Por nara.boechat

Rio - Uma sensação de muriçoca rondando a cama, um zumbido incessante no ouvido, vem me consumindo desde que o slogan atleticano “eu acredito” vazou aos berros na TV, o ápice de uma vitória. Eu acredito! Eu acredito! Não sai da minha cabeça. Quase um néon de motel na Rio-Petrópolis, o luminoso de destaque na Times Square, a frase se manifesta sobre o meu cotidiano.

A chuva entediante me levou ao primeiro taxi, bigorrilho aceso, que, caridosamente, acatou o meu aceno e levantou a bandeirada 2: “É feriado, doutor, tabela especial!” Sim, eu acredito. Me convenceu a ir por dentro com desvios no improvável: “Tá tudo engarrafado, chefia!” Sim, acredito.

Feira livre, encosto no tomate: “Pode levar, freguês. Foi colhido ontem! Mas deixa que eu escolho, só os durinhos!” Sim, acredito. Segui até o peixe margeando as promoções do morango transgênico ou a pera-pedra, pra morder, só Corega, cravando os olhos na guelra da corvina de linha. Na dúvida, uma orientação: “Foi pescado este mês?” “Que isso, comandante? Saiu do barco agora. Chegou na barraca vivo!” Sim, acredito.

A frase escapulia da boca feito um descuidado perdigoto, uma tosse no cinema, um bordão na zorra total dos meus diálogos com a vida prática. A pé, na calçada, um gaiato finge me conhecer, me abraça íntimo de infância, oferecendo uma caneta chinfrim e butuca no meu bolso: “É pra ajudar na formatura!”. Apertei o passo. Impossível acreditar, mas...

Ando atordoado. A cabeça balança em gestos entorpecidos. Ainda acredito no portão do embarque do aeroporto. Confio na meteorologia, aceito as filipetas que me empurram um jogo de búzios com a Vó Dicá, enfim. Acredito, também, que toda essa mamata esteja com os dias contados. Eles prometem. Outros juram de pés juntos. O pedreiro pede adiantamento e garante chegar cedo no dia seguinte. O mecânico descobre o defeito: “Um simples fio solto”. O entregador instala a geladeira e te oferece a preço de banana, os quatro pés necessários. Ainda tem o cumprimento final: “Amo junto!”

Preciso acompanhar o relator. Azambuja era um personagem do mestre Chico Anysio, nós somos reais, embargados na esperança de um mundo melhor. Confesso ter acreditado em Papai Noel; fiz fé num zagueiro estrangeiro, tremendo cabeça de bagre; já apostei em pangaré, tostões e sentimentos que a vida nos amadurece. Falta crer na cidadania que nos apresentam, recorrer aos pênaltis, se for preciso, mas vencer essa guerra. Os antigos diziam “é mais fácil falar com o Papa” e, taí, depois desses dias, sim, eu acredito!

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