da UFRJ Eva Vider defende que não existe outra alternativa a não ser as anunciadas, o professor da Uerj Alexandre Rojas diz que “as medidas são, no mínimo, temerárias”.

“Tem que colocar o prefeito para pegar o metrô cinco horas da tarde. Aí ele vai ver se dá para deixar o carro em casa. Antes de fazer um pedido como este, tem que oferecer transporte público de qualidade. Mas aqui no Rio o sistema já está na capacidade máxima. É só olhar como ficam os trens, o metrô e os pontos de ônibus na hora do rush”, disse Rojas. Clique na imagem abaixo para ampliar o infográfico:

Alterações do trânsito no Centro do RioArte O Dia

Eva Vider discorda. Para ela, além de deixar o carro particular em casa, seria importante a sociedade colaborar mais, mudando antigos hábitos de horários. “Olha, minha qualidade de vida melhorou muito depois que eu troquei meus horários. Eu faço de tudo para evitar a hora de pico. A minha empregada fez a mesma coisa. Eu pedi para ela chegar um pouco mais tarde, às 11h30, e aí ela sai por volta das 20h. Foi bom para todo mundo, porque ela perde menos tempo no trânsito. Isso se reflete diretamente na qualidade de vida das pessoas. Mais do que isso, ajuda a cidade a sair do caos”, avaliou.

O especialista da Uerj conta que o tráfego na Avenida Rio Branco, onde haverá algumas das principais mudanças, não vai aguentar o fluxo. “Eu não sei como eles vão fazer. Vai desviar de que forma? Aquele entroncamento que dá acesso ao Aterro do Flamengo vai virar um caos”, sentenciou.

Mas, para a professora da UFRJ, o caos é inevitável. De acordo com Eva Vider, quanto antes iniciarem as obras, melhor. “Não tem jeito. O caos em que o trânsito vai se transformar, e, é claro, isso vai acontecer, é um mal necessário para melhorar a cidade. Agora, é rezar para o tempo ajudar, para não ter enchentes e as obras andarem bem rápido”, completou, reforçando que o reescalonamento de horário deveria ser incentivado pela prefeitura.

Carros particulares dão adeus à Rio Branco no dia 8

A Avenida Rio Branco será fechada por tempo indeterminado aos veículos particulares a partir de 8 de fevereiro. A medida foi anunciada ontem pelo prefeito Eduardo Paes como parte de mais uma etapa da revitalização da Zona Portuária e da derrubada do último trecho da Perimetral, do Aeroporto Santos Dumont à Praça Mauá.

As mudanças no trânsito, no entanto, começam antes. Na próxima sexta, dia 24, haverá a proibição de estacionamento em diversas ruas do Centro, com a redução de mil vagas. No sábado, dia 25, a Perimetral será interditada definitivamente para remoção a frio (sem implosões) a partir das 22h.

“Entramos num caminho sem volta (em relação ao Elevado). E quanto mais rápido forem estas ações, menos tempo vamos ficar impactados pelas mudanças. Quero pedir mais uma dose de sacrifício à população e que as pessoas entendam que isto é necessário para mudarmos o estágio civilizatório do Rio”, disse Eduardo Paes.

O último trecho da Perimetral ainda aberto teve engarrafamento no fim da tarde desta sexta-feiraFernando Souza / Agência O Dia

Os impactos no trânsito continuarão no dia 26, quando seis ruas da Lapa e do Centro terão seus sentidos invertidos. No dia 1º de fevereiro, a Avenida Rio Branco passará a operar apenas no sentido Praça Mauá a partir da Presidente Vargas.

No dia 8, o mergulhão da Praça 15 será fechado por tempo indeterminado e a Rio Branco, então, será convertida em mão dupla, da Candelária ao Aterro, e só poderá ser utilizada por ônibus e táxis, e estes só poderão embarcar e desembarcar passageiros nas ruas transversais.
“Todas essas medidas têm como objetivo desestimular o carioca a ir de carro para o Centro e passar a dar preferência ao transporte público”, explicou o prefeito.

O trânsito em carros particulares será, de fato, complicado. Com o fechamento da Rio Branco e do mergulhão, para chegar ao Aterro do Flamengo a partir da Zona Portuária, será preciso utilizar a Via Binário, Rua Camerino, Avenida Passos e República do Paraguai.

