Por bferreira

Rio - Bastou um pretexto, nada mais do que um estopim. Pequenas manifestações contra o aumento das passagens de ônibus liberaram uma energia que não se sabia tão grande, tão forte. A violência da repressão policial serviu para amplificar o sentimento de revolta e dar a certeza da exclusão, da necessidade de partir para o ataque.

Contra o que são os protestos? São contra o que você quiser, escolha um motivo. É como a piada, eles sabem por que apanham: passagens caras, transporte desumano, obras bilionárias para a Copa do Mundo que atropelaram leis, direitos adquiridos e bom-senso, ameaça de retirada de poderes do Ministério Público, conchavos, subordinação de setores do Judiciário ao Executivo, auxílio-alimentação retroativo para o Tribunal de Contas da União, licitações fraudadas, políticos de um modo geral.

O país melhorou muito, mas continua pobre, desigual ao extremo, incapaz de oferecer uma educação de qualidade,que permita alternativas de ascensão social. Entra governo e sai governo e os hospitais públicos continuam a impedir que jornais fiquem sem notícias; boa parte da polícia dedica-se a provar que existe apenas para garantir o poder de quem manda. Como bem detectou o deputado federal Miro Teixeira (PDT), a busca do consenso a qualquer preço acabou com as necessárias divergências políticas. Na grande maioria dos casos, eleições não revelam uma disputa entre concepções ou propostas, mas apenas conflitos de interesses: em busca de votos, Fernando Henrique Cardoso se aliou a Antônio Carlos Magalhães; Lula se tornou companheiro de Maluf. Manifestantes erram ao propor uma política sem políticos ou partidos, isso era o que pregavam os fascistas, foi assim que Collor se elegeu. Mas não dá para culpar os novos donos das ruas pela visão equivocada. Foi a atuação de políticos que desqualificou a política, eles plantaram a revolta que hoje se vê pelo país.

‘O cobrador’, conto de Rubem Fonseca, ajuda a entender um pouco esta revolta. O personagem principal comete crimes em série para cobrar tudo o que a vida havia lhe negado: “Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.” As ruas estão cheias de cobradores, cabe aos governos negociar o pagamento de tantas dívidas acumuladas e evitar que a cobrança se torne intolerável e perigosa.

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