No sentido inverso, em direção à Praça Mauá, o acesso será pela Presidente Antônio Carlos, Primeiro de Março e Visconde de Inhaúma. A partir de 10 de fevereiro, a faixa reversível da Presidente Vargas no sentido Canderlária será recuada até a altura da estátua de Zumbi dos Palmeiras e o último acesso à região do Castelo será pela Avenida Passos.

“O Rio de Janeiro está recuperando a sua história, onde tudo começou. Uma cidade sem Centro é uma cidade sem alma. Durante muitos anos, a classe alta fugia para a Barra da Tijuca em grandes condomínios fechados para fugir das mazelas da cidade. Sei porque também fiz isso. Agora estamos devolvendo o Centro ao carioca”, disse Eduardo Paes.

Destino final da Avenida Rio Branco ainda está incerto

A Avenida Rio Branco é uma das principais vias da cidade, cruzando todo o Centro. Ela foi a principal marca da reforma urbana realizada pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20. As obras iniciaram-se em março de 1904, com a demolição de 641 casas, desalojando quase 3.900 pessoas. Mas, se a carga histórica da rua é indiscutível, seu destino ainda é totalmente incerto.

“Há quem defenda que a Rio Branco vire uma espécie de parque, um negócio para turista. Tudo bem, vai ficar até mais bonito. Os ambientalistas adoram isso. Mas qual é o plano para as pessoas se locomoverem? O governo não pode decidir estas coisas por conta própria. Tem que conversar com a sociedade, ver se esta é mesmo a melhor alternativa. O problema no Brasil é que primeiro quebram tudo e, só depois, é que vão ver se vai funcionar ou não”, disse o especialista em mobilidade urbana da UERJ, Alexandre Rojas.

De fato, uma das propostas cogitadas para a Rio Branco é acabar com o tráfego entre a Avenida Nilo Peçanha e a Rua Santa Luzia, para a construção de um boulevard. A mudança chegou a ser anunciada para toda a rua, mas ficou limitada ao trecho que é uma espécie de corredor cultural da cidade. Por lá, além do cinema Odeon, ficam os teatros Municipal e Glauce Rocha, o Museu de Belas Artes e a Biblioteca Nacional. “Tem que pensar a cidade de forma estrutural. Não adianta consertar uma coisa e estragar a outra”, avaliou Rojas.

Estudo aponta melhora no trânsito

Um estudo feito pela prefeitura por exigência do Ministério Público mostrou que, diferentemente do que se esperava, o tráfego apresentou melhoras na região central após o fechamento da Avenida Rodrigues Alves para implosão de parte da Perimetral.

A velocidade média dos veículos pela manhã, no horário de pico, aumentou em vários pontos, principalmente para quem chega ao Centro pela Ponte Rio-Niterói. Neste trecho, a velocidade média aumentou 40%, quando o esperado seria uma redução de cerca de 10%. “Foi uma bela resposta àqueles que disseram que a prefeitura não estava se preocupando com os moradores de Niterói e São Gonçalo que trabalham no Rio”, disse Paes.

Nos acessos ao Centro pela Linha Vermelha, porém, a velocidade média foi reduzida além do esperado pela prefeitura (23,63%). “Estamos realizando um estudo para encontrar uma solução em relação à Linha Vermelha. É um problema que, de fato, temos de corrigir. Mas ainda não encontramos uma solução”, explicou o secretário municipal de Transportes Carlos Roberto Osório.

A prefeitura acredita, porém, que os números negativos possam ter sido reflexo de parte do asfalto da via, que cedeu no fim do ano passado.

Transportes terão reforços

O reforço no transporte público foi prometido tanto pelo prefeito Eduardo Paes quanto pelo secretário de Transportes, Carlos Roberto Osório.

O metrô ganhará reforço operacional para aumento da capacidade nas estações General Osório, Botafogo, Carioca e Uruguaiana, além das linhas de metrô na superfície.

“Não haverá aumento significativo em quem vem da Pavuna, por exemplo, porque quem mora lá já usa transporte público. O motorista da Zona Sul é que terá de mudar de hábitos”, disse Osório.

A Supervia prometeu criar linhas expressas no ramal Japeri e partidas extras no terminal Gramacho. As barcas também terão reforço operacional.

Os ônibus terão aumento de frota nos serviços executivos. A ligação de São Cristóvão à Zona Sul via Túnel Rebouças vai passar a operar com 100% da capacidade.

